DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

UMA RESPOSTA A ‘O GAIATO’

 

No depoimento para o Processo Informativo Diocesano, o Dr. Dias de Azevedo declarou a determinada altura:

 

Depois apareceram duas notas no jornal O Gaiato. Respondi às duas notas no jornal Diário do Norte em três artigos.

 

Não possuímos as notas do jornalzinho, mas a primeira das três respostas foi sem dúvida a do artigo abaixo. Elas criticavam o que se passava na Casa do Calvário, mas faziam-no com um fundamento errado.

Quando, no primeiro parágrafo, o Dr. Dias de Azevedo mostra um santo a acusar outro, está a pensar com certeza no Pe. Américo e na Alexandrina. Bastante mais à frente, lembra o caso da venda de livros, que foi uma das acusações d’O Gaiato.

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O “CASO” DE BALASAR

PALAVRAS AMIGAS E DE VERDADE (1953)

 

Diário do Norte de 30/6 (saído também no Estrela do Minho em 5 de Julho)

 

Depois de ligeira leitura, veio-me à memória aquele triste caso de S. Leonardo de Porto Maurício ter ido dizer ao Papa que S. Paulo da Cruz e seus companheiros eram homens perigosos e intrujões. Não teria ido de bom grado e sim por obediência, mas foi – este é o triste facto. No entanto, estes dois santos e grandes missionários foram canonizados no mesmo dia.

Lendo a história, mestra da vida, surgem-nos coisas que parecem rapaziadas, mas as rapaziadas, todos nós o sabemos, têm os seus limites e, ultrapassados eles, há a desordem com as suas consequências funestas.

Ilustração que acompanhava o artigo do Dr. Dias de Azevedo.

Quero presentemente fazer referência a uma mulher, com uma mielite há 28 anos, paralítica, em abstinência absoluta de alimentos há 12 anos, verificada essa abstinência absoluta de sólidos e líquidos, durante 40 dias numa Casa de Saúde, não estando mais tempo sob vigilância contínua porque os Médicos Especialistas não quiseram, e vivendo há 12 anos nessa abstinência, simplesmente bebendo num ou noutro dia, por imposição clínica, uma ou outra colherinha de água simples para verificar como os rins funcionam, tendo até há pouco, mensalmente, verdadeiras menorragias (hoje não as tem, pois a sua idade é de 48 anos), de vida intelectual e afectiva intensas, de faculdades e sentidos normais, sem os menores sintomas de histeria ou outra neuro-psicose, passando dias e noites sem dormir ou dormindo muito pouco, conservando invariavelmente, ou com pequena variação, o mesmo peso, de pulsações e tensões arteriais normais, sustentando conversas inteligentes sem o menor deslize intelectual, durante horas ou na mesma posição, deitada sobre uma tábua, apresentando também o seu sangue normal nos seus elementos constituintes ou de desassimilação, sendo este facto verdadeiramente extraordinário, que a Ciência não pode satisfatoriamente explicar, não podendo consequentemente essa doente ser comparada com qualquer histérica ou anoréxica mental ou santa fingida. Além disso, essa mielítica apresenta outros fenómenos extraordinários que os médicos não podem classificar e que devem ser da competência de autoridades em Ascética e Mística.

No mesmo dia 20, assim o afirmava o Diário do Norte num artigo repassado de elegância, correcção e carinho. Ninguém dela se abeira supersticiosamente, mas para pedir a sua intercessão, perante o nosso Deus e Senhor, como se tem feito junto de outras belas almas, como o Santo Padre Cruz, por estarem habituados a ver que o Senhor vai realizando, nela e por ela, maravilhas e defere, por vezes, alguns dos seus grandes e inúmeros pedidos. Tem havido por ela várias conversões para Deus, e o Mestre ensinou que pelos frutos se conheceria a árvore. Há coisas neste caso que não podem ser explicadas nem natural nem preternaturalmente.

É certo que, pela História e pelos autores místicos, sabemos bem o que se tem feito a almas idênticas. No entanto, é bom recordar o que dizia Nosso Senhor à bem-aventurada Ana Maria Taigi: “Escuta, minha filha: tu encontrarás muitas almas falsas e pérfidas. Tu serás escarnecida, insultada, desprezada, caluniada; mas tu suportarás tudo isso por meu amor e Eu te asseguro, como Deus grande que sou, que os teus perseguidores Me darão conta duma tal conduta…” Almas assim são por vezes verdadeiros pára-raios da Justiça Divina na terra, almas de alta e autêntica imolação por todos nós, que só na eternidade saberemos o muito que lhe devemos. Por toda a parte se nega o Sobrenatural e, em presença de casos só pelo Sobrenatural explicáveis, surgem fariseus a quererem negar as obras do Mestre. Mais: pessoas que têm feito as suas visitas a essa vítima, para recordação, têm obtido, sem qualquer reclamo, por preços a todos acessíveis, bons catecismos e livros idênticos, de autores consagrados da nossa Arquidiocese, imaginando-se bem o trabalho que isso dá em discernir as respectivas importâncias, pertencentes a este e àquele autor. Só por apostolado é que tudo isso se tem feito, e não por negócio ou por propaganda deste caso, que sempre quisemos, perante o público, ocultar, reservando-nos o direito de contestar qualquer mentira sobre ele escrita para a publicidade. Que o diga o Pároco da própria freguesia de que se fala que, se é um pouco cansado de pernas, ainda tem inteligência de sobra para ensinar os ignorantes. A qualquer hora que chegue dos seus afazeres ou viagens, seja de manhã, de tarde ou à noite, vai, desde há anos, dar a Sagrada Eucaristia a essa mártir, e nisto estará tudo dito. De resto, sabemos bem que não são estas graças extraordinárias de Deus, concedidas para nosso bem, que dizem qual o real valor moral das pessoas a quem são concedidas. O heroísmo da respectiva vida e virtudes é que vale e pesa na balança de Deus, no prémio a receber. Não se trata pois de qualquer chamariz e muito menos de injustificadas beatificações.

Só mais uma palavra: recordando o Evangelho, estamos calados, mas não temos culpa de que, por isso mesmo, “clamem as pedras”. E, para explicar certos casos, não nos venham falar na fé que cura, de Charcot, na sugestão, de Bernheim, nos eflúvios, do Dr. Baraduc, no sopro curador das multidões, de Zola, nas forças desconhecidas e ainda não estudadas, de Anatole France, e muito menos em histeria ou mentalidades inferiores e impróprias deste século, porque sabemos que tudo isso, como explicação de certos factos inegáveis, assemelha-se a trastes abandonados para o nosso serviço diário. E aos que passam a vida a falar em Ciência, sem saberem o que isso é, lembramos as palavras daquele médico de Pádua, citado por Bourget: “Vivi oitenta anos, estudei sempre e só aprendi uma coisa: a não ignorar a minha ignorância”. Que sumidades intelectuais por aí andam ignoradas!

Ribeirão, 24 de Junho de 1953.

 

N. da R. – Informamos os nossos leitores de que o Sr. Dr. Dias de Azevedo é o médico assistente, há mais duma dezena de anos, da Alexandrina, a doente de Balasar.

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