DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

 

O Apostolado da Oração
e o Reinado Social do SS. Coração

I

Discurso que o Ex.mo Sr. Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, distinto clínico de Vila Nova de Famalicão, proferiu em 20 de Junho p.p. (de 1936), na sessão solene de encerramento do CONGRESSO DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO E DAS ASSOCIAÇÕES DE PIEDADE. 

 

 Arranjo tipográfico com que a revista da Arquidiocese de Braga Acção Católica iniciou a publicação do discurso do Dr. Dias de Azevedo em Setembro de 1936.

 

 

 

 

O discurso é um texto de enorme importância: por ser de tema teológico, por ser proferido perante uma audiência especialmente selecta e pelo inegável valor das considerações expendidas.

 

 

Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca,

Ex.mo e Rev.mo Senhor Arcebispo Primaz,

Ex.mos e Rev.mos Senhores,

Rev.mos Senhores,

Queridos Seminaristas,

Minhas Senhoras e meus Senhores:

 

Ao ser convidado a falar neste brilhantíssimo Congresso sobre o “Reinado Social do Coração de Jesus”, relacionado com a Acção Católica e o Apostolado da Oração, eu devera ter presentes na memória as palavras que o grande profeta Jeremias dirigia ao Senhor ao receber a ordem de anunciar verdades não só ao Povo escolhido, mas principalmente aos Povos vizinhos, e que foram: Domine Deus, ecce nescio loqui: Senhor Deus! Tu bem vês que eu quase não sei falar! Se aquele profeta, beijado antes pela graça que pela luz do dia, quase desmaiou ao receber o mandato de revelar as verdades e as ordens do Senhor, que deveria ter eu dito, levado pela minha ignorância e pela minha indignidade, ao ser convidado a falar agora sobre esse “Sinal da Salvação, Sinal diviníssimo e de suprema esperança”, que é o Coração Sacratíssimo de Jesus, único motivo mas justificado de todas as nossas esperanças e a Quem devemos pedir a salvação dos homens e dos Estados?! Como falarei do Sublime, que não sei traduzir, e do que é inefável?! Mas também como poderia airosamente declinar o convite que me era feito pelo Rev.mo Sr. Dr. Marques Pinto – pessoa que sempre respeitei – e pelo meu querido prelado e meu Professor, de falar nesta terra onde senti algumas das emoções mais puras da minha vida e movimentos de alma que sempre me darão luz nos momentos de desânimo, terra enfim onde encontrei finezas e amizades que não devo esquecer?! Eis porque falarei, posto que indignamente, nesta imponente sessão solene em que tudo é brilhante, exceptuando a minha voz sem colorido e apagada, nesta terra de poesia e beleza incomparáveis, nesta Braga Augusta que é o orgulho do Minho e a Roma portuguesa, ou não estivesse ela aos pés da Virgem do Sameiro, como que a pedir-lhe constantemente encantos e protecção. Saúdo, pois, a cidade da Virgem do Sameiro como uma das terras que mais honra Portugal e donde, por vezes, têm partido gritos e sinais de salvação quer de ordem religiosa, quer da ordem política. E saudando Braga, eu devo saudar com a maior veneração o seu Senhor, que é o Primaz das Espanhas e Prelado insigne, muito digno de fazer parte dessa assembleia de Bispos da reconquista cristã, que é o Episcopado português, nada inferior a qualquer Episcopado estrangeiro, e a que preside o Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca, glória da nossa terra e da Igreja Católica.

Agora reconheço que, para bem fazer estas saudações, era preciso ser orador de raça como o mui nobre Bispo do Porto – o Senhor D. António Augusto – uma das maiores glórias da eloquência portuguesa. Cumprido, porém, este meu dever, consoante as minhas forças, eu passo a falar da tese que me foi distribuída e que eu dividi nas duas partes seguintes:

1.ª – No mundo, o mais nobre ideal do cristão é servir a Igreja;

2.ª – Servindo-a, obteremos o Reinado social do Coração de Jesus, principalmente por meio da Acção Católica e do Apostolado da Oração.

 

1.ª Parte

 

Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca,

Ex.mo e Rev.mo Senhor Arcebispo Primaz,

Ex.mos e Rev.mos Senhores,

Rev.mos Senhores,

Minhas Senhoras e meus Senhores:

 

Quando Honoré de Balzac[1] estava quase moribundo, os seus amigos, querendo recolher a última lição do seu mestre, perguntaram-lhe o que deviam fazer, e Honoré de Balzac respondeu-lhes: “Todo o homem que pensa deve marchar sob a bandeira da Igreja de Cristo; é preciso defender a Igreja, que é o maior elemento da ordem social”[2].

Na verdade todo o homem que conhece o seu fim último deve ser cristão, não se envergonhando de o ser, amando e defendendo a Igreja, que é Cristo vivo e presente no mundo até à consumação dos séculos. Como cristãos, e é esse o nosso maior título de glória, torna-se necessário e urgente que declaremos, por palavras e por actos, que somos discípulos do maior Mestre que houve no mundo. Vivemos uma época em que os respeitos humanos predominam, mas um discípulo de Jesus nunca se deve envergonhar de seguir e cumprir a doutrina mais sublime e suave que ouvidos de homens escutaram, no dizer do insuspeito Renan. Como explicar que homens, desnorteados por teorias erróneas e possuídos de paixões por vezes inconfessáveis, tenham coragem bastante para se apresentarem unidos e tais quais são e sejamos nós os católicos, nós que temos um mandato de cordura e amor, pois disse Jesus ”se vos amardes uns aos outros, nisto conhecerão que sois meus discípulos” – sejamos nós, digo, os envergonhados, os tímidos, os desunidos?

É que somos de pouca fé e parece desconhecermos o renascimento religioso que se vem operando há anos em todas as camadas sociais. Hérder[3], filósofo alemão, antes de morrer, pedia em altos brados um grande pensamento para a morte. Peçamo-lo nós para a vida, para que todos os nossos actos sejam vivificados por ele. Nós não podemos viver sem um ideal superior e, como disse, Jackson Figueiredo[4], “no mundo só vejo um ideal à altura de uma consciência humana: servir a Igreja”. Não há vida feliz, individual ou colectiva, sem ideal, dizia um dos grandes oradores portugueses: é neste éter das almas, neste divino ambiente, que formam e movem o amor, a fé, a abnegação, o entusiasmo pelo bem, a dedicação tenaz, a lealdade completa, todos os grandes sentimentos que constituem a nobreza da espécie humana. E a religião foi e é o supremo idealismo dos povos. Se procuramos com requintes de análise o que há de grande e nobre no mundo do sentimento e dos afectos, veremos que tudo é inconstância e mentira, se há a ausência da fé e dos sentimentos religiosos. A sociedade sente-se triste, muito infeliz, porque desviou-se do recto caminho, que por vezes custa a palmilhar, mas que é contudo o que na vida nos traz mais consolações. Lá dizia o nosso maior poeta que o caminho da virtude era “alto e fragoso, / mas no fim doce, alegre e deleitoso”[5]. Os indivíduos e as colectividades precisaram sempre de palavras de alívio e esperança, mas nunca como hoje. Andam esquecidos daquele que é o caminho, a verdade e a vida e, como diz o livro que era o enlevo de Ampère[6] e de Augusto Comte[7], “sem caminho, não se anda; sem a verdade, não se conhece; sem a vida, não se vive. Jesus é o caminho que devemos seguir, a verdade que devemos crer, a vida que devemos esperar. Ele é o caminho que não pode transviar, a verdade que não pode enganar, a vida que não pode findar”[8]. Homens de cultura variada semearam palavras de revolta contra o que de mais santo e respeitável há no mundo, semearam ventos, e a tempestade formou-se, querendo tudo subverter. É forçoso que a paz volte aos espíritos, que vivamos com Deus, porque viver com Deus é reinar, reinar sobre os nossos pensamentos, para que sejam nobres, reinar sobre as nossas acções, para que, embora simples, sejam dignas. A importância da nossa vida não consiste em fazer grandes coisas, mas em fazer bem e com amor o que devemos fazer, em procurar tudo em Deus e nada fora de Deus, e então poderemos exclamar que Cristo vive em nós e que somos como que uma porção viva de Jesus Cristo. Somente assim é que marcharemos sob a abandeira de Cristo para bem nosso e da sociedade. 

*** 

A segunda parte do conselho de Balzac é a bem dizer a consequência da primeira. Como cristão ainda, não deixaremos de defender a Igreja e, como escreveu esse Jackson glorioso, “espalhar cada vez mais o seu espírito, apontá-lo como único refúgio da bondade e do amor, como única força contra a força, como amparo, único realmente seguro, à inteligência e à sensibilidade”. Não porque Ela precise, para existir, do nosso esforço. Sobre base mais firme do que nós outros, foi Ela edificada pelo seu Autor. Nós é que precisamos que Ela exista connosco, para nosso bem. A Ela devemos todas as obras de caridade e de verdadeira civilização. A Ela devemos as melhores consolações na vida, e por intermédio dela teremos alívio na morte. É que Jesus Cristo sobrevive na Igreja e sem Ela, sem os seus Sacramentos, a vida ser-nos-ia muito pesada e desagradável. Demais, foi a Igreja que há séculos salvou a Europa dos bárbaros, educando-os. Foi a Igreja que aboliu a escravatura, dignificou o trabalho e elevou a mulher. Foi a Igreja a única verdadeira escola da liberdade, igualdade e fraternidade, e será ainda a Igreja que salvará, mais uma vez, a Europa e o mundo do terrível incêndio que está prestes a romper com ímpeto e a tudo devorar. Se compulsarmos a História, veremos que em todas as suas páginas há motivos para celebrar e contar benemerências mil de que a Igreja é autora e a quem Portugal deve, além da existência, os seus dias de maior beleza e glória. Que seria do mundo sem a Igreja? Nós nunca saberemos apreciar a sua benéfica influência. Há anos, olvidando-se a promessa do Senhor e o desespero dos vários Julianos apóstatas, apregoava-se que a Igreja ia desaparecer da face da terra e que o seu culto ia ser substituído pelo da ciência: mas depressa se reconheceu que a missão da ciência não era explicar a origem e fim do homem, resolvendo o terrível problema da vida, não era consolar a humanidade sofredora, e que passava insensível às dores humanas, e assim, como disse o matemático Émile Picard[9], “a crise, que se resumiu em fazer da ciência uma Religião, está a chegar ao seu termo”. Depressa se demonstrou que, no belo dizer de Renan, arrancar o nome de Jesus deste mundo seria abalá-lo até aos alicerces, e que o Evangelho é mais claro e preciso que os volumes escritos de todos os moralistas e filósofos, e ainda que todos os fundadores das ciências modernas tinham sido crentes. Logo se verificou que a moral que não desce do Céu nunca melhorará a terra, não sendo possível separar a Religião dos bons costumes, e que “os ateus eram filhos ingratos, que procuravam convencer-se… de que não tinham pai”. É por isso que, como patriotas, cristãos e homens de faculdades normais, devemos defender a Igreja, que, salvando no passado o mundo de todos os perigos, é a única entidade que tem remédio para as várias questões sociais a resolver, e cuja solução será de vida ou de morte para os Estados. Servir, pois, a Igreja, como Ela quer ser servida, é o mais nobre ideal do cristão e o melhor meio de salvar os indivíduos e, por isso mesmo, a sociedade.

CONTINUA


[1] Honoré de Balzac (Tours, 20 de Maio de 1799 — Paris, 18 de Agosto de 1850) foi um prolífico escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas.

[2] Aparentemente, a citação, embora corresponda a pensamentos de Balzac, é constituída por segmentos de frases suas reunidas, mas que na obra do autor ocorrem separadas.

[3] Johann Gottfried von Herder (Mohrungen, Prússia Oriental, 25 de Agosto de 1744 — Weimar, 18 de Dezembro de 1803) foi um filósofo e escritor alemão.

[4] Jackson de Figueiredo Martins (Aracaju, 9 de Outubro de 1891 — Rio de Janeiro, 4 de Novembro de 1928) foi um advogado brasileiro, que actuou intensamente como professor, jornalista, crítico, ensaísta, filósofo e político. Após sua conversão ao catolicismo organizou o movimento católico leigo no Brasil.

[5] Camões, Os Lusíadas, canto X, estrofe 90.

[6] André-Marie Ampère (Lyon, 20 de Janeiro de 1775 — Marselha, 10 de Junho de 1836) foi um físico, filósofo, cientista e matemático francês que fez importantes contribuições para o estudo do eletromagnetismo.

[7] Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (Montpellier, 19 de Janeiro de 1798 — Paris, 5 de Setembro de 1857) foi um filósofo francês, fundador da Sociologia e do Positivismo.

[8] Citação da Imitação de Cristo.

[9] Charles Émile Picard (Paris, 24 de Julho de 1856 — Paris, 11 de Dezembro de 1941) foi um matemático francês.

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