DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

O Apostolado da Oração
e o Reinado Social do SS. Coração

II

2.ª Parte

E como teria a Igreja operado as maravilhas agora mencionadas? Procurando instaurare omnia in Christo[1], isto é, difundindo o Reino de Cristo nos indivíduos, nas famílias e na sociedade. Nestes tristes tempos, em que as bases da sociedade e dos Estados estremecem, nestes dias calamitosos em que a Família, a Propriedade e o Estado vacilam, e em que se defrontam dois numerosos exércitos – um por Cristo e outro contra Cristo – só um grito de alma e coração nos pode salvar, e esse grito de alma nos foi ensinado por S. Paulo: “é necessário que Ele reine”[2]. Ele é a solução de todas as dificuldades, quer dos indivíduos, quer dos Estados. As bases da sociedade, antes da revolta de futuro[3], eram cristãs, mas depois que a soberba desse desgraçado se rebelou contra a Igreja, e principalmente depois da Revolução Francesa, o liberalismo e, mais tarde, o laicismo, que é justamente “a peste dos nossos tempos”, quiseram e procuraram organizar o Estado sem Deus, a educação sem Deus e a família sem Deus. O laicismo soltou, de novo, o grito dos judeus desvairados: não queremos que Ele reine sobre nós – e Jesus, vendo que o mal de que sofria a sociedade era muito grande e como jamais fora, mais uma vez quis redimir a sociedade pecadora, reservando-nos para estes últimos tempos a devoção ao seu Sagrado Coração, que é, talvez, o seu último esforço para quase obrigar os homens a corresponderem ao seu amor imenso e a que se salvem. Não é que esta devoção seja nova, pois data do princípio da Igreja, mas Deus quis que ela fosse ardentemente pregada a toda a humanidade nestes só últimos tempos. Conta-se que, perguntando S. Gertrudes[4] a S. João Evangelista o motivo por que, tendo ele a felicidade de repousar sobre o Coração de Jesus, nada dissera das suas maravilhas, o Apóstolo que melhor nos falara da Santíssima Trindade respondera que Deus destinara essa revelação para os tempos da nova paganização. Vivemos nesses tempos e, mais uma vez, Jesus nos revelou o meio de salvação da sociedade. Foram quatro os grandes mensageiros do Coração de Jesus: Santa Margarida Maria[5], a Irmã Maria do Sagrado Coração[6], que para glória de Portugal viveu e repousa na cidade do Porto, o grande Padre Matéo[7], que recebeu, em 1907, o honroso mandato de conquistar o mundo, família por família, para o Sagrado Coração de Jesus, fazendo entronizar a Sua imagem em nossas casas e, sobretudo, em nossos corações, e os Senhores de Noaillat[8] – os grandes promotores da festa de Cristo Rei, os que mais trabalharam para a nova festa litúrgica em que é proclamada a Realeza Universal de Jesus Cristo. Se quisermos saber o que Jesus quer da humanidade para que esta se salve, ouçamos o que nos ensinam, por ordem de Deus, esses apóstolos por intermédio de quem o Céu nos dirigiu as mensagens cujo cumprimento será a nossa salvação. Não se trata de dogmas novos, mas de novos actos de afecto, e querermos que a Igreja não tenha, não prefira ou não desenvolva certas devoções é exigir que um coração que ama tenha sempre as mesmas manifestações de amor. Demais o desenvolvimento da devoção ao Coração de Jesus equivale, a bem dizer, a uma reaparição de Jesus na terra. Nesta e por esta devoção Jesus quase nos obriga a que O amemos e a que nos salvemos. Por ela o mundo será regenerado e salvo. 

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O Sagrado Coração de Jesus quer e deve reinar em todos os indivíduos pois é o nosso Criador: - “todas as coisas foram feitas por Ele e nada do que foi feito foi feito sem Ele: nele vivemos e nos movemos e existimos”[9].

É o nosso Salvador, é a nossa riqueza, visto que “morrendo por nós, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo, e Ele sempre foi rico para com todos os que O invocam”[10]. Como disse S. Paulo – aquele grande Apóstolo que mais nos elucidou no mistério da Redenção: “Nós, que éramos filhos da ira, hoje somos de Cristo, pois fomos comprados por um grande preço, e hoje Cristo deve ser a nossa vida, visto que Ele nos ressuscitou para uma nova vida, sendo o nosso Redentor, e só teremos liberdade existindo em nós o Seu espírito”[11]. Jesus é portanto o nosso Rei. Rei por eleição dos vassalos, visto que, revoltando-se Lúcifer e uma terça parte dos anjos, S. Miguel, à frente das duas partes dos coros angélicos, bradou: - Quem como Deus?[12] Rei proclamado pelo Seu Eterno Pai quando foi prometido a Adão o Redentor. Rei proclamado pelos Patriarcas e pelos Profetas, denominando-O “Rei dos reis e Senhor dos que governam”[13]. Rei proclamado pelo Arcanjo que, saudando a Cheia de Graça e falando de Jesus, disse que o Seu reino não teria fim. Rei cantado pelos anjos: “Glória a Deus no mais alto do Céus e paz na terra aos homens!”[14] Rei proclamado pelos Magos, dizendo: “Onde está o Rei dos judeus que é nascido? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo”[15]. Rei por herança, pois Lhe foi dito: “Pede-Me e Eu te darei todas as gentes em herança”[16]. Rei por conquista e resgate, pois venceu o mundo e nos resgatou. Rei manifestado por Si mesmo, quando, referindo-Se ao tremendo Juízo Final, disse: “Então o Rei dirá aos que estiverem à Sua direita: - Vinde, benditos de Meu Pai, possuí o Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo”[17]; e, quando, perguntando-Lhe Pilatos se era Rei, respondeu: “Tu o dizes”[18]. E é Rei eterno, visto que reinará eternamente na Casa de Jacob. E é Rei universal, porque disse a Seu Pai: “- Todas as Minhas coisas são Tuas e todas as Tuas são Minhas"[19]. E é Rei absoluto da natureza e da graça: “Porque Lhe foi dado todo o poder no Céu e na terra”[20]. E é Rei de amor, porque imolando a Sua vida por nós, apesar das nossas ingratidões, ainda Se sente “apaixonado de amor pelos homens, querendo a todo o custo tirá-las do abismo da perdição”.

E a Sua realeza é incontrastável: “Ao nome de Jesus, todo o joelho se dobrará no Céu, na terra e nos abismos infernais”[21]. Eis porque deve ser Rei da nossa inteligência e da nossa vontade, a Quem prestaremos vassalagem quer com alegria infinda, que com desespero sem nome. Que Ele reine em nós com amor e que a Sua justiça nos poupe deve ser o nosso maior anseio. Neste mundo, em que, como muito bem disse Marcel Arland[22], “nenhum sistema nos satisfaz e a ausência de um sistema nos angustia”, somente Jesus nos ensinou qual a finalidade da nossa vida, dizendo-nos como devemos viver, ou melhor, “sem Ele nenhum homem atingirá o sentido da vida nem a verdadeira felicidade”.   

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Mas o Coração de Jesus deve reinar também na sociedade e portanto nos seus grupos fundamentais: nas famílias, nas escolas, na vida pública e nos Estados.

O Sagrado Coração de Jesus deve reinar nas famílias. A família, fundamento e vida do organismo social, é, depois da religião, a instituição mais bela criada por Deus. Disse alguém que era a segunda alma da sociedade, mas os legisladores somente olham para o indivíduo e para a nação, e esquecem as famílias, esquecendo-se que não há nações fortes sem famílias prósperas e boas. Se quisermos uma sociedade morigerada e uma nação próspera e digna, sendo esta constituída por uma união de famílias, necessário é que estas sejam dirigidas e norteadas pelas regras do bom senso e da moral. Uma nação é sempre o que as famílias que a constituem quiserem que ela seja, e tem sempre o governo que merece. Hoje que combatemos a ridícula omnipotência do indivíduo da legislação liberal e nos opomos à injusta omnipotência do Estado dos nacionalismos exagerados e irrequietos, temos de dar à instituição intermediária, que é a família, o lugar que deve ter de direito, e as funções só serão devidamente exercidas se a sua organização for cristã.

Todos lastimam a decadência dos costumes da sociedade, o aumento da criminalidade, a desorganização das famílias e o esfacelamento de vários lares, todos constatam que a hora que passa não é de tranquilizar os espíritos, mas poucos vêem que a tormenta só passará se as famílias forem renovadas moralmente e se Cristo voltar a ser por elas adorado. Cristo promete-nos a sua paz e alívio para os nossos desgostos uma vez que Ele seja entronizado nas nossas casas. Se queremos a restauração de Portugal e que ele volte aos passados dias de glória, temos de organizar a família em bases cristãs, aliás não haverá transformação política nem reformas legais bastantes que impeçam a sua decadência. Nunca serão prósperas as nações, estando as suas famílias decadentes. A base da vida social, segundo os dados da Sociologia actual, é a família, e para esta devem convergir as atenções de todos aqueles que queiram, de verdade, as suas nações florescentes e restauradas. Precisamos de famílias que eduquem bem os seus filhos e não ponham limites ao seu número: famílias que, respeitando a indissolubilidade do matrimónio, não admitam o divórcio, embora, em casos excepcionais, haja a separação das pessoas; mas também precisamos de que os Estados tenham as suas leis de protecção a essas mesmas famílias.

Essa protecção devida e sagrada – tão devida e sagrada que para a notar não são precisos olhos de águia nem ser grande legislador – contribuirá para que nas famílias reine Jesus Cristo, sejam felizes os pais, exemplares as mães e virtuosos os filhos. Para que Portugal volte a ser próspero e glorioso, para que haja paz na sociedade, é necessário que as famílias, sendo protegidas pelos Estado, sejam reconquistardes para Deus, e sê-lo-ão por meio dum sincero apostolado social e religioso.

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O Sagrado Coração de Jesus quer e deve reinar nas Escolas.

As Escolas são o prolongamento das famílias porque completam a instrução e educação dadas por estas, preparando os cidadãos para formarem os grandes Estados. Sendo assim, as Escolas devem estar repassadas do espírito religioso das famílias, para que a formação moral e religiosa da juventude não seja deformada, desonrando a nação de que fazem parte. A juventude precisa de ser instruída, mas sobretudo educada. Temos necessidade de sábios, de muitos sábios, mas principalmente de homens de carácter, de homens sem desdobramentos de consciência e que nas várias emergências da vida pública se conduzam de harmonia com os princípios que professam.

Disse Bressen: “Um jovem educado sem Deus será sempre mau filho, mau esposo, mau compatriota; homem sem moral e sem consciência, velho cínico, moribundo sem esperança. Se for operário, será preguiçoso; se for juiz, prevaricará; na família, será um tirano; na sociedade, um verdugo; se for soldado, ninguém se admire que seja um traidor”. Atendendo a isto é que o insuspeito Unamuno[23] escreveu a respeito de Espanha: “A ordem de retirar os crucifixos das Escolas é disparatada e não só antinatural, antipopular e anti-histórica, mas também antipedagógica”. Atendendo a isto é que Guerra Junqueiro exclamou: “O dístico – Sem Deus nem Religião – nas bandeiras das escolas infantis é uma blasfémia satânica, é um estupro moral”[24].

Queremos, pois, que o Sagrado Coração de Jesus reine nas Escolas portuguesas não só porque, como diz o nosso grande Ministro da Educação Nacional, que é o Sr. Dr. Carneiro Pacheco[25], Deus e Pátria andam juntos desde que Portugal nasceu, mas também porque ninguém como Ele amou as criancinhas, e “sem Ele o homem caminha para a sua ruína e não pode sequer viver dignamente como homem”, como tão belamente escreveu o Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca. 

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O Sagrado Coração de Jesus quer e deve reinar na vida pública e dos Estados.

Neste século em que vivemos, quatro acontecimentos se deram: a guerra mundial de 1914, a revolução comunista na Rússia, de 1917, a revolução nacionalista italiana de 1921 e a Contra-revolução portuguesa de 1926, que levaram a humanidade a uma nova idade histórica. Por virtude desses acontecimentos, ou melhor, das ideias que lhes deram origem, são quatro os principais caminhos abertos à nossa frente, quatro as concepções da vida; a cristã, a liberal, a socialista e a nacionalista-totalitária.

A concepção de vida que nós – católicos – devemos abraçar é a cristã, e essa deve ser integral, harmónica e hierárquica.

Integral – pois devemos agir, tanto na vida particular como na vida social, sem quebras da nossa fé. Harmónica, para que a nossa dignidade e política se harmonize com a nossa dignidade pessoal, para que a nossa vida púbica se harmonize e condiga com a nossa vida particular, vida essa baseada no cumprimento dos nossos deveres religiosos e no respeito dos direitos alheios. Hierárquica, para que a nossa vida natural esteja sujeita à vida sobrenatural, isto é, a nossa vida familiar e civil respeite o primado do Espírito e do Sobrenatural. É preciso que a concepção da vida cristã norteie, de novo, os indivíduos cuja filosofia de vida se encerrava na frase conhecida de Stendhal[26]: “Se a morte é inevitável, esqueçamo-la”[27]. Não; é preciso que os indivíduos pensem na morte para que saibam resolver o grande problema da vida. Como disse Salazar – esse homem que é o orgulho do Portugal de hoje – a vida não é um brinquedo, ela é, ela deve ser uma coisa séria. Ela é uma responsabilidade e ai das famílias e dos Estados em que a vida continue a ser considerada como coisa vaga. Os costumes dos nossos tempos fazem lembrar os da antiga Grécia e Roma: a mesma esterilidade voluntária dos matrimónios – sinal próprio das famílias e dos Estados que caminham para a sua ruína –, o mesmo naturalismo e cepticismo, a mesma crise material e moral, derivada duma grande crise de inteligência, a mesma indiferença em face dos maiores problemas da vida, o mesmo rebaixamento de costumes, tudo isso agravado pela persuasão de muitos de que é preciso destruir a sociedade actual e organizá-la em novas bases económicas para que as famílias voltem a ser felizes, esquecendo assim as três maiores verdades – Deus, Cristo e a Igreja – verdades essas de que dependem a justiça, o direito, a verdadeira liberdade, igualdade e fraternidade, o verdadeiro amor, a civilização, ou melhor dizendo, a base da ordem social, sem o que não passaríamos de bárbaros. Esse escritor maravilhoso que é Tristão de Ataíde[28] escreveu muito bem que “passou o tempo das meias verdades. Já não é mais possível aquela atitude de desencantados. Isto é: temos de nos decidir a nos decidirmos. E porquê? Porque o século XX vai ser ora um diálogo, ora um duelo entre o Vaticano e o Kremlin, pois encarnam visivelmente, em face de nós, a lógica extrema do erro e a expressão intangível da Verdade”. Na verdade temos que optar: ou civilizados, respeitando os direitos que sobre nós tem Jesus, que é ainda felizmente o Ente mais querido e actual do mundo – “Aquele que tudo pode e ao Qual todas as forças obedecem” – ou renegados e envilecidos, contra Cristo, contra a grande família religiosa, onde vivem, no dizer de Renan, as melhores almas do mundo, sentindo-nos por elas condenados. As nações estão interessadas nessas opções que fazemos.

Se os indivíduos e as famílias respeitarem os direitos de Deus, procurando o reinado social de Cristo, as Nações e os Estados, estando sujeitas à soberania de Cristo, como os indivíduos e as famílias, prestarão culto público ao Rei dos reis, ao Senhor dos Estados, e com isso se fortificam e nobilitam. Então as Nações e os Estados, atendendo a que, como escreveu Leão XIII[29] – esse Papa autor de Encíclicas de luz fulgurante, “os homens, unidos em sociedade, não são menos dependentes do poder divino do que quando considerados individualmente”, harmonizando as suas leis, as suas instituições, a sua Constituição enfim com o Evangelho, que na frase candente de Giovani Papini[30], “nunca como hoje foi necessário e nunca como hoje foi esquecido e desprezado”. A experiência está feita há muito: os Estados que se afastam do Evangelho depressa encontram o seu calvário, a sua desolação e a sua morte. Com muita razão escrevia Brunetière[31]: “O que aguenta o mundo de geração para geração e o impede de recair na barbaria não são de modo algum os progressos da matemática ou da química, nem os da história ou da erudição: são as virtudes activas que o Cristianismo transformou em leis de conduta humana, levando os indivíduos ao máximo dos sacrifícios e de abnegação”. O liberalismo e o laicismo proclamaram que a origem do poder e do direito estava no povo e que o Estado devia viver desligado de prestar homenagem a Deus, considerando a religião como coisa particular, e assim iniciou o esquecimento de Deus nos Estados e repaganização da sociedade, sendo laicizadas as escolas, as famílias e todas as instituições. É necessário agora recristianizar as consciências, restaurar tudo em Cristo. É um engano pensar que pode haver felicidade e progresso nos países que se revoltarem contra o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como há anos declarou, em pelo senado da Colômbia, o seu digníssimo presidente: “As nações, por mais poderosas que sejam pela sua civilização e progresso material, devem um dia, se não quiserem perecer, vir humilhar-se perante seu Criador”. Nessa ocasião, o deputado Dr. Gabriel Megia, ao sancionar a lei que determinava a consagração oficial da República a Jesus Sacramentado, não se envergonhava de fazer as seguintes declarações, muito dignas de serem meditadas por todos nós: “Fui no primeiro estádio da minha vida um radical exagerado. Liberal foi meu Pai, liberais sofram os meus antepassados, ambiente liberal respirei sempre no lar doméstico, liberalismo aprendi nos colégios e liberais foram todos os meus companheiros juventude; fui ateu, perseguidor da Igreja, pregador da ideia anticristã; fui inimigo declarado de Jesus Cristo e das suas doutrinas, da sua Igreja. Contra esta, eu combati com todas as armas ao meu alcance, mas tive a fortuna de ver o meu erro, de encontrar o verdadeiro e único caminho, e hoje, arrependido, profundamente arrependido, da minha vida passada, vejo-a com horror, e faço esta declaração perante a honrosa Câmara e neste recinto… Com a mesma intrepidez com que antes combati Cristo, hoje confesso-O com todo o entusiasmo; sou crente, sou católico. E, sendo-o, desapareceu todo o vínculo com todos os meus antigos companheiros, porque, na luta pela minha fé, estou disposto a todos os sacrifícios, ainda o da minha vida. Poderão os meus antigos companheiros de ideias insultar-me, agredir-me, atentar até contra a minha vida” (nalguns bancos da minoria da Câmara, ouvem-se palavras contra o orador). E ele, intrépido, exclama: “Ouvi-os?! Começam os seus insultos; não importa! Tenho compaixão deles!” Assim falam os que, torturados do infinito ou açoutados pelo vendaval da dúvida e da descrença, terminam os seus actos de loucura e irreligião, prestando fé e jurando amor às ideias e crenças religiosas, a Cristo – única fonte de luz, paz e amor.

Sejamos também daqueles que querem que o Sagrado Coração de Jesus reine nas consciências, nas famílias e nos Estados. Seríamos traidores à nossa fé se não ouvíssemos os Representantes de Jesus na terra e não fizéssemos parte dessa falange de operários da Acção Católica que querem cooperar na recristianização do mundo moderno. A Acção Católica é hoje um dos meios mais profícuos para restaurar tudo em Cristo. Por ela defenderemos os direitos dos fracos, dos pobres e dos humildes e (os que têm ouvidos de ouvir ouçam) salvaremos os ricos. Por ela contribuiremos para a solução da questão social, que, sendo uma questão moral e religiosa, deve ser resolvida segundo os preceitos e conselhos da moral e da religião.

Por ela evitaremos uma nova barbaria. Mas sejamos claros. Aos que nos disserem que Portugal está em perigo, devido ao comunismo, que é a “negação de todos os direitos divinos e humanos”, e verdadeiro anticristianismo integral, e que para o enfrentar bastará o Estado Novo, respondemos: estais enganados. O Estado Novo, que ainda tem muito de mau do Estado velho, em virtude do que o homem providencial, que é Salazar, forma, “na primeira linha dos descontentes”, o Estado Novo, digo, que por nossa culpa, e só nossa, ainda tem leis e instituições que não são cristãs, não basta para debelar, por si só, o comunismo. Para que este seja debelado, é necessário que a sociedade se torne cristã, aliás cedo ou tarde o comunismo triunfará. Como muito bem disse esse glorioso príncipe da Igreja e das letras pátrias, o Eminentíssimo Senhor Cardeal Cerejeira, não se luta contra o comunismo senão opondo-lhe um ideal superior. Os cordões da polícia não bastam para o conter. Quando o espírito é vencido, cedo ou tarde as instituições sê-lo-ão também. Abramos, pois, bem os olhos, nós que temos dormido a sono solto. Pouco antes de 1910, passavam os católicos portugueses o tempo na desunião e desarmonia. De 1910 a 1926, era natural que se unissem – ut unum sint[32] – de modo a poder ser-lhes dada uma legislação inteiramente católica… mas a união e o devido trabalho faltaram. Se tivéssemos trabalhado, ao menos desde então… mas não; estamos na expectativa, a ver o que virá…, continuamos a viver na indiferença e desunião, indiferentes aos apelos dos nossos Prelados e do Santo Padre… e o perigo avança a querer arrastar-nos para a desgraça e aviltamento. Se se tratasse somente de nós, era esse o justo castigo da nossa indolência. Tenhamos, porém, dó das inocentes crianças de Portugal, e desta Pátria, que foi grande e gloriosa! Se somos uma geração sacrificada, que se aproveite o sacrifício que fazemos! Senhores! É passado o tempo de os católicos se refugiarem nas sombras dos lares e chegou o tempo de se tornarem activos, no mundo, difundindo a doutrina de Cristo e da Igreja.

Os tempos presentes exigem católicos que na Igreja entoem ao Senhor de todas as grandezas o Te Deum laudamus, Te Dominum confitemur[33] e trabalhem para que os seus irmãos respondam a fim de que seja verdade o Te aeternum Patrem omnis terra veneratur[34]. Nunca esqueçamos que fazendo Acção Católica, procuramos o Reinado Social do Sagrado Coração de Jesus e a quem nos disser que por outro meio encontraríamos solução para o mal da sociedade contemporânea, responder-lhe-emos com as palavras do nunca assaz louvado Alceu Amoroso de Lima: “Com verdade podemos dizer que a Igreja tem solução para tudo, pois mesmo nos casos que lhe não cabe decidir, nos casos da acção livre da nossa vontade, não só ela nos explica que temos plena liberdade de agir segundo o mosso juízo individual, mas ainda esclarece esse julgamento próprio com toda a sua experiência e a sabedoria dos seus Papas, dos seus santos, dos seus sábios”. E se pela Acção Católica nós proclamamos que “é necessário que o Sagrado Coração de Jesus reine”, e podemos recristianizar a sociedade, há um outro apostolado, do mesmo fim, e que todos podem realizar, porque todos podem orar: é o Apostolado da Oração.

Se nem todos podem fazer parte do apostolado da Acção Católica, todos podem e devem pedir a Deus que venha a nós o Seu reino, a fim de que todos os homens e todas as coisas louvem o Senhor, isto é, todos podem fazer apostolado de oração. Se sem o auxílio de Jesus nada podemos fazer, e, por meio do Seu auxílio, por meio da oração, tudo conseguiremos. Nunca a nossa oração será tão aceite como quando pedimos a Deis o Reinado social de Jesus. Se Santa Teresinha do Menino Jesus[35], “esse milagre de graça e prodígio”, é, no dizer de Pio XI, “a maior santa e o maior e mais famoso missionário dos tempos modernos”, deve-o ao seu apostolado de oração. Elisabeth Leseur[36] – essa mulher admirável a quem Dantec[37] chamava o espírito mais profundo então conhecido – escreveu um dia: “A vida de todos nós é uma responsabilidade e somos culpados não somente do mal que fazemos, como do bem que deixamos de fazer”. E só Deus sabe o bem que podemos operar pela oração. Quem ora bem busca primeiro o reino de Deus e a sua justiça e por isso mesmo tudo o mais lhe será dado por acréscimo. Quem ora bem faz apostolado; também pode converter e santificar almas. Converter e santificar almas é obra sobrenatural, é obra divina, mas quem recebe Jesus na Eucaristia fica divinizado, é por assim dizer um prolongamento de Cristo, nele vive a Santíssima Trindade e por isso mesmo é quase omnipotente. Seremos, pois, apóstolos na medida em que vivamos para Jesus. Havendo hoje oradores e sábios como nunca, qual o motivo de não estar convertido o mundo? É porque não há vida de oração, não há vida interior. Santa Teresinha converteu muitas almas; e como o faria se à sua morte algumas companheiras não sabiam o que dizer da falecida à Madre do Convento? Porque era um cálice cheio, bem cheio de Jesus, a trasbordar sobre as almas e sobre a Igreja… Jesus Cristo, para que o mundo se convertesse, mandou pregar a sua doutrina, doutrina essa que é preciso sair das sacristias e ir ao povo, acabando com essa frase maldita – o padre na sacristia - frase vinda desse nefando liberalismo, em virtude da qual se operou o maior escândalo do século passado, e que foi a perda para a Igreja das massas operárias. Sim, é preciso que haja Acção Católica, que haja pregação, dentro e fora da Igreja, mas desenganemo-nos de que nada faremos se não houver muita e muita oração.

É por isso que devemos considerar os conventos e casas religiosas – essas casas de oração e imolação – como lugares sagrados e pára-raios da justiça de Deus. Quantas e quantas conversões que nós atribuímos a isto ou àquilo se devem a almas santas dessas casas, por intermédio de suas orações e sofrimentos, que tudo transformam e tudo atingem. Jesus Cristo, para nos salvar, viveu no mundo trinta e três anos, e, coisa admirável, trinta anos foram passados a pregar-nos em silêncio, em oração, no trabalho, e somente três foram destinados à pregação oral. Eis porque não são apóstolos unicamente aqueles que por Deus foram chamados à actividade externa, à pregação, mas também o podem ser aqueles que, orando e sofrendo, vivem segundo a escola de Nazaré e segundo a nossa querida Santa Teresinha. Quantas almas não levam uma vida obscura e hão-de fazer parte, no Céu, do Colégio Apostólico!

Orar e orar bem é, pois, o maior auxílio da Acção Católica e o melhor meio de contribuir para que venha a nós o reino do Senhor. Sem oração não haverá apostolado digno deste nome. Como é que Jesus se preparou para o seu Apostolado? Orando e suplicando. E a orar e a suplicar o exerceu.

Para fazer o elogio mais apreciável do Apostolado da Oração eu quero, terminando, servir-me das palavras dum dos mais gloriosos Papas de todos os tempos e que é Pio XI: “A oração primeiro que tudo, o sobrenatural primeiro que tudo… Todos os actos da Acção Católica, grandes ou pequenos, devem ser preparados, assistidos e consolidados pela oração”.

Disse. 

 

Uma avaliação

 

O articulista que no dia 21 de Junho de 1936 fez a reportagem do Congresso do Apostolado da Oração e das Associações de Piedade para o Diário do Minho não poupou elogios ao discurso do Dr. Dias de Azevedo:

“No exórdio (o Dr. Dias de Azevedo) saúda o Prelado de Braga, e Episcopado e o Eminentíssimo Cardeal Patriarca e provoca, na forma da saudação, muitas palmas e aplausos da assembleia.

Ao tratar o assunto, fá-lo com eloquência e com método, provando que o melhor ideal do cristão é servir a Igreja e que, servindo-a, se obterá o reinado social de Jesus Cristo, mediante a Acção Católica e o Apostolado da Oração. A exposição da tese é interrompida com frequência, quando o orador demonstra os serviços da Igreja à civilização e afirma que sem ela não pode haver remédio para a crise presente.

Com a mesma eloquência e erudição com que provou que o melhor ideal do homem é servir a Igreja, demonstrou o direito de Cristo a reinar na sociedade. A propósito, ocupa-se da escola, da família, da educação e da necessidade de em todos esses aspectos da vida fazer reinar a Cristo.

Alude a factos contemporâneos que deram lugar a uma nova época histórica e das concepções de vida que perante ela se manifestam: a cristã, a liberal, a socialista ou nacionalista totalitária. Só a cristã dá ao homem a verdade e a vida e representa na sociedade a paz e a justiça. No final do seu trabalho, claro, desassombrado, revelador de muita erudição, o orador faz a apologia do Apostolado da Oração e da Acção Católica e recebe ao terminar uma salva de palmas que dura uns minutos”.

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[1] Carta aos Efésios, 1, 10: Tradução: “restaurar tudo em Cristo”.

[2] Primeira Carta aos Coríntios, 15,25.

[3] Esta palavra, que está na nossa cópia, parece que não faz sentido e talvez seja erro de quem reproduziu do original.

[4] Santa Gertrudes de Helfta ou Santa Gertrudes, a Grande (Eisleben, 6 de Janeiro de 1256 — 1302) foi uma beneditina, mística e teóloga alemã.

[5] Margarida Maria de Alacoque VSM (Verosvres, 22 de Julho de 1647 - Paray-le-Monial, 17 de Outubro de 1690) foi uma Monja Visitandina, Mística, Santa Católica e a famosa vidente do Sagrado Coração de Jesus.

[6] A Irmã Maria do Divino Coração (Münster, 8 de Setembro de 1863 – Porto, 8 de Junho de 1899), nascida Maria Droste zu Vischering, foi uma personalidade da mais elevada nobreza alemã e santa católica, religiosa da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor e Madre Superiora do Convento do Bom Pastor do Porto, mais conhecida por ter influenciado o Papa Leão XIII a efectuar a consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Os seus restos mortais repousam actualmente em Ermesinde.

[7] Mateo C. Boevey nasceu em 18 de Novembro de 1875, em Arequipa, Peru, e faleceu em 4 de Maio de 1960, em Valparaíso, Chile; foi apóstolo global do Sagrado Coração de Jesus.

[8] Marthe de Noaillat (também conhecida como Marthe Devuns) nasceu em 29 de Novembro de 1865 em Le Crotoy, no norte da França, e faleceu em 5 de Fevereio de 1926 em Paray-le-Monial) e Georges de Noaillat (1874-1948), advogado.

[9] Evangelho de S. João, 1, 13.

[10] Carta aos Romanos, 10, 13.

[11] Carta aos Efésios, 2, 1-10.

[12] Esta pergunta traduz o nome do arcanjo S. Miguel.

[13] Apocalipse, 19, 16.

[14] Evangelho de S. Lucas, 2,14.

[15] Evangelho de S. Mateus, 2, 2.

[16] Salmo 2, 8.

[17] Evangelho de S. Mateus, 21, 34.

[18] Evangelho de S. João, 18, 37.

[19] Evangelho de S. João, 17, 10.

[20] Evangelho de S. Mateus, 28, 18.

[21] Carta aos Filipenses, 2, 10.

[22] Marcel Arland (Varennes-sur-Amance, 5 de Julho de 1899 – Saint-Sauver-sur-École, 12 de Janeiro de 1986), foi um novelista, ensaísta, crítico literário e guionista francês.

[23] Miguel de Unamuno y Jugo (Bilbau, 29 de Setembro de 1864 – Salamanca, 31 de Dezembro de 1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol.

[24] Jornal “A União”, 4.2.1923, pág. 2.

[25] António Faria de Carneiro Pacheco (Santo Tirso, 14 de Novembro de 1887 — Cascais, 21 de Novembro de 1957), mais conhecido por Carneiro Pacheco, foi um professor de Direito na Universidade de Lisboa e político que, entre outras funções, foi presidente da comissão executiva da União Nacional e Ministro da Educação Nacional, cargo em que se distinguiu no estabelecimento dos fundamentos da política de educação do Estado Novo, materializada na denominada Reforma Carneiro Pacheco, operada pela Lei n.º 1941, de 11 de Abril de 1936 (a Lei de Bases da Educação do Estado Novo).

[26] Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de Janeiro de 1783 — Paris, 23 de Março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos das suas personagens e pelo seu estilo deliberadamente seco.

[27] Original: “Puisque la mort est inévitable, oublions-la”.

[28] Pseudónimo de Alceu de Amoroso Lima (Rio de Janeiro, 11 de Dezembro de 1893 – Petrópolis, 14 de Agosto de 1983), que foi um crítico literário, professor, pensador, escritor e líder católico brasileiro.

[29] Leão XIII, O.F.S.; nascido Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci-Prosperi-Buzzi (Carpineto Romano, 2 de Março de 1810 — Roma, 20 de Julho de 1903), foi papa de 20 de Fevereiro de 1878 até à data da sua morte.

[30] Giovanni Papini (Florença, 9 de Janeiro de 1881 – Florença, 8 de Julho de 1956) foi um escritor italiano. Inicialmente céptico, passou a católico fervoroso.

[31] Ferdinand Vincent-de-Paul Marie Brunetière (Toulon, 19 de Julho de 1849-París, 9 de Dezembro de 1906) foi um historiador da literatura e crítico literário francês.

[32] Evangelho de S. João, 17:21. Tradução: “Para que sejam um”.

[33] Tradução: “Nós Vos louvamos como Deus, Vos confessamos como Senhor”.

[34] Tradução: “A terra inteira Vos adora como Pai eterno”.

[35] Teresa de Lisieux, O.C.D. (2 de Janeiro de 1873 - 30 de Setembro de 1897), nascida Marie-Françoise-Thérèse Martin, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, foi uma freira carmelita descalça francesa conhecida como um dos mais influentes modelos de santidade para católicos e religiosos em geral por seu "jeito prático e simples de abordar a vida espiritual". Juntamente com São Francisco de Assis, é uma das santas mais populares da história da Igreja. O papa Pio X chamou-a de "a maior entre os santos modernos". Foi beatificada em 29 de Abril de 1923 e canonizada em 17 de Maio de 1925.

[36] Elizabeth Leseur (1866, Paris – 1914). Era esposa de um ateu. Após sua morte, o marido, lendo suas anotações n‘O Diário de Elizabeth Leseur, converteu-se, passando a ser um católico fiel, tornando-se mesmo frade. Elizabeth Leseur foi declarada Serva de Deus.

[37] Félix-Alexandre Le Dantec (16 de Janeiro de 1869, Plougastel-Daoulas – 6 Junho de 1917, Paris), biólogo e filósofo da ciência francês.

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