O Dr. Dias de
Azevedo foi o primeiro a denunciar a mentira do jesuíta Pe.
Agostinho Veloso. Foi necessária muita coragem para o fazer num
jornal de grande circulação, O Comércio do Porto, e que o
tinha em confessado apreço. Mas foi ali que o médico o enfrentou.
Não há uma
desenvolvida biografia deste jesuíta, mas o meu amigo Afonso Rocha
escreveu sobre ele um longo e útil artigo crítico, em duas partes
(que se podem ler aqui:
http://alexandrina.balasar.free.fr/alex_veloso_1.htm;
e aqui:
http://alexandrina.balasar.free.fr/alex_veloso_2.htm).
No Processo
Informativo Diocesano da Beata Alexandrina, o Pe. Agostinho Veloso
pôs às claras a sua má vontade para com a Doente de Balasar e para
com o seu antigo director espiritual, o Pe. Mariano Pinho. Mas foi
também então que as muitas testemunhas do Processo denunciaram as
falsidades deste sacerdote.
A sua falaz
carreira, porém, só terminou com a sua morte em 20/2/1970. Em 1961,
tinha recebido uma comenda da Presidência da República.
O artigo com que
o Dr. Dias de Azevedo o mimoseou em 1947, e que se copia abaixo,
deve ter sido humilhante para as suas pretensões e deve ter causado
enorme surpresa entre os seus admiradores. 
Capa do
Vitral Antigo, livro de poemas do Pe.
Agostinho Veloso.
Comentário a uma
opinião
Do Sr. Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, médico, de Ribeirão,
Minho, recebemos, com pedido de publicação, as seguintes
considerações acerca dum artigo publicado numa revista de Lisboa em
que é especialmente criticado um dos nossos mais distintos
colaboradores:
Ribeirão, 13 de Fevereiro de 1947.
O jesuíta Sr. Pe. Agostinho Veloso deveria estar dispensado de
escrever, precipitadamente, na revista de responsabilidade que é a “Brotéria”.
Essa determinação exigem-na os invioláveis direitos da verdade
ultrajada e ainda o respeito que, justamente, é devido a vários
colegas e irmãos de S. Rev.cia e muitas pessoas de reputação
respeitável.
Por hoje, consideramos, simplesmente, algumas razões. No lastimável
artigo “Mística e Jornalismo”, publicado no número de Janeiro último,
na “Brotéria”, referente a um folhetim de “O Comércio do Porto”, do
Sr. Dr. Júlio Dantas, o jesuíta Sr. Pe. A. Veloso, com um
conhecimento neuropsiquiátrico que ignoramos onde fora adquirido,
mas uma conhecida falta de justiça e de caridade, já, há tempos, por
vários constatada, esquecendo-se S. Rev.a de que, por vezes, não
basta, levianamente, afirmar, mas é preciso, cientificamente, provar,
chama visionária, no sentido pejorativo da palavra, a uma doente
extraordinária de Balasar, difamando, consequentemente, essa doente,
vários padres, alguns da Companhia de Jesus e outros de outras
ordens, e tendo alguns competências em ascética e mística, e ainda
os médicos que, actualmente e com admiração, andam a estudar essa
doente, bem como os médicos que, há anos, a estudaram, sendo alguns
distintos professores duma Faculdade de Medicina, que
indubitavelmente mereciam a S. Rev.cia alguma consideração, pois,
nestes assuntos, para distinguir o patológico daquilo que o não é,
os médicos devem ser ouvidos, como escreveu S. Tomás e S. Rev.cia
aconselha, esquecendo, na prática, o conselho próprio. Esta doente,
a quem o Mons. Vilar chamava a sua “mais fiel colaboradora na
terra”, mielítica há duas dezenas de anos, apresenta vários
fenómenos extraordinários, que os médicos não podem classificar de
patológicos e que, segundo um relatório apresentado a quem de
direito, deveriam ser estudados por autoridades em ascética e
mística. 
O “Comentário a
uma opinião”, do Dr. Dias de Azevedo, saiu na primeira pagina d’O
Comercio do Porto de 24 de Fevereiro de 1947.
Deixamos, porém, todos esses fenómenos místicos, para considerar ou
referir, simplesmente, um fenómeno bioquímico e fisiológico em que
os médicos, segundo o bom senso, devem ser ouvidos. Essa doente, de
quarenta e um anos de idade, de vida intelectual e afectiva intensas,
de faculdades e sentidos normais, sem os menores sintomas de
histeria ou qualquer outra neuropsicose, passando dias e noites sem
dormir ou dormindo pouco, conservando invariavelmente ou com pequena
variação, o mesmo peso, de tensões arteriais normais, sustentando
conversas inteligentes sem o menor deslize moral, durante horas e na
mesma posição, apresentando também o seu sangue normal nos seus
elementos constitutivos ou de desassimilação, não somente vivendo,
numa casa de saúde, quarenta dias completos e consecutivos, sob
vigilância, de dia e de noite, feita por pessoas competentes e
dirigidas por um competentíssimo médico neuropsiquiatra, numa
abstinência absoluta de alimentos sólidos e líquidos, incluindo a
simples água, mas também vivendo, desde Março de 1942, isto é, há
cinco anos, numa abstinência absoluta de substâncias alimentares,
simplesmente bebendo, um ou outro dia, por imposição clínica, uma ou
outra colherinha de água simples, com o fim de diminuir a secura que
em sua boca, por vezes, sente, tendo, mensalmente, durante uns dias,
verdadeiras menorragias, constitui um facto verdadeiramente
extraordinário, que a ciência não pode, satisfatoriamente, explicar,
não podendo essa doente ser comparada com qualquer histérica ou
visionária, a não ser insensatamente.
Tudo isto foi dito e redito em relatórios entregues à autoridade
competente e ao provincial dos jesuítas. Não se tratando de nenhuma
criatura pejorativamente anormal ou diminuída mental e havendo duas
correntes, no público e na Companhia de Jesus, que, neste caso,
divergiam e se menosprezavam, com escândalo dos fiéis, pediu-se, por
vezes, que fosse estudado este caso extraordinário, para que ficasse
devidamente esclarecido, pois o descuido no seu estudo seria
censurado pelos vindouros. Estes diriam que tinha havido
incompetência na solução do caso, quer ele fosse extraordinário,
quer fosse uma mistificação. Se fosse dado como extraordinário,
seria um pelourinho para muitos, por o não terem cercado de
vigilância, respeito e direcção, de que era digno, fazendo calar
difamações. Se fraudulento, todos diriam que se não pôs termo àquilo
que, para glória de Deus e bem das almas, o devia ser. Por escrito e
pessoalmente, argumentou-se assim várias vezes e dizia que
continuaria o meu silêncio, excepto quando uma qualquer revista de
responsabilidade, incompetentemente, o ventilasse.
Sabíamos que os jesuítas estavam proibidos de falar neste assunto,
mas também sabíamos que, se alguns respeitavam essa proibição,
outros não faziam caso dela. Eram sintomas de que lavrava a
desobediência onde menos era lícito esperá-la. Quero declarar que,
todas as vezes que me chegava às mãos a “Brotéria”, a minha primeira
curiosidade era ver a epígrafe do assunto que escrevia o Sr. Pe. A.
Veloso. Tinha para isso as minhas razões. Ao ver, agora, que o
jesuíta Sr. Pe. A. Veloso classificava de visionária, em sentido
pejorativo, uma doente que o não é e a quem nunca viu, não tendo a
menor consideração pela reputação dela, nem pela reputação dos
médicos que a estudaram, nem ainda pela dos seus colegas na
Companhia, que de S. Rev.a, plenamente, discordam, como médico
assistente dessa doente, tenho de dizer ao Sr. Pe. A. Veloso:
procure relembrar as palavras de Gamaliel ao Sinédrio, quando dizia:
“Aconselho-vos a que não vos metais com estes homens e que os
deixeis, porque, se esta ideia ou esta obra vêm dos homens, ela
mesma se desfará, mas, se vem de Deus, não a podereis desfazer:
assim, não correreis o risco de fazer oposição ao próprio Deus”.
Tenho dito; ou, então, se assim o quiserem, somente tenho
principiado. |