A Beata Alexandrina, o Pe. Mariano Pinho, o Dr. Dias de Azevedo,
até o Pe. Leopoldino Mateus, cada um a seu modo, foram vítimas da
República. Mas não o foram só numa perspectiva estritamente pessoal,
viveram antes o clima de violento anticlericalismo que aquele regime
despoletou e promoveu. Estudar qualquer deles remete inevitavelmente
para esses calamitosos tempos. Factos são factos. O estudo destas
pessoas não pode ser isolado do ambiente em que tanto as afectou.
Dentro das minhas limitadas possibilidades, evoquei esse período na
minha A Balasar da Alexandrina.
Dos três amigos da Beata Alexandrina que acabo de lembrar, que eu
conheça, nenhum deixou uma evocação pormenorizada desse período. Ela
deixou-a, mas em breves notas. Católicos empenhados, aparentemente,
todos eles estavam mais preocupados com o presente do que em
recordar memórias tão dolorosas.
Mas, quando se vê o recém-formado e recém-casado Dr. Dias de Azevedo
a assumir a presidência da Junta de Ribeirão ou a elogiar Salazar,
não se pode esquecer que ele está a dar o seu contributo para
imunizar a sua terra de tamanhos males. “Que lutas as de então!”,
escreverá um dia.
Por muito que considere um grande avanço o meu estudo deste médico,
ele não é obra completa. Para este caso, nem sequer consegui
determinar os anos exactos em que ele iniciou a teologia e a
concluiu, o que ajudaria a avaliar melhor o que terá sido o seu
relacionamento com o regime.
De qualquer dos modos, os tempos deveriam ser aterradores: a
expropriação da Sé, do Paço Episcopal, dos Seminários, o envio dos
seminaristas para casa (por insegurança), o seminário transformado
em quartel, o exílio do Arcebispo, a ameaça das cultuais, o ambiente
hostil!… Que gigantesco desafio à fé! Que Deus é que as pessoas
adoravam que as deixava assim ao abandono perante os seus inimigos?
Copiada do meu livro, intercalo aqui a notícia do fecho do Seminário Conciliar, em Maio de 1911, quando o seminarista Dias de Azevedo
tinha quase dezassete anos.
Seminário Conciliar
Este importante estabelecimento de educação foi sábado
inesperadamente encerrado como medida de precaução, retirando para
as suas terras os 200 alunos internados que ali existiam.
O facto produziu sensação na cidade.
Em ocasião oportuna regressarão os alunos para fazerem os seus
exames.

A vida do Dr. Dias de Azevedo foi de constante luta, mas nunca
desistiu.
José Ferreira |