DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO
(Ribeirão, 21.9.1894-20.11.1971)

Pagela do primeiro aniversário do seu falecimento

 

Na edição Boletim de Graças da Beata Alexandrina de Novembro e Dezembro de 1972, publicou-se um In memoriam ao Dr. Dias de Azevedo, assinado pelo Pe. Humberto Pasquale, que corresponde a uma pagela com texto mais desenvolvido que saiu quando se comemorou o primeiro aniversário da sua morte e que a seguir se copia[1].  

Um homem fiel ao Homem-Deus

“Não temos aqui a nossa Cidade permanente”, já que “para nós, a nossa Cidade está nos Céus” (Filip. 3,30). 

MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO sempre viveu a condição de peregrino até chegar à Casa do Pai comum. Mas nunca desdenhando os meios pelo fim, nem o fim pelos meios. Para este varão ilustre, o fim último não era o único fim.

Assim pensava, assim vivia.

Parafraseando alguém que muito admirava, encarou a vida como uma sucessão de adeuses até ao último adeus – o mais alegre de todos – por ser o prelúdio do verdadeiro a Deus

Pai privilegiado

No Salmo 126, lê-se: “Herança divina são os filhos numerosos”, e ele foi pai de catorze filhos (três bebés ainda vieram a falecer).

Numa carta de 1941, escrevera: “Graças a Deus, dei vida a tantos filhinhos e sinto-me, por isso, co-responsável da sua salvação eterna. Ajude-me com as suas orações, para que nenhum deles ofenda a Deus e se perca.

Um dos filhos é padre, cuja ascensão ao sacerdócio sempre acompanhou discreta, mas solicitamente.

Página inicial da pagela publicada por altura do primeiro aniversário do falecimento do Dr. Dias de Aze-vedo.

No dia da sua Missa Nova, o pai disse e escreveu:

“Sinto uma alegria intensa como raras vezes pode haver na vida. Alegria inefável, que o meu coração não atina com outras palavras que não sejam um fervoroso Magnificat ao Senhor, pois Aquele que é omnipotente quis para seu serviço o meu filho. Ele pôs em nossa humilde casa os seus olhos generosos… Sem Deus nada podemos fazer, nada somos e nada podemos obter”.

Para nada e nunca o subtraiu ao Senhor. Costumava dizer-lhe, e mesmo nos seus últimos dias passados entre nós, ao telefone: “Estimo muito a tua presença, mas primeiro estão as tuas responsabilidades apostólicas”.

E, a uma das filhas que mais de perto esteve a seu lado na longa e penosa enfermidade: “Se não amarmos, não poderemos rezar o Pai-nosso”. 

Estudante e pai cristão

Ainda cursando a Universidade, ajudava alguns párocos do Porto na catequese e outras obras. Tal gesto e restantes atitudes, do conhecimento dos seus colegas da Faculdade, levaram a considerá-lo como um “padre”. Um deles o afirmou no brinde da Missa Nova do filho sacerdote. Cristão iluminado, apreciou a vida da graça. Numa carta de 1941, escreve: “Peça ao Senhor que eu nunca O ofenda na mais pequenina coisa”.

E alimentava essa vida, entre o mais, através da Comunhão quase diária. Tantas vezes a família e amigos o encontravam no seu gabinete de trabalho, anexo ao consultório, rezando: ora em meditação, ora recitando o saltério, ora atirando palavras ao Céu; e sempre findava o dia com a recitação do terço, intercalando com jaculatórias que julgava as mais oportunas e circunstanciais.

Ao apostolado pelo exemplo, individual, ou apostolado em associação, tantas vezes uniu o da palavra dita ou escrita!

No boletim paroquial da sua terra, haveria de escrever o actual pároco:

“Sempre nele admirei o cristão precursor que, muito antes dos actuais movimentos de leigos, já se movimentava espiritual e apostolicamente, dando um incontestável testemunho de fé onde quer que se encontrasse… A sua presença irradiava uma alegria e paz que não eram bem da terra”.

A convite quer de prelados, leigos ou párocos, a quem nunca regateou colaboração, tantas vezes fez ressoar a sua palavra em congressos e assembleias, mesmo num tempo em que a fé, para multidões, era sinónimo de obscurantismo. 

Médico distinto e cristão

Ainda estudante, considerado pelos seus mestres – como havia sido no Seminário de Braga – distinto entre os distintos!

E, no exercício da medicina, a sua opinião haveria de merecer audiência tanto pelos seus colegas regionais como por especialistas e professores universitários, quando chamados para conferências acerca deste ou daquele doente. Augusto na medicina – diria em certa ocasião um catedrático.

Delicado e dedicado com os seus enfermos em quem reconhecia Jesus Cristo sofredor. E tantas vezes prescindindo ou esquecendo os honorários devidos!

Vezes sem conta aconselhou as famílias dos doentes a chamar o sacerdote ou ele mesmo ia buscá-lo no seu carro, preocupado com a sua salvação. Nunca olvidava as limitações da ciência. Quem o conheceu nunca esquecerá o porte fidalgo e bondoso deste “varão justo, cuja lembrança há-de ficar para sempre” (Salmo 111,6). E como era escrupuloso na direcção e funções que lhe eram confiadas! 

O Homem e a Cidade terrestre

Porque homem de carácter, de senso, sabedor e prudente, aliando singular modéstia, tantas vezes era consultado sobre assuntos estranhos à medicina, inclusive por diversas pessoas que não eram seus clientes nem perfilhavam a sua ideologia, e de credos diferentes.

Foi fundador ou animador de várias instituições de promoção social, pugnando por elas quer na sua terra natal, quer em vilas e cidades como Braga, que inúmeras vezes escutou e acatou o seu verbo. Em tudo e em toda a parte, nunca sentindo dificuldade em aliar a fé e a razão, o homem e o Deus de Jesus Cristo.

Após o seu falecimento, escrevia distinto jornalista num dos diários de Braga: “Um Homem que tem direito a maiúscula”. 

O Caso de Balasar

Do inolvidável Doutor Azevedo podemos afirmar que “Deus o conheceu nas entranhas da sua mãe e fê-lo profeta d’Ele” (Jeremias, 1,5).

Dando entrada no Seminário e nele concluindo o seu curso teológico, ainda muito jovem, reconheceu que não era para sacerdote ministerial que Deus o chamava. Desta forma, familiarizado com as ciências divinas, que nunca mais abandonaria – antes procurando cultivá-las em actualização permanente, através dos mestres na Teologia, Mística, Ascética, Psiquiatria e Neurologia, etc. – assim se explica o seu êxito face ao já célebre “Caso” de Balasar, e em que a história há-de consagrar o seu nome. 

História de amor e salvação

Foi o Doutor Dias de Azevedo que, em princípios de 1941, acerca da Doentinha de Balasar – a Alexandrina – disse ao seu primeiro director espiritual, o saudoso Pe. Mariano Pinho, SJ: “É um crime o ‘caso’ ficar sem estudo no seu aspecto clínico”. E, perante as dificuldades apresentadas pelo referido director - “não há a quem recorrer” – este médico, tão culto como simples, ofereceu-se para esse trabalho, que lhe haveria de oferecer tantas dores!

O certo é que o estudou e defendeu com rara competência e ardor. A história da doença da Serva de Deus e o diagnóstico muito documentado pertencem-lhe com todo o direito. A ele se deve também o relatório completo dos médicos sobre o jejum total da Doentinha de Balasar.

E, quando este ‘caso’ foi alvo de hostilidade de que, como ensina Santa Teresa de Ávila, Nosso Senhor costuma servir-se para fazer conhecer os seus favores divinos, e a Alexandrina, de facto, se tornava falada em Portugal inteiro, foi o Doutor Azevedo o seu corajoso e firme defensor perante teólogos e médicos. E foi ainda nessa altura que o Senhor – assim o cremos – consagrou a missão deste clínico prestigiado num êxtase da Alexandrina: “Faço do teu médico o arauto da minha causa”. Isto em Dezembro de 1944.

Junto das Autoridades Eclesiásticas não se cansou de pedir um estudo cuidadoso, sob o aspecto clínico, da Serva de Deus. Fez mesmo silenciar alguns médicos sem fé, desafiando-os com argumentos científicos e competentes no assunto.

Quando a Alexandrina foi privada também do seu segundo director espiritual, lá ficou ao lado da Crucificada de Balasar a ajudá-la inteligentemente a levar a sua cruz até ao fim do seu doloroso calvário e a servir de traço de união com os directores.

Nosso Senhor premiou o Servo bom e fiel com a introdução da Causa de Beatificação da sua extraordinária Doentinha.

A grandeza da personalidade do médico Azevedo brilhou nessa ocasião pela humildade que foi sempre característica da sua vida e que manifestou sempre nas palavras “Somos servos inúteis! A Deus só a honra e glória!”

Foi com este sentimento que, desde esse dia em diante, se foi apagando lentamente esse grande pai e médico cristão que conjugou em toda a vida a ciência e a fé. A sua querida Doentinha, numa carta ao Pe. Pinho, definiu assim o seu médico: “E tão bonzinho! E uma alma que que quer ser toda de Deus!”

Fiel durante uma vida inteira de trabalho! Fiel e grande na longa enfermidade – tão penosa! – mas que sempre enfrentou com paz e suavidade espelhadas no seu rosto sorridente, mesmo depois de falecido! E sempre perguntando como decorria a Igreja e o Mundo!

Como ocultava as dores, por vezes horríveis, perante seus familiares, médicos e enfermeiros/as que o tratavam!

Os silêncios e as falas do Doutor Azevedo nesta terra de peregrinos!

Os apelos, as falas do Doutor Azevedo – agora ausente, que não extinto – são estes:

“Ouvi, Esposa, Filhos, Amigos – todos peregrinos – o vosso marido, pai e amigo: Servi ao Senhor em verdade e trabalhai para fazerdes o que for do seu agrado”, que é a vossa felicidade (Tobias, 14,10).


[1] Tem o imprimatur datado de Braga, 16 de Dezembro de 1972, e a sua redacção final parece ter sido da responsabilidade do Pe. Alberto Azevedo.

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