No depoimento para o Processo Informativo Diocesano, o Dr. Dias de
Azevedo declarou a determinada altura:
Depois apareceram duas notas no jornal O Gaiato. Respondi às
duas notas no jornal Diário do Norte em três artigos.
Não possuímos as notas do jornalzinho, mas a primeira das três
respostas foi sem dúvida a do artigo abaixo. Elas criticavam o que
se passava na Casa do Calvário, mas faziam-no com um fundamento
errado.
Quando, no primeiro parágrafo, o Dr. Dias de Azevedo mostra um santo
a acusar outro, está a pensar com certeza no Pe. Américo e na
Alexandrina. Bastante mais à frente, lembra o caso da venda de
livros, que foi uma das acusações
d’O Gaiato.
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O “CASO” DE BALASAR
PALAVRAS AMIGAS E DE VERDADE (1953)
Diário do Norte de 30/6 (saído também no Estrela do
Minho em 5 de Julho)
Depois de ligeira leitura, veio-me à memória aquele triste
caso de S. Leonardo de Porto Maurício ter ido dizer ao Papa
que S. Paulo da Cruz e seus companheiros eram homens
perigosos e intrujões. Não teria ido de bom grado e sim por
obediência, mas foi – este é o triste facto. No entanto,
estes dois santos e grandes missionários foram canonizados
no mesmo dia.
Lendo a história, mestra da vida, surgem-nos coisas que
parecem rapaziadas, mas as rapaziadas, todos nós o sabemos,
têm os seus limites e, ultrapassados eles, há a desordem com
as suas consequências funestas. |
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Ilustração que acompanhava o artigo do Dr. Dias de Azevedo. |
Quero presentemente fazer referência a uma mulher, com uma mielite
há 28 anos, paralítica, em abstinência absoluta de alimentos há 12
anos, verificada essa abstinência absoluta de sólidos e líquidos,
durante 40 dias numa Casa de Saúde, não estando mais tempo sob
vigilância contínua porque os Médicos Especialistas não quiseram, e
vivendo há 12 anos nessa abstinência, simplesmente bebendo num ou
noutro dia, por imposição clínica, uma ou outra colherinha de água
simples para verificar como os rins funcionam, tendo até há pouco,
mensalmente, verdadeiras menorragias (hoje não as tem, pois a sua
idade é de 48 anos), de vida intelectual e afectiva intensas, de
faculdades e sentidos normais, sem os menores sintomas de histeria
ou outra neuro-psicose, passando dias e noites sem dormir ou
dormindo muito pouco, conservando invariavelmente, ou com pequena
variação, o mesmo peso, de pulsações e tensões arteriais normais,
sustentando conversas inteligentes sem o menor deslize intelectual,
durante horas ou na mesma posição, deitada sobre uma tábua,
apresentando também o seu sangue normal nos seus elementos
constituintes ou de desassimilação, sendo este facto verdadeiramente
extraordinário, que a Ciência não pode satisfatoriamente explicar,
não podendo consequentemente essa doente ser comparada com qualquer
histérica ou anoréxica mental ou santa fingida. Além disso, essa
mielítica apresenta outros fenómenos extraordinários que os médicos
não podem classificar e que devem ser da competência de autoridades
em Ascética e Mística.
No mesmo dia 20, assim o afirmava o Diário do Norte num
artigo repassado de elegância, correcção e carinho. Ninguém dela se
abeira supersticiosamente, mas para pedir a sua intercessão, perante
o nosso Deus e Senhor, como se tem feito junto de outras belas
almas, como o Santo Padre Cruz, por estarem habituados a ver que o
Senhor vai realizando, nela e por ela, maravilhas e defere, por
vezes, alguns dos seus grandes e inúmeros pedidos. Tem havido por
ela várias conversões para Deus, e o Mestre ensinou que pelos frutos
se conheceria a árvore. Há coisas neste caso que não podem ser
explicadas nem natural nem preternaturalmente.
É certo que, pela História e pelos autores místicos, sabemos bem o
que se tem feito a almas idênticas. No entanto, é bom recordar o que
dizia Nosso Senhor à bem-aventurada Ana Maria Taigi: “Escuta, minha
filha: tu encontrarás muitas almas falsas e pérfidas. Tu serás
escarnecida, insultada, desprezada, caluniada; mas tu suportarás
tudo isso por meu amor e Eu te asseguro, como Deus grande que sou,
que os teus perseguidores Me darão conta duma tal conduta…” Almas
assim são por vezes verdadeiros pára-raios da Justiça Divina na
terra, almas de alta e autêntica imolação por todos nós, que só na
eternidade saberemos o muito que lhe devemos. Por toda a parte se
nega o Sobrenatural e, em presença de casos só pelo Sobrenatural
explicáveis, surgem fariseus a quererem negar as obras do Mestre.
Mais: pessoas que têm feito as suas visitas a essa vítima, para
recordação, têm obtido, sem qualquer reclamo, por preços a todos
acessíveis, bons catecismos e livros idênticos, de autores
consagrados da nossa Arquidiocese, imaginando-se bem o trabalho que
isso dá em discernir as respectivas importâncias, pertencentes a
este e àquele autor. Só por apostolado é que tudo isso se tem feito,
e não por negócio ou por propaganda deste caso, que sempre quisemos,
perante o público, ocultar, reservando-nos o direito de contestar
qualquer mentira sobre ele escrita para a publicidade. Que o diga o
Pároco da própria freguesia de que se fala que, se é um pouco
cansado de pernas, ainda tem inteligência de sobra para ensinar os
ignorantes. A qualquer hora que chegue dos seus afazeres ou viagens,
seja de manhã, de tarde ou à noite, vai, desde há anos, dar a
Sagrada Eucaristia a essa mártir, e nisto estará tudo dito. De
resto, sabemos bem que não são estas graças extraordinárias de Deus,
concedidas para nosso bem, que dizem qual o real valor moral das
pessoas a quem são concedidas. O heroísmo da respectiva vida e
virtudes é que vale e pesa na balança de Deus, no prémio a receber.
Não se trata pois de qualquer chamariz e muito menos de
injustificadas beatificações.
Só mais uma palavra: recordando o Evangelho, estamos calados, mas
não temos culpa de que, por isso mesmo, “clamem as pedras”. E, para
explicar certos casos, não nos venham falar na fé que cura, de
Charcot, na sugestão, de Bernheim, nos eflúvios, do Dr. Baraduc, no
sopro curador das multidões, de Zola, nas forças desconhecidas e
ainda não estudadas, de Anatole France, e muito menos em histeria ou
mentalidades inferiores e impróprias deste século, porque sabemos
que tudo isso, como explicação de certos factos inegáveis,
assemelha-se a trastes abandonados para o nosso serviço diário. E
aos que passam a vida a falar em Ciência, sem saberem o que isso é,
lembramos as palavras daquele médico de Pádua, citado por Bourget:
“Vivi oitenta anos, estudei sempre e só aprendi uma coisa: a não
ignorar a minha ignorância”. Que sumidades intelectuais por aí andam
ignoradas!
Ribeirão, 24 de Junho de 1953.
N. da R. – Informamos os nossos leitores de que o Sr. Dr. Dias de
Azevedo é o médico assistente, há mais duma dezena de anos, da
Alexandrina, a doente de Balasar.
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