2.ª Parte
E como teria a Igreja operado as
maravilhas agora mencionadas? Procurando
instaurare omnia in Christo,
isto é, difundindo o Reino de Cristo nos indivíduos, nas famílias e
na sociedade. Nestes tristes tempos, em que as bases da sociedade e
dos Estados estremecem, nestes dias calamitosos em que a Família, a
Propriedade e o Estado vacilam, e em que se defrontam dois numerosos
exércitos – um por Cristo e outro contra Cristo – só um grito de
alma e coração nos pode salvar, e esse grito de alma nos foi
ensinado por S. Paulo: “é necessário que Ele reine”.
Ele é a solução de todas as dificuldades, quer dos indivíduos, quer
dos Estados. As bases da sociedade, antes da revolta de futuro,
eram cristãs, mas depois que a soberba desse desgraçado se rebelou
contra a Igreja, e principalmente depois da Revolução Francesa, o
liberalismo e, mais tarde, o laicismo, que é justamente “a peste dos
nossos tempos”, quiseram e procuraram organizar o Estado sem Deus, a
educação sem Deus e a família sem Deus.
O
laicismo soltou, de novo, o grito dos judeus desvairados: não
queremos que Ele reine sobre nós – e Jesus, vendo que o mal de que
sofria a sociedade era muito grande e como jamais fora, mais uma vez
quis redimir a sociedade pecadora, reservando-nos para estes últimos
tempos a devoção ao seu Sagrado Coração, que é, talvez, o seu último
esforço para quase obrigar os homens a corresponderem ao seu amor
imenso e a que se salvem. Não é que esta devoção seja nova, pois
data do princípio da Igreja, mas Deus quis que ela fosse
ardentemente pregada a toda a humanidade nestes só últimos tempos.
Conta-se que, perguntando S. Gertrudes
a S. João Evangelista o motivo por que, tendo ele a felicidade de
repousar sobre o Coração de Jesus, nada dissera das suas maravilhas,
o Apóstolo que melhor nos falara da Santíssima Trindade respondera
que Deus destinara essa revelação para os tempos da nova
paganização. Vivemos nesses tempos e, mais uma vez, Jesus nos
revelou o meio de salvação da sociedade. Foram quatro os grandes
mensageiros do Coração de Jesus: Santa Margarida Maria,
a Irmã Maria do Sagrado Coração,
que para glória de Portugal viveu e repousa na cidade do Porto, o
grande Padre Matéo,
que recebeu, em 1907, o honroso mandato de conquistar o mundo,
família por família, para o Sagrado Coração de Jesus, fazendo
entronizar a Sua imagem em nossas casas e, sobretudo, em nossos
corações, e os Senhores de Noaillat
– os grandes promotores da festa de Cristo Rei, os que mais
trabalharam para a nova festa litúrgica em que é proclamada a
Realeza Universal de Jesus Cristo. Se quisermos saber o que Jesus
quer da humanidade para que esta se salve, ouçamos o que nos
ensinam, por ordem de Deus, esses apóstolos por intermédio de quem o
Céu nos dirigiu as mensagens cujo cumprimento será a nossa salvação.
Não se trata de dogmas novos, mas de novos actos de afecto, e
querermos que a Igreja não tenha, não prefira ou não desenvolva
certas devoções é exigir que um coração que ama tenha sempre as
mesmas manifestações de amor. Demais o desenvolvimento da devoção ao
Coração de Jesus equivale, a bem dizer, a uma reaparição de Jesus na
terra. Nesta e por esta devoção Jesus quase nos obriga a que O
amemos e a que nos salvemos. Por ela o mundo será regenerado e
salvo.
***
O Sagrado Coração de Jesus quer e deve
reinar em todos os indivíduos pois é o nosso Criador: - “todas as
coisas foram feitas por Ele e nada do que foi feito foi feito sem
Ele: nele vivemos e nos movemos e existimos”.
É o nosso Salvador, é a nossa riqueza,
visto que “morrendo por nós, todo aquele que invocar o nome do
Senhor será salvo, e Ele sempre foi rico para com todos os que O
invocam”.
Como disse S. Paulo – aquele grande Apóstolo que mais nos elucidou
no mistério da Redenção: “Nós, que éramos filhos da ira, hoje somos
de Cristo, pois fomos comprados por um grande preço, e hoje Cristo
deve ser a nossa vida, visto que Ele nos ressuscitou para uma nova
vida, sendo o nosso Redentor, e só teremos liberdade existindo em
nós o Seu espírito”.
Jesus é portanto o nosso Rei. Rei por eleição dos vassalos, visto
que, revoltando-se Lúcifer e uma terça parte dos anjos, S. Miguel, à
frente das duas partes dos coros angélicos, bradou: - Quem como
Deus?
Rei proclamado pelo Seu Eterno Pai quando foi prometido a Adão o
Redentor. Rei proclamado pelos Patriarcas e pelos Profetas,
denominando-O “Rei dos reis e Senhor dos que governam”.
Rei proclamado pelo Arcanjo que, saudando a Cheia de Graça e falando
de Jesus, disse que o Seu reino não teria fim. Rei cantado pelos
anjos: “Glória a Deus no mais alto do Céus e paz na terra aos
homens!”
Rei proclamado pelos Magos, dizendo: “Onde está o Rei dos judeus que
é nascido? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos
adorá-Lo”.
Rei por herança, pois Lhe foi dito: “Pede-Me e Eu te darei todas as
gentes em herança”.
Rei por conquista e resgate, pois venceu o mundo e nos resgatou. Rei
manifestado por Si mesmo, quando, referindo-Se ao tremendo Juízo
Final, disse: “Então o Rei dirá aos que estiverem à Sua direita: -
Vinde, benditos de Meu Pai, possuí o Reino que vos está preparado
desde o princípio do mundo”;
e, quando, perguntando-Lhe Pilatos se era Rei, respondeu: “Tu o
dizes”.
E é Rei eterno, visto que reinará eternamente na Casa de Jacob. E é
Rei universal, porque disse a Seu Pai: “- Todas as Minhas coisas são
Tuas e todas as Tuas são Minhas".
E é Rei absoluto da natureza e da graça: “Porque Lhe foi dado todo o
poder no Céu e na terra”.
E é Rei de amor, porque imolando a Sua vida por nós, apesar das
nossas ingratidões, ainda Se sente “apaixonado de amor pelos homens,
querendo a todo o custo tirá-las do abismo da perdição”.
E a Sua realeza é incontrastável: “Ao
nome de Jesus, todo o joelho se dobrará no Céu, na terra e nos
abismos infernais”.
Eis porque deve ser Rei da nossa inteligência e da nossa vontade, a
Quem prestaremos vassalagem quer com alegria infinda, que com
desespero sem nome. Que Ele reine em nós com amor e que a Sua
justiça nos poupe deve ser o nosso maior anseio. Neste mundo, em
que, como muito bem disse Marcel Arland,
“nenhum sistema nos satisfaz e a ausência de um sistema nos
angustia”, somente Jesus nos ensinou qual a finalidade da nossa
vida, dizendo-nos como devemos viver, ou melhor, “sem Ele nenhum
homem atingirá o sentido da vida nem a verdadeira felicidade”.
***
Mas o Coração de Jesus deve reinar também na sociedade e portanto
nos seus grupos fundamentais: nas famílias, nas escolas, na vida
pública e nos Estados.
O Sagrado Coração de Jesus deve reinar nas famílias. A família,
fundamento e vida do organismo social, é, depois da religião, a
instituição mais bela criada por Deus. Disse alguém que era a
segunda alma da sociedade, mas os legisladores somente olham para o
indivíduo e para a nação, e esquecem as famílias, esquecendo-se que
não há nações fortes sem famílias prósperas e boas. Se quisermos uma
sociedade morigerada e uma nação próspera e digna, sendo esta
constituída por uma união de famílias, necessário é que estas sejam
dirigidas e norteadas pelas regras do bom senso e da moral. Uma
nação é sempre o que as famílias que a constituem quiserem que ela
seja, e tem sempre o governo que merece. Hoje que combatemos a
ridícula omnipotência do indivíduo da legislação liberal e nos
opomos à injusta omnipotência do Estado dos nacionalismos exagerados
e irrequietos, temos de dar à instituição intermediária, que é a
família, o lugar que deve ter de direito, e as funções só serão
devidamente exercidas se a sua organização for cristã.
Todos lastimam a decadência dos costumes da sociedade, o aumento da
criminalidade, a desorganização das famílias e o esfacelamento de
vários lares, todos constatam que a hora que passa não é de
tranquilizar os espíritos, mas poucos vêem que a tormenta só passará
se as famílias forem renovadas moralmente e se Cristo voltar a ser
por elas adorado. Cristo promete-nos a sua paz e alívio para os
nossos desgostos uma vez que Ele seja entronizado nas nossas casas.
Se queremos a restauração de Portugal e que ele volte aos passados
dias de glória, temos de organizar a família em bases cristãs, aliás
não haverá transformação política nem reformas legais bastantes que
impeçam a sua decadência. Nunca serão prósperas as nações, estando
as suas famílias decadentes. A base da vida social, segundo os dados
da Sociologia actual, é a família, e para esta devem convergir as
atenções de todos aqueles que queiram, de verdade, as suas nações
florescentes e restauradas. Precisamos de famílias que eduquem bem
os seus filhos e não ponham limites ao seu número: famílias que,
respeitando a indissolubilidade do matrimónio, não admitam o
divórcio, embora, em casos excepcionais, haja a separação das
pessoas; mas também precisamos de que os Estados tenham as suas leis
de protecção a essas mesmas famílias.
Essa protecção devida e sagrada – tão devida e sagrada que para a
notar não são precisos olhos de águia nem ser grande legislador –
contribuirá para que nas famílias reine Jesus Cristo, sejam felizes
os pais, exemplares as mães e virtuosos os filhos. Para que Portugal
volte a ser próspero e glorioso, para que haja paz na sociedade, é
necessário que as famílias, sendo protegidas pelos Estado, sejam
reconquistardes para Deus, e sê-lo-ão por meio dum sincero
apostolado social e religioso.
***
O Sagrado Coração de Jesus quer e deve reinar nas Escolas.
As Escolas são o prolongamento das famílias porque completam a
instrução e educação dadas por estas, preparando os cidadãos para
formarem os grandes Estados. Sendo assim, as Escolas devem estar
repassadas do espírito religioso das famílias, para que a formação
moral e religiosa da juventude não seja deformada, desonrando a
nação de que fazem parte. A juventude precisa de ser instruída, mas
sobretudo educada. Temos necessidade de sábios, de muitos sábios,
mas principalmente de homens de carácter, de homens sem
desdobramentos de consciência e que nas várias emergências da vida
pública se conduzam de harmonia com os princípios que professam.
Disse Bressen: “Um jovem educado sem
Deus será sempre mau filho, mau esposo, mau compatriota; homem sem
moral e sem consciência, velho cínico, moribundo sem esperança. Se
for operário, será preguiçoso; se for juiz, prevaricará; na família,
será um tirano; na sociedade, um verdugo; se for soldado, ninguém se
admire que seja um traidor”. Atendendo a isto é que o insuspeito
Unamuno
escreveu a respeito de Espanha: “A ordem de retirar os crucifixos
das Escolas é disparatada e não só antinatural, antipopular e
anti-histórica, mas também antipedagógica”. Atendendo a isto é que
Guerra Junqueiro exclamou: “O dístico – Sem Deus nem Religião – nas
bandeiras das escolas infantis é uma blasfémia satânica, é um
estupro moral”.
Queremos, pois, que o Sagrado Coração
de Jesus reine nas Escolas portuguesas não só porque, como diz o
nosso grande Ministro da Educação Nacional, que é o Sr. Dr. Carneiro
Pacheco,
Deus e Pátria andam juntos desde que Portugal nasceu, mas também
porque ninguém como Ele amou as criancinhas, e “sem Ele o homem
caminha para a sua ruína e não pode sequer viver dignamente como
homem”, como tão belamente escreveu o Eminentíssimo Senhor Cardeal
Patriarca.
***
O Sagrado Coração de Jesus quer e deve reinar na vida pública e dos
Estados.
Neste século em que vivemos, quatro acontecimentos se deram: a
guerra mundial de 1914, a revolução comunista na Rússia, de 1917, a
revolução nacionalista italiana de 1921 e a Contra-revolução
portuguesa de 1926, que levaram a humanidade a uma nova idade
histórica. Por virtude desses acontecimentos, ou melhor, das ideias
que lhes deram origem, são quatro os principais caminhos abertos à
nossa frente, quatro as concepções da vida; a cristã, a liberal, a
socialista e a nacionalista-totalitária.
A concepção de vida que nós – católicos – devemos abraçar é a
cristã, e essa deve ser integral, harmónica e hierárquica.
Integral – pois devemos agir, tanto na
vida particular como na vida social, sem quebras da nossa fé.
Harmónica, para que a nossa dignidade e política se harmonize com a
nossa dignidade pessoal, para que a nossa vida púbica se harmonize e
condiga com a nossa vida particular, vida essa baseada no
cumprimento dos nossos deveres religiosos e no respeito dos direitos
alheios. Hierárquica, para que a nossa vida natural esteja sujeita à
vida sobrenatural, isto é, a nossa vida familiar e civil respeite o
primado do Espírito e do Sobrenatural. É preciso que a concepção da
vida cristã norteie, de novo, os indivíduos cuja filosofia de vida
se encerrava na frase conhecida de Stendhal:
“Se a morte é inevitável, esqueçamo-la”.
Não; é preciso que os indivíduos pensem na morte para que saibam
resolver o grande problema da vida. Como disse Salazar – esse homem
que é o orgulho do Portugal de hoje – a vida não é um brinquedo, ela
é, ela deve ser uma coisa séria. Ela é uma responsabilidade e ai das
famílias e dos Estados em que a vida continue a ser considerada como
coisa vaga. Os costumes dos nossos tempos fazem lembrar os da antiga
Grécia e Roma: a mesma esterilidade voluntária dos matrimónios –
sinal próprio das famílias e dos Estados que caminham para a sua
ruína –, o mesmo naturalismo e cepticismo, a mesma crise material e
moral, derivada duma grande crise de inteligência, a mesma
indiferença em face dos maiores problemas da vida, o mesmo
rebaixamento de costumes, tudo isso agravado pela persuasão de
muitos de que é preciso destruir a sociedade actual e organizá-la em
novas bases económicas para que as famílias voltem a ser felizes,
esquecendo assim as três maiores verdades – Deus, Cristo e a Igreja
– verdades essas de que dependem a justiça, o direito, a verdadeira
liberdade, igualdade e fraternidade, o verdadeiro amor, a
civilização, ou melhor dizendo, a base da ordem social, sem o que
não passaríamos de bárbaros. Esse escritor maravilhoso que é Tristão
de Ataíde
escreveu muito bem que “passou o tempo das meias verdades. Já não é
mais possível aquela atitude de desencantados. Isto é: temos de nos
decidir a nos decidirmos. E porquê? Porque o século XX vai ser ora
um diálogo, ora um duelo entre o Vaticano e o Kremlin, pois encarnam
visivelmente, em face de nós, a lógica extrema do erro e a expressão
intangível da Verdade”. Na verdade temos que optar: ou civilizados,
respeitando os direitos que sobre nós tem Jesus, que é ainda
felizmente o Ente mais querido e actual do mundo – “Aquele que tudo
pode e ao Qual todas as forças obedecem” – ou renegados e
envilecidos, contra Cristo, contra a grande família religiosa, onde
vivem, no dizer de Renan, as melhores almas do mundo, sentindo-nos
por elas condenados. As nações estão interessadas nessas opções que
fazemos.
Se os indivíduos e as famílias
respeitarem os direitos de Deus, procurando o reinado social de
Cristo, as Nações e os Estados, estando sujeitas à soberania de
Cristo, como os indivíduos e as famílias, prestarão culto público ao
Rei dos reis, ao Senhor dos Estados, e com isso se fortificam e
nobilitam. Então as Nações e os Estados, atendendo a que, como
escreveu Leão XIII
– esse Papa autor de Encíclicas de luz fulgurante, “os homens,
unidos em sociedade, não são menos dependentes do poder divino do
que quando considerados individualmente”, harmonizando as suas leis,
as suas instituições, a sua Constituição enfim com o Evangelho, que
na frase candente de Giovani Papini,
“nunca como hoje foi necessário e nunca como hoje foi esquecido e
desprezado”. A experiência está feita há muito: os Estados que se
afastam do Evangelho depressa encontram o seu calvário, a sua
desolação e a sua morte. Com muita razão escrevia Brunetière:
“O que aguenta o mundo de geração para geração e o impede de recair
na barbaria não são de modo algum os progressos da matemática ou da
química, nem os da história ou da erudição: são as virtudes activas
que o Cristianismo transformou em leis de conduta humana, levando os
indivíduos ao máximo dos sacrifícios e de abnegação”. O liberalismo
e o laicismo proclamaram que a origem do poder e do direito estava
no povo e que o Estado devia viver desligado de prestar homenagem a
Deus, considerando a religião como coisa particular, e assim iniciou
o esquecimento de Deus nos Estados e repaganização da sociedade,
sendo laicizadas as escolas, as famílias e todas as instituições. É
necessário agora recristianizar as consciências, restaurar tudo em
Cristo. É um engano pensar que pode haver felicidade e progresso nos
países que se revoltarem contra o reinado de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Como há anos declarou, em pelo senado da Colômbia, o seu
digníssimo presidente: “As nações, por mais poderosas que sejam pela
sua civilização e progresso material, devem um dia, se não quiserem
perecer, vir humilhar-se perante seu Criador”. Nessa ocasião, o
deputado Dr. Gabriel Megia, ao sancionar a lei que determinava a
consagração oficial da República a Jesus Sacramentado, não se
envergonhava de fazer as seguintes declarações, muito dignas de
serem meditadas por todos nós: “Fui no primeiro estádio da minha
vida um radical exagerado. Liberal foi meu Pai, liberais sofram os
meus antepassados, ambiente liberal respirei sempre no lar
doméstico, liberalismo aprendi nos colégios e liberais foram todos
os meus companheiros juventude; fui ateu, perseguidor da Igreja,
pregador da ideia anticristã; fui inimigo declarado de Jesus Cristo
e das suas doutrinas, da sua Igreja. Contra esta, eu combati com
todas as armas ao meu alcance, mas tive a fortuna de ver o meu erro,
de encontrar o verdadeiro e único caminho, e hoje, arrependido,
profundamente arrependido, da minha vida passada, vejo-a com horror,
e faço esta declaração perante a honrosa Câmara e neste recinto… Com
a mesma intrepidez com que antes combati Cristo, hoje confesso-O com
todo o entusiasmo; sou crente, sou católico. E, sendo-o, desapareceu
todo o vínculo com todos os meus antigos companheiros, porque, na
luta pela minha fé, estou disposto a todos os sacrifícios, ainda o
da minha vida. Poderão os meus antigos companheiros de ideias
insultar-me, agredir-me, atentar até contra a minha vida”
(nalguns bancos da minoria da Câmara, ouvem-se palavras contra o
orador). E ele, intrépido, exclama: “Ouvi-os?! Começam os seus
insultos; não importa! Tenho compaixão deles!” Assim falam os que,
torturados do infinito ou açoutados pelo vendaval da dúvida e da
descrença, terminam os seus actos de loucura e irreligião, prestando
fé e jurando amor às ideias e crenças religiosas, a Cristo – única
fonte de luz, paz e amor.
Sejamos também daqueles que querem que o Sagrado Coração de Jesus
reine nas consciências, nas famílias e nos Estados. Seríamos
traidores à nossa fé se não ouvíssemos os Representantes de Jesus na
terra e não fizéssemos parte dessa falange de operários da Acção
Católica que querem cooperar na recristianização do mundo moderno. A
Acção Católica é hoje um dos meios mais profícuos para restaurar
tudo em Cristo. Por ela defenderemos os direitos dos fracos, dos
pobres e dos humildes e (os que têm ouvidos de ouvir ouçam)
salvaremos os ricos. Por ela contribuiremos para a solução da
questão social, que, sendo uma questão moral e religiosa, deve ser
resolvida segundo os preceitos e conselhos da moral e da religião.
Por ela evitaremos uma nova barbaria.
Mas sejamos claros. Aos que nos disserem que Portugal está em
perigo, devido ao comunismo, que é a “negação de todos os direitos
divinos e humanos”, e verdadeiro anticristianismo integral, e que
para o enfrentar bastará o Estado Novo, respondemos: estais
enganados. O Estado Novo, que ainda tem muito de mau do Estado
velho, em virtude do que o homem providencial, que é Salazar, forma,
“na primeira linha dos descontentes”, o Estado Novo, digo, que por
nossa culpa, e só nossa, ainda tem leis e instituições que não são
cristãs, não basta para debelar, por si só, o comunismo. Para que
este seja debelado, é necessário que a sociedade se torne cristã,
aliás cedo ou tarde o comunismo triunfará. Como muito bem disse esse
glorioso príncipe da Igreja e das letras pátrias, o Eminentíssimo
Senhor Cardeal Cerejeira, não se luta contra o comunismo senão
opondo-lhe um ideal superior. Os cordões da polícia não bastam para
o conter. Quando o espírito é vencido, cedo ou tarde as instituições
sê-lo-ão também. Abramos, pois, bem os olhos, nós que temos dormido
a sono solto. Pouco antes de 1910, passavam os católicos portugueses
o tempo na desunião e desarmonia. De 1910 a 1926, era natural que se
unissem – ut unum sint
– de modo a poder ser-lhes dada uma legislação inteiramente
católica… mas a união e o devido trabalho faltaram. Se tivéssemos
trabalhado, ao menos desde então… mas não; estamos na expectativa, a
ver o que virá…, continuamos a viver na indiferença e desunião,
indiferentes aos apelos dos nossos Prelados e do Santo Padre… e o
perigo avança a querer arrastar-nos para a desgraça e aviltamento.
Se se tratasse somente de nós, era esse o justo castigo da nossa
indolência. Tenhamos, porém, dó das inocentes crianças de Portugal,
e desta Pátria, que foi grande e gloriosa! Se somos uma geração
sacrificada, que se aproveite o sacrifício que fazemos! Senhores! É
passado o tempo de os católicos se refugiarem nas sombras dos lares
e chegou o tempo de se tornarem activos, no mundo, difundindo a
doutrina de Cristo e da Igreja.
Os tempos presentes exigem católicos
que na Igreja entoem ao Senhor de todas as grandezas o
Te Deum laudamus, Te Dominum
confitemur
e trabalhem para que os seus irmãos respondam a fim de que seja
verdade o Te aeternum Patrem
omnis terra veneratur.
Nunca esqueçamos que fazendo Acção Católica, procuramos o Reinado
Social do Sagrado Coração de Jesus e a quem nos disser que por outro
meio encontraríamos solução para o mal da sociedade contemporânea,
responder-lhe-emos com as palavras do nunca assaz louvado Alceu
Amoroso de Lima: “Com verdade podemos dizer que a Igreja tem solução
para tudo, pois mesmo nos casos que lhe não cabe decidir, nos casos
da acção livre da nossa vontade, não só ela nos explica que temos
plena liberdade de agir segundo o mosso juízo individual, mas ainda
esclarece esse julgamento próprio com toda a sua experiência e a
sabedoria dos seus Papas, dos seus santos, dos seus sábios”. E se
pela Acção Católica nós proclamamos que “é necessário que o Sagrado
Coração de Jesus reine”, e podemos recristianizar a sociedade, há um
outro apostolado, do mesmo fim, e que todos podem realizar, porque
todos podem orar: é o Apostolado da Oração.
Se nem todos podem fazer parte do
apostolado da Acção Católica, todos podem e devem pedir a Deus que
venha a nós o Seu reino, a fim de que todos os homens e todas as
coisas louvem o Senhor, isto é, todos podem fazer apostolado de
oração. Se sem o auxílio de Jesus nada podemos fazer, e, por meio do
Seu auxílio, por meio da oração, tudo conseguiremos. Nunca a nossa
oração será tão aceite como quando pedimos a Deis o Reinado social
de Jesus. Se Santa Teresinha do Menino Jesus,
“esse milagre de graça e prodígio”, é, no dizer de Pio XI, “a maior
santa e o maior e mais famoso missionário dos tempos modernos”,
deve-o ao seu apostolado de oração. Elisabeth Leseur
– essa mulher admirável a quem Dantec
chamava o espírito mais profundo então conhecido – escreveu um dia:
“A vida de todos nós é uma responsabilidade e somos culpados não
somente do mal que fazemos, como do bem que deixamos de fazer”. E só
Deus sabe o bem que podemos operar pela oração. Quem ora bem busca
primeiro o reino de Deus e a sua justiça e por isso mesmo tudo o
mais lhe será dado por acréscimo. Quem ora bem faz apostolado;
também pode converter e santificar almas. Converter e santificar
almas é obra sobrenatural, é obra divina, mas quem recebe Jesus na
Eucaristia fica divinizado, é por assim dizer um prolongamento de
Cristo, nele vive a Santíssima Trindade e por isso mesmo é quase
omnipotente. Seremos, pois, apóstolos na medida em que vivamos para
Jesus. Havendo hoje oradores e sábios como nunca, qual o motivo de
não estar convertido o mundo? É porque não há vida de oração, não há
vida interior. Santa Teresinha converteu muitas almas; e como o
faria se à sua morte algumas companheiras não sabiam o que dizer da
falecida à Madre do Convento? Porque era um cálice cheio, bem cheio
de Jesus, a trasbordar sobre as almas e sobre a Igreja… Jesus
Cristo, para que o mundo se convertesse, mandou pregar a sua
doutrina, doutrina essa que é preciso sair das sacristias e ir ao
povo, acabando com essa frase maldita – o padre na sacristia - frase
vinda desse nefando liberalismo, em virtude da qual se operou o
maior escândalo do século passado, e que foi a perda para a Igreja
das massas operárias. Sim, é preciso que haja Acção Católica, que
haja pregação, dentro e fora da Igreja, mas desenganemo-nos de que
nada faremos se não houver muita e muita oração.
É por isso que devemos considerar os conventos e casas religiosas –
essas casas de oração e imolação – como lugares sagrados e
pára-raios da justiça de Deus. Quantas e quantas conversões que nós
atribuímos a isto ou àquilo se devem a almas santas dessas casas,
por intermédio de suas orações e sofrimentos, que tudo transformam e
tudo atingem. Jesus Cristo, para nos salvar, viveu no mundo trinta e
três anos, e, coisa admirável, trinta anos foram passados a
pregar-nos em silêncio, em oração, no trabalho, e somente três foram
destinados à pregação oral. Eis porque não são apóstolos unicamente
aqueles que por Deus foram chamados à actividade externa, à
pregação, mas também o podem ser aqueles que, orando e sofrendo,
vivem segundo a escola de Nazaré e segundo a nossa querida Santa
Teresinha. Quantas almas não levam uma vida obscura e hão-de fazer
parte, no Céu, do Colégio Apostólico!
Orar e orar bem é, pois, o maior auxílio da Acção Católica e o
melhor meio de contribuir para que venha a nós o reino do Senhor.
Sem oração não haverá apostolado digno deste nome. Como é que Jesus
se preparou para o seu Apostolado? Orando e suplicando. E a orar e a
suplicar o exerceu.
Para fazer o elogio mais apreciável do Apostolado da Oração eu
quero, terminando, servir-me das palavras dum dos mais gloriosos
Papas de todos os tempos e que é Pio XI: “A oração primeiro que
tudo, o sobrenatural primeiro que tudo… Todos os actos da Acção
Católica, grandes ou pequenos, devem ser preparados, assistidos e
consolidados pela oração”.
Disse.
Uma avaliação
O articulista que no dia 21 de Junho de 1936 fez a reportagem do
Congresso do Apostolado da Oração e das Associações de Piedade para
o Diário do Minho não poupou elogios ao discurso do Dr. Dias
de Azevedo:
“No exórdio (o Dr. Dias de Azevedo) saúda o Prelado de Braga,
e Episcopado e o Eminentíssimo Cardeal Patriarca e provoca, na forma
da saudação, muitas palmas e aplausos da assembleia.
Ao tratar o assunto, fá-lo com eloquência e com método, provando que
o melhor ideal do cristão é servir a Igreja e que, servindo-a, se
obterá o reinado social de Jesus Cristo, mediante a Acção Católica e
o Apostolado da Oração. A exposição da tese é interrompida com
frequência, quando o orador demonstra os serviços da Igreja à
civilização e afirma que sem ela não pode haver remédio para a crise
presente.
Com a mesma eloquência e erudição com que provou que o melhor ideal
do homem é servir a Igreja, demonstrou o direito de Cristo a reinar
na sociedade. A propósito, ocupa-se da escola, da família, da
educação e da necessidade de em todos esses aspectos da vida fazer
reinar a Cristo.
Alude a factos contemporâneos que deram lugar a uma nova época
histórica e das concepções de vida que perante ela se manifestam: a
cristã, a liberal, a socialista ou nacionalista totalitária. Só a
cristã dá ao homem a verdade e a vida e representa na sociedade a
paz e a justiça. No final do seu trabalho, claro, desassombrado,
revelador de muita erudição, o orador faz a apologia do Apostolado
da Oração e da Acção Católica e recebe ao terminar uma salva de
palmas que dura uns minutos”.
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