Pagela do primeiro aniversário do seu falecimento
Na edição Boletim
de Graças da Beata Alexandrina de Novembro e
Dezembro de 1972,
publicou-se um In memoriam ao Dr. Dias de Azevedo, assinado
pelo Pe. Humberto Pasquale, que corresponde a uma pagela com texto
mais desenvolvido que saiu quando se comemorou o primeiro
aniversário da sua morte e que a seguir se copia.
Um homem fiel ao Homem-Deus
“Não temos aqui a nossa Cidade permanente”, já que “para nós,
a nossa Cidade está nos Céus” (Filip. 3,30).
MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO sempre viveu a condição de
peregrino até chegar à Casa do Pai comum. Mas nunca
desdenhando os meios pelo fim, nem o fim pelos meios. Para
este varão ilustre, o fim último não era o único fim.
Assim pensava, assim vivia.
Parafraseando alguém que muito admirava, encarou a vida como
uma sucessão de adeuses até ao último adeus – o mais alegre
de todos – por ser o prelúdio do verdadeiro a Deus.
Pai privilegiado
No Salmo 126, lê-se: “Herança divina são os filhos numerosos”,
e ele foi pai de catorze filhos (três bebés ainda vieram a
falecer).
Numa carta de 1941, escrevera: “Graças a Deus, dei vida a
tantos filhinhos e sinto-me, por isso, co-responsável da sua
salvação eterna. Ajude-me com as suas orações, para que
nenhum deles ofenda a Deus e se perca.
Um dos filhos é padre, cuja ascensão ao sacerdócio sempre
acompanhou discreta, mas solicitamente. |
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Página inicial
da pagela publicada por altura do primeiro aniversário do
falecimento do Dr. Dias de Aze-vedo. |
No dia da sua Missa Nova, o pai disse e escreveu:
“Sinto uma alegria intensa como raras vezes pode haver na vida.
Alegria inefável, que o meu coração não atina com outras palavras
que não sejam um fervoroso Magnificat ao Senhor, pois Aquele que é
omnipotente quis para seu serviço o meu filho. Ele pôs em nossa
humilde casa os seus olhos generosos… Sem Deus nada podemos fazer,
nada somos e nada podemos obter”.
Para nada e nunca o subtraiu ao Senhor. Costumava dizer-lhe, e mesmo
nos seus últimos dias passados entre nós, ao telefone: “Estimo muito
a tua presença, mas primeiro estão as tuas responsabilidades
apostólicas”.
E, a uma das filhas que mais de perto esteve a seu lado na longa e
penosa enfermidade: “Se não amarmos, não poderemos rezar o Pai-nosso”.
Estudante e pai cristão
Ainda cursando a Universidade, ajudava alguns párocos do Porto na
catequese e outras obras. Tal gesto e restantes atitudes, do
conhecimento dos seus colegas da Faculdade, levaram a considerá-lo
como um “padre”. Um deles o afirmou no brinde da Missa Nova do filho
sacerdote. Cristão iluminado, apreciou a vida da graça. Numa carta
de 1941, escreve: “Peça ao Senhor que eu nunca O ofenda na mais
pequenina coisa”.
E alimentava essa vida, entre o mais, através da Comunhão quase
diária. Tantas vezes a família e amigos o encontravam no seu
gabinete de trabalho, anexo ao consultório, rezando: ora em
meditação, ora recitando o saltério, ora atirando palavras ao Céu; e
sempre findava o dia com a recitação do terço, intercalando com
jaculatórias que julgava as mais oportunas e circunstanciais.
Ao apostolado pelo exemplo, individual, ou apostolado em associação,
tantas vezes uniu o da palavra dita ou escrita!
No boletim paroquial da sua terra, haveria de escrever o actual
pároco:
“Sempre nele admirei o cristão precursor que, muito antes dos
actuais movimentos de leigos, já se movimentava espiritual e
apostolicamente, dando um incontestável testemunho de fé onde quer
que se encontrasse… A sua presença irradiava uma alegria e paz que
não eram bem da terra”.
A convite quer de prelados, leigos ou párocos, a quem nunca regateou
colaboração, tantas vezes fez ressoar a sua palavra em congressos e
assembleias, mesmo num tempo em que a fé, para multidões, era
sinónimo de obscurantismo.
Médico distinto e cristão
Ainda estudante, considerado pelos seus mestres – como havia sido no
Seminário de Braga – distinto entre os distintos!
E, no exercício da medicina, a sua opinião haveria de merecer
audiência tanto pelos seus colegas regionais como por especialistas
e professores universitários, quando chamados para conferências
acerca deste ou daquele doente. Augusto na medicina – diria
em certa ocasião um catedrático.
Delicado e dedicado com os seus enfermos em quem reconhecia Jesus
Cristo sofredor. E tantas vezes prescindindo ou esquecendo os
honorários devidos!
Vezes sem conta aconselhou as famílias dos doentes a chamar o
sacerdote ou ele mesmo ia buscá-lo no seu carro, preocupado com a
sua salvação. Nunca olvidava as limitações da ciência. Quem o
conheceu nunca esquecerá o porte fidalgo e bondoso deste “varão
justo, cuja lembrança há-de ficar para sempre” (Salmo 111,6). E como
era escrupuloso na direcção e funções que lhe eram confiadas!
O Homem e a Cidade terrestre
Porque homem de carácter, de senso, sabedor e prudente, aliando
singular modéstia, tantas vezes era consultado sobre assuntos
estranhos à medicina, inclusive por diversas pessoas que não eram
seus clientes nem perfilhavam a sua ideologia, e de credos
diferentes.
Foi fundador ou animador de várias instituições de promoção social,
pugnando por elas quer na sua terra natal, quer em vilas e cidades
como Braga, que inúmeras vezes escutou e acatou o seu verbo. Em tudo
e em toda a parte, nunca sentindo dificuldade em aliar a fé e a
razão, o homem e o Deus de Jesus Cristo.
Após o seu falecimento, escrevia distinto jornalista num dos diários
de Braga: “Um Homem que tem direito a maiúscula”.
O Caso de Balasar
Do inolvidável Doutor Azevedo podemos afirmar que “Deus o conheceu
nas entranhas da sua mãe e fê-lo profeta d’Ele” (Jeremias, 1,5).
Dando entrada no Seminário e nele concluindo o seu curso teológico,
ainda muito jovem, reconheceu que não era para sacerdote ministerial
que Deus o chamava. Desta forma, familiarizado com as ciências
divinas, que nunca mais abandonaria – antes procurando cultivá-las
em actualização permanente, através dos mestres na Teologia, Mística,
Ascética, Psiquiatria e Neurologia, etc. – assim se explica o seu
êxito face ao já célebre “Caso” de Balasar, e em que a história há-de
consagrar o seu nome.
História de amor e salvação
Foi o Doutor Dias de Azevedo que, em princípios de 1941, acerca da
Doentinha de Balasar – a Alexandrina – disse ao seu primeiro
director espiritual, o saudoso Pe. Mariano Pinho, SJ: “É um crime o
‘caso’ ficar sem estudo no seu aspecto clínico”. E, perante as
dificuldades apresentadas pelo referido director - “não há a quem
recorrer” – este médico, tão culto como simples, ofereceu-se para
esse trabalho, que lhe haveria de oferecer tantas dores!
O certo é que o estudou e defendeu com rara competência e ardor. A
história da doença da Serva de Deus e o diagnóstico muito
documentado pertencem-lhe com todo o direito. A ele se deve também o
relatório completo dos médicos sobre o jejum total da Doentinha de
Balasar.
E, quando este ‘caso’ foi alvo de hostilidade de que, como ensina
Santa Teresa de Ávila, Nosso Senhor costuma servir-se para fazer
conhecer os seus favores divinos, e a Alexandrina, de facto, se
tornava falada em Portugal inteiro, foi o Doutor Azevedo o seu
corajoso e firme defensor perante teólogos e médicos. E foi ainda
nessa altura que o Senhor – assim o cremos – consagrou a missão
deste clínico prestigiado num êxtase da Alexandrina: “Faço do teu
médico o arauto da minha causa”. Isto em Dezembro de 1944.
Junto das Autoridades Eclesiásticas não se cansou de pedir um estudo
cuidadoso, sob o aspecto clínico, da Serva de Deus. Fez mesmo
silenciar alguns médicos sem fé, desafiando-os com argumentos
científicos e competentes no assunto.
Quando a Alexandrina foi privada também do seu segundo director
espiritual, lá ficou ao lado da Crucificada de Balasar a ajudá-la
inteligentemente a levar a sua cruz até ao fim do seu doloroso
calvário e a servir de traço de união com os directores.
Nosso Senhor premiou o Servo bom e fiel com a introdução da Causa de
Beatificação da sua extraordinária Doentinha.
A grandeza da personalidade do médico Azevedo brilhou nessa ocasião
pela humildade que foi sempre característica da sua vida e que
manifestou sempre nas palavras “Somos servos inúteis! A Deus só a
honra e glória!”
Foi com este sentimento que, desde esse dia em diante, se foi
apagando lentamente esse grande pai e médico cristão que conjugou em
toda a vida a ciência e a fé. A sua querida Doentinha, numa carta ao
Pe. Pinho, definiu assim o seu médico: “E tão bonzinho! E uma alma
que que quer ser toda de Deus!”
Fiel durante uma vida inteira de trabalho! Fiel e grande na longa
enfermidade – tão penosa! – mas que sempre enfrentou com paz e
suavidade espelhadas no seu rosto sorridente, mesmo depois de
falecido! E sempre perguntando como decorria a Igreja e o Mundo!
Como ocultava as dores, por vezes horríveis, perante seus familiares,
médicos e enfermeiros/as que o tratavam!
Os silêncios e as falas do Doutor Azevedo nesta terra de peregrinos!
Os apelos, as falas do Doutor Azevedo – agora ausente, que não
extinto – são estes:
“Ouvi, Esposa, Filhos, Amigos – todos peregrinos – o vosso marido,
pai e amigo: Servi ao Senhor em verdade e trabalhai para fazerdes o
que for do seu agrado”, que é a vossa felicidade (Tobias, 14,10).
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