Este
artigo foi escrito pelo Prof. José Ferreira e colocado em linha num
site da Beata Alexandrina há cerca de dez anos e constitui assim uma
espécie de versão original e muito reduzida do livro que
recentemente dedicou ao Dr. Dias de Azevedo.
***
O
Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo não nasceu no nosso Arciprestado,
mas por cá realizou obra de mérito. Que outros o considerem seu, e
por boas razões, isso não invalida que seja também um pouco nosso.
A
sua actuação junto da Alexandrina foi tão empenhada, persistente e
duradoura que há quem o coloque ao nível dos padres Pinho e
Humberto. Possuidor de conhecimentos teológicos como eles, como eles
apoiou a diversos níveis aquela que adoptou como sua madrinha.
Além de tudo o mais, pôs o seu nome e o seu saber médico ao serviço
da constatação objectiva do que a Medicina podia afirmar que, nela,
ultrapassava as leis da simples natureza. Se não publicou livros
sobre a Alexandrina, defendeu-a com numerosas e oportunas cartas
enviadas a vários destinatários, nas páginas dos jornais e criou o
importante Boletim Mensal «Alexandrina Maria da Costa, a Doente de
Balasar» e redigiu-o desde Julho de 1957 a Agosto de 1970. No
Processo Diocesano, foi uma das principais testemunhas.
Os
opositores da Beata continuam a reclamar documentos. Esses
documentos de rigor científico e com a assinatura de médicos
competentes existem sobretudo graças a ele.
ESBOÇO BIOGRÁFICO
O
Dr. Dias de Azevedo nasceu na vila de Ribeirão, Vila Nova de
Famalicão, em 21/09/1894, e aí faleceu a 20/12/1971. No número de
Janeiro de 1960 do Boletim Mensal, evocava ele assim a sua
adolescência e juventude:
«Fui estudar, tendo onze anos de idade, para os
Seminários de Braga e, depois de feito aí o Curso Teológico, fui
convidado por quem de direito a ir formar-me na Universidade
Gregoriana, agradecendo, mas declinando o convite.»
Este convite significa com certeza que dera mostras de real
capacidade intelectual.
Ensinou depois o Dr. Dias de Azevedo no Colégio de Ermesinde;
paralelamente, dedicava-se a actividades de animação religiosa. Mas
voltemos ao seu relato autobiográfico:
«Em seguida fui leccionar e resolvi simultaneamente
repetir nos Liceus os exames do curso secundário. Após esses exames,
matriculei-me na Faculdade de Medicina, fazendo esse curso no tempo
normal de seis anos e leccionando sempre. Defendida depois a tese de
doutoramento, que nesse tempo era facultativa, embora convidado por
pessoas ilustres a ficar a trabalhar no Porto, vim para Ribeirão,
minha terra natal, onde há 35 anos venho exercendo clínica. (…)»
Inicia de facto a sua actividade em 1924.
Um
catedrático veio a chamar-lhe «Augusto na medicina»; o Padre
Humberto declarou-o «primus inter primos», primeiro entre os
primeiros.
Apesar de ser pai de 14 filhos, dadas as dificuldades económicas da
população, dedicava dois dias semanais a consultas gratuitas para os
mais indigentes.
«Homem de acção, foi fundador ou animador de várias
instituições de prevenção social, pugnando por elas quer na sua
terra natal, quer em vilas e cidades.» «Foi chamado a usar da
palavra em congressos religiosos de carácter nacional, assembleias
paroquiais, permanecendo os seus discursos quer nas respectivas
actas, quer em separatas.»
Os
primeiros contactos com a Alexandrina
No
citado número do Boletim Mensal, continua este médico:
«Exerci clínica uns dezassete anos sem conhecer a
Alexandrina, mas, em Fradelos, ao aconselhar esta ou aquela pessoa
muito doente a que tivesse paciência nos seus sofrimentos, ouvi uma
ou outra vez dizer : “Sim, Sr. Dr., se tivesse a paciência da
Alexandrina…”

O Dr. Dias de Azevedo e a
Alexandrina
Que Alexandrina é essa de quem se fala, perguntei
uma vez. “Da Alexandrina de Balasar”, ouvi eu em resposta. No
entanto, depressa esqueci a impressão das palavras que ouvira,
embora, já um pouco distante fosse conhecida a paciência da nossa
heroína.
Em 1940, adoeceu gravemente uma senhora da Trofa,
terminando a sua doença com uma glomérola-nefrite e amaurose. Era eu
o seu médico assistente, mas sob a direcção de bons médicos do
Porto, declarando eles por fim que era incurável a sua doença e
próximo o seu fim.
O marido, um daqueles homens que é capaz de ir ao
fim do mundo para conseguir uma coisa útil que tenha em vista, foi
pedir ao Servo de Deus Padre Cruz, S.J., o favor de vir ver a
doente. Ele veio e teve palavras de muito conforto, prometendo rogar
por ela. Mas a doente ia piorando, e de que se lembra o marido?
Tendo ouvido dizer que em Balasar havia uma doente muito boa pessoa
e de quem se falava com admiração, resolveu pedir-lhe que
intercedesse pela cura da sua mulher. Convidou-me a acompanhá-lo e
lá fomos nós os dois e outros, em 29/1/41.
Tendo sido recebidos no seu quartinho, lá estivemos
a conversar talvez umas duas horas. A conversa era entre uns dois ou
três e a Alexandrina, e eu conservei-me silencioso, a observar tudo
o que se passava. Pareceu-me que a minha presença impressionava um
pouco a Alexandrina e eu achava graça ao seu olhar simples e
cândido, mas profundo, que parecia ver tudo o que somos.
No fim da conversa, fiz-lhe umas perguntas a
respeito da sua paraplegia e, nessa ocasião, ela ficou sabendo que
eu era médico.
Prometeu-nos que ia rogar muito pela nossa doente,
mas foi-nos dizendo que era preciso conformarmo-nos sempre e em tudo
com a vontade de Deus.
Ao sairmos da sua casa, resolvi ir falar com o
pároco, o Sr. Padre Leopoldino Mateus, porque me parecia ser
extraordinária uma criatura que falava como ela falou, atentas as
condições em que tinha vivido. Na conversa com o Sr. Padre
Leopoldino, este fez as melhores referências à Alexandrina,
dizendo-me que era a melhor auxiliar da sua vida pastoral e que
visse se o director espiritual dela ― o Sr. Padre Mariano Pinho,
S.J. ― me autorizava a assistir às sextas-feiras, das doze às quinze
horas, a uns fenómenos que se passavam com essa sua paroquiana.
Pouco depois, fomos a Braga e obtivemos a desejada
licença, trazendo um cartão a recomendar à Alexandrina a referida
doente da Trofa. (…) Fomos assistir aos tais fenómenos no dia
14/2/41. Eram impressionantes, maravilhosos, inolvidáveis, e não se
poderá duvidar mais tarde do que agora afirmo, porque eles estão
filmados para a posteridade ou para a ocasião que seja oportuna.
No dia seguinte, a 15/2/41, escrevi ao Sr. Padre
Mariano Pinho:
“Irei
mais vezes a Balasar e procurarei como médico estudar a doença da
Alexandrina, doença que acompanha os dotes de que o Senhor a dotou.
Essa doença, que deverá ser uma mielite lombar e que deverá ser
registada por vários médicos, a meu ver, mais realça todos os
fenómenos que se passam todas as sextas-feiras, principalmente no
que diz respeito a movimentos.
Enquanto a fisionomias várias, compostura de
movimentos, profundeza de conceitos teológicos e místicos expressos,
tudo isso é simplesmente admirável. Nada, absolutamente nada do que
se passa, quer sob o ponto de vista clínico quer sob o ponto de
vista teológico, nos poderá permitir classificar de naturais os
fenómenos que observamos. Depois, a sua vida humilde e
despretensiosa, a sua falta de cultura, o seu equilíbrio de
inteligência e maneiras, a sua resignação completa, humilde
profunda, os seus rasgos de génio amiudados, tudo isto envolto numa
simplicidade encantadora, dá provas manifestas de que se trata duma
alma a transbordar de sobrenatural.”»
A
Alexandrina convencia, seduzia rapidamente. É agora com este médico,
Já fora assim com o Monsenhor Vilar, será depois com o Padre Terças,
com o Padre Humberto, com o Padre Isidoro Magunha, etc.
Do
Dr. Abílio Garcia de Carvalho ao Dr. Dias de Azevedo
Em
26 de Janeiro de 1941, falece o Dr. Abílio Garcia de Carvalho, com
um cancro no estômago, em Calendário, Vila Nova de Famalicão. É
nesse mesmo mês que o Dr. Dias de Azevedo se apresenta ao Padre
Pinho. Veja-se o que este escreve em No Calvário de Balasar:
«Mas eis que, em princípios de 1941, nos procura em
Braga um cavalheiro que nos afirma ser médico
— Dr. Manuel Augusto de Azevedo — e manifesta-nos desejo de ver a
doente de Balasar, pedindo-nos para isso uma apresentação.
Lá foi e, depois de ter assistido várias vezes aos
êxtases da Paixão, declarou-nos que um caso destes tinha de ser bem
estudado e registado pela Ciência, tão extraordinário ele era.
Respondi-lhe que já vários médicos a tinham
examinado e que os exames e resultados só serviram para mais
torturar a pobre mártir.
Ele porém insistiu e comprometia-se a escolher
médicos competentes e que tratariam a doente com todo o cuidado.»
O
Dr. Abílio de Carvalho tinha consultório na Póvoa de Varzim desde
1919, na Rua de Santos Minho. É provável que a Alexandrina já o
frequentasse desde 1920.
Para este médico e católico militante, que foi presidente da Câmara
Municipal da Póvoa de Varzim (1935-1940), que interveio em vários
congressos religiosos e pronunciou palestras em muitos pontos do
país, ela devia ser uma doente especial, pois terá visto nela desde
o princípio uma heroína, ao modo de Santa Maria Goretti. A
Alexandrina dedicava-lhe grande estima. Ainda antes de acamar,
porém, visto a medicina não se mostrar capaz de lhe devolver a saúde
e ser dispendiosa a ida à Póvoa, passou a ser acompanhada por um
médico de Rates.
Quando, em 1938, ao reviver a Paixão, a Alexandrina readquire, em
êxtase, a capacidade motora, o Padre Pinho sentiu necessidade de
ouvir a voz dos médicos que a tinham acompanhado, como escreve em
No Calvário de Balasar, pág. 146:
«Convidaram-se, antes de mais ninguém, o
médico assistente, Dr. João Alves Ferreira e o Dr. Abílio
Garcia de Carvalho, da Póvoa de Varzim, a presenciar alguns
desses êxtases da Paixão.»
O Dr. Abílio de Carvalho fez então várias
diligências no sentido de esclarecer a origem da paralisia
da Alexandrina, de que o Padre Pinho dá conta.
O Dr. Dias de Azevedo veio pois continuar os
esforços do Dr. Abílio de Carvalho.
Notícia da morte do Dr. Dias de Azevedo saída no Boletim
Mensal da Alexandrina. |
Era preciso esclarecer em definitivo as
razões da paralisia, era preciso esconjurar a aleivosia de
que a Alexandrina fosse uma histérica. Com o início do
jejum, será preciso esclarecer que ele é real e não uma
mistificação e que ela não era uma anoréxica.
Mas as circunstâncias acabarão por chamar o novo médico assistente
para outras tarefas, a principal das quais é a de defender, em
várias frentes, a honra daquela que é a sua glória de médico («a
minha glória na vida»).
Já
se viu que, quando chega a Balasar, ainda dirigia a Alexandrina o
Padre Mariano Pinho. Fá-lo-á até final do ano seguinte. Em breve ia
ter lugar o episódio do Padre Terças, que desencadeará enorme
posição. Depois, acontecerá a Consagração do Mundo, em que muito
poucos adivinharão a intervenção da Alexandrina. Mais adiante, ainda
na continuação do estudo clínico, caberá ao Dr. Dias de Azevedo,
como motivo alto de glória, levá-la ao Porto, ao Refúgio da
Paralisia Infantil. Depois, será a luta entre os que aceitam o
carácter extraordinário ― entenda-se, sobrenatural ― do que se passa
com a Alexandrina e aqueles que o negam ; uma luta renhida e longa.
Mas dela resultará também que tudo foi estudado, nada se afirma sem
amadurecida reflexão, sem comprovação.
A
Alexandrina no Refúgio de Paralisia Infantil
A
verificação do jejum e anúria da Alexandrina no Refúgio de Paralisia
Infantil, da Foz do Douro, muito deve ao Dr. Dias de Azevedo. Ele
alonga-se sobre o assunto no Boletim, a partir de Abril de 1964,
quando acabava de falecer o Dr. Gomes de Araújo. Fá-lo
demoradamente, mas «esquecendo-se» de dar o justo relevo ao papel
que lhe coube nesta verificação.
Depois de elogiar o director do Refúgio e referir as conversas por
ele havidas com o Sr. Arcebispo, que o aconselhava a aprofundar o
estudo clínico, prossegue:
«Fui
ao Porto e convidei um médico distintíssimo a irmos a Balasar ver a
Alexandrina (cuja doença ou afecção, em 15 de Julho de 1941, o Sr.
Dr. Gomes de Araújo tinha classificado de paralisia orgânica por
afecção medular de um ou mais focos), dizendo-lhe que não se
alimentava. Respondeu-me logo que ia vê-la, quando eu quisesse.
Disse-lhe, entre outras coisas, que era um caso interessante, visto
que ela, além de não se alimentar, apresentava fenómenos
extraordinários, que os teólogos chamavam êxtases. Então esse meu
amigo respondeu-me logo que nesse caso desistia de estudar o “caso”,
visto que não queria meter-se em tal estudo.
Não pareceu dito próprio de tão formoso espírito que
ele era. Como católico, tinha obrigação de estudar o “caso”, ou para
constatá-lo como admirável e respeitável coisa de Deus ou como
mistificação a descobrir para não iludir ninguém. E poucos médicos
estariam em tão boas condições intelectuais como ele estava. Mas as
coisas são como são e, por vezes, como não devem ser.
Depois, fui convidar o Sr. Dr. Carlos Lima, e esse
professor distintíssimo respondeu-me que aceitava o meu convite.
Por fim, fui convidar o Sr. Dr. Gomes de Araújo, a
quem só disse tratar-se duma doente que não se alimentava. Também
aceitou o meu convite, mas creio que persuadido de tratar-se duma
anorexia mental igual a outro caso que já lhe tinha entregado e que
ele muito bem curou, ou então duma mistificação.
Dr. Henrique Gomes de Araújo |
Soube pouco depois que, falando-lhe alguém, na
Trofa, neste caso, ele respondera que deveria tratar-se dum caso em
que me iludiram e que, em poucos dias, sendo internada e vigiada a
doente, daria o que tinha a dar.»
Continua mais adiante o Dr. Dias de Azevedo sobre o Dr. Gomes de
Araújo:
«(…) para o internamento, fiz prometer-me duas
coisas :
1.ª seria feito o estudo das faculdades mentais da doente, desejando
saber, por escrito, se elas estavam ou não normais;
2.ª a doente não seria obrigada a alimentar-se, a
não ser que a tal fosse persuadida, nem lhe seria injectado qualquer
medicamento, a não ser que ela concordasse.
Em duas palavras: queria que ficasse registado se
ela vivia sem se alimentar e se as suas faculdades mentais estavam
normais, estando ela internada qualquer tempo que fosse julgado
necessário, concordando o Sr. Dr. Gomes de Araújo com essas
condições.»
No
Boletim de Julho seguinte, prossegue o Dr. Dias de Azevedo:
«Não
será demais falar no trabalho que teve o Sr. Dr. Gomes de Araújo a
fim de investigar se de facto a Alexandrina vivia ou não sem a
mínima alimentação, a não ser a Sagrada Eucaristia, autêntica
purificação e fortaleza da Alexandrina, o que, sendo tudo,
infelizmente para muitos é pouco ou nada. Essa sua investigação é
tanto mais interessante quanto é certo que, a este respeito, o
distintíssimo medico que era o Sr. Dr. Gomes de Araújo partia da
impressão de que a Alexandrina seria uma doente que certamente
queria iludir os outros. Aqueles 40 dias de rigorosa investigação
foram um autêntico tormento mental para ele, disse-me uma vez a sua
saudosa esposa, que também já partiu para a eternidade a receber o
prémio das suas virtudes. (…)
Passados quinze dias, dizia-me o Sr. Dr. Gomes de
Araújo, já no seu consultório:
Na primeira linha da legenda desta antiga fotografia,
lia-se:
«Fachada do Refúgio da Paralisia Infantil, à Rua
Bela, na Foz do Douro». |
― Você chegou para mim, pois comprometi-me a não
forçá-la a alimentar-se e eu queria ver se ela podia ou não
alimentar-se.
― Mas então, Sr. Dr., quem foi o iludido, eu por ela
ou o Sr. Dr. por mim?
Nós não queremos saber se ela pode engolir ou não os
alimentos, e eu sei que pode; mas, passados momentos, vomita-os.
Fiz essa experiência durante meses, desde Março de
1942 até Maio deste ano. O que quero provar ao mundo é que ela vive
sem alimentação.»
Passemos agora ao boletim de Agosto:
« firmámos no boletim anterior ―
continua o Dr. Azevedo ― que aqueles 40 dias de
rigorosa observação foram um autêntico tormento mental para o
saudoso e distintíssimo médico que foi o Sr. Dr. Gomes de Araújo.
Parece-me que nessa ocasião ele estava convicto de que ninguém
tivesse passado qualquer temporada de abstinência total de sólidos e
de líquidos digna de referência e contra a normalidade das
exigências físico-químicas do nosso organismo.
Essas inédias, de que nos fala a hagiografia cristã,
eram pouco do seu conhecimento e convicção, partindo da normal lei
orgânica de que ninguém podia viver durante meses e anos sem
alimentação.
Ao estar na presença duma inédia que lhe
apresentávamos para estudo e averiguação, duvidou, como cientista,
da sua realidade objectiva, persuadido de que não teríamos tido todo
o cuidado para sermos iludidos. Era o caminho próprio e seguro que
um investigador tinha a seguir, e seguiu-o no seu inquérito e rigor,
sim, mas também com respeito e registo das consequências que iam
derivar do seu meticuloso estudo, não se deixando perturbar, nos
seus juízos sobre o caso, com as insinuações que alguém, nessa
ocasião do seu estudo, lhe fora fazer (…)»
Em
defesa da Alexandrina
A
oposição à Alexandrina chegou a tomar formas muito duras. Vimos já
que tudo começou com o artigo do Padre Terças, que tornou pública a
vivência da Paixão pela Beata. Esta carta escrita pelo pároco de
Chaves ao Arcebispo ajuda a compreender algumas condicionantes da
actuação da comissão nomeada por ele:
« Excelência
Rev.ma
Beijo respeitosamente o seu anel.
Achando-me em repouso aqui, no santuário do Sameiro,
um fulano autoriza-me a dizer-lhe que o caso de Balasar (uma certa
Alexandrina) não é senão uma torpe e indecente mistificação que é
conveniente extirpar quanto antes. É um caso verdadeiramente
monstruoso do qual deve desligar-se e sobretudo afastar o Padre
Pinho. Não posso dizer outra coisa.
Servo inútil.
Padre José Francisco Gonçalves Fraga, Pároco de
Chaves.
Sameiro, 30/7/1942.
Que poderia este pároco de tão longe saber de concreto sobre a
Alexandrina?
Que o terá levado a falar dela à autoridade eclesiástica em termos
de «torpe e indecente mistificação», de um «caso verdadeiramente
monstruoso»?
O Prof. Carlos Lima, da Universidade do Porto, que comprovou
o jejum de Alexandrina. |
Na
oposição ao carácter sobrenatural do que se passava com a «doente de
Balasar», destacava-se o jesuíta Padre A. Veloso, colega do Padre
Pinho, que defendia que tudo acontecia por sugestão deste. Como o
Cónego Molho de Faria, também ele acaso ouvira na Gregoriana as
lições do Padre Siwek sobre Teresa Neumann. Como ele, generalizava
sem análise.
E
veja-se agora esta intervenção do Padre A. Veloso, aquando da ida de
Alexandrina para o Refúgio de Paralisia Infantil para exame. Conta o
Dr. Dias de Azevedo em carta ao Padre Pinho:
« Antes de ter (de
redigir) o relatório, o Dr. Araújo
foi abordado pelo Padre A. Veloso (tão digno de crédito que foi
proibido de pregar nas dioceses de Lamego e do Porto), que disse
para se não comprometer porque a doente de Balasar é uma impostora;
para estar atento porque se trata de uma mistificação e que eu sou
um fanático. Soube a coisa... mas pelo que me diz respeito
perdoo-lhe e não quero que sofra com isso: peço-lho de joelhos.
Quanto às afirmações acerca da doente, é preciso que o fulano esteja
atento... porque há parentes de tal força que se viessem a saber da
calúnia quebravam-lhe as costelas.»
(23/08/1943)
Poderá parecer que estas actuações tão lamentáveis merecem apenas o
silêncio. Mas a história também se faz com tais baixezas e com elas
se fez o sofrimento da Alexandrina. Além disso, elas explicam a
firme reacção do Dr. Dias de Azevedo a uma frase dum escrito do
Padre A. Veloso na Brotéria. A resposta do Dr. Dias de
Azevedo saiu no Comércio do Porto. Sem este contexto não faz
sentido.
Está-se já em Janeiro de 1947. O artigo do Padre A. Veloso
intitulava-se «Mística e jornalismo» e alongava-se por 15 páginas.
Começava assim:
«A psicose do maravilhoso vem de longe. E uma
tentação mais ou menos cíclica, principalmente em tempos anormais,
quando a vida, na palavra justa de Vauvenargues, mais se vence do
que se vive. Pode haver outras razões, mas esta é, parece-nos, uma
das mais influentes nesse curioso fenómeno, de que o nosso tempo nos
tem dado abundantíssima matéria de observação e estudo.
Só dos últimos anos, lembram-nos os casos típicos do
Barral, da Madre Virgínia (no Funchal), e das visionárias de Lamego,
da Correlhã, da Vergada, de Pereira de Avidagos, de Balasar, do
Pinheiro, de Baião, de Oriz e, ultimamente, a de Vilar Chão. E
certamente que o rol não fica por aqui. Estes casos, porém,
tornaram-se mais conhecidos, não porque valham mais que os outros,
mas porque a imprensa periódica, tomando-os à sua conta, lhes deu,
com razão ou sem ela, uma notoriedade que, de outro modo, nunca
chegariam a ter.»
O
Dr. Dias de Azevedo riposta: o Padre A. Veloso não era especialista
no tema; os médicos tinham dado o seu veredicto e ele não o
respeitava; havia o testemunho do insuspeito e categorizado Cónego
Vilar. Por isso concluía que o Padre A. Veloso devia ser impedido de
voltar a escrever na Brotéria.
Este médico tinha muitas e boas razões para defender a Alexandrina.
Ela não era impostora, o seu apego à verdade e a sua humildade eram
totais, o seu bom-senso não admitia dúvidas, o carácter sobrenatural
do que com ela se passava impunha-se por si a quem a acompanhava de
perto.
30
de Junho de 1953
Esta data há-de ter ficado bem marcada na vida do Dr. Dias de
Azevedo, mesmo que tão pouco se fale dela. A afluência à casa da
Alexandrina vinha a atingir números inacreditáveis: no dia anterior,
ela recebera cerca de 15.000 pessoas!
Seria razoável manter a situação? É sabido que o Sr. Arcebispo não a
via com bons olhos e agora outras vozes se levantavam contra. O
Jornal de Notícias foi sem dúvida a que mais alto falou. É nas
suas páginas que o Dr. Dias de Azevedo faz escrever em Setembro:
«Quem primeiro trocou impressões com a Família da
Doentinha, sobre a inconveniência das numerosas visitas que há dias
lhe estavam fazendo e quem aconselhou a sua completa supressão, e
disso há testemunhas, foi o tal “médico e teólogo”, que está ditando
estas linhas. ... As visitas terminaram no dia 30 de Junho».
Mas há-de ter sido uma decisão difícil. Não era por puro milagre que
a Alexandrina conseguia tirar forças da sua extrema fraqueza para
receber as visitas que Jesus lhe enviava ― pois
que era Ele que as enviava, como se lê nos êxtases?
Mas certamente o objectivo tinha sido atingido e o mesmo Jesus,
indirectamente, aprova a decisão, pois se lê no êxtase de 4 de
Julho:
«Diz ao teu médico que lhe recomendo coragem,
coragem, coragem!
Diz-lhe que sou infalível, diz-lhe que estou com
ele, diz-lhe que velo por ele e por todos os que são dele.
Velo por ele e ele vela pelo que é meu. Protejo-o e
ampara-o e ele protege e ampara a minha causa, a minha maior causa.»
A
polémica do «Jornal do Médico»
O
Dr. Joaquim Pacheco Neves (Vila do Conde, 1910 – Porto, Hospital de
S. João, 1998) foi um polígrafo considerável. Em 8/8/953, publicou
no «Jornal do Médico», como editorial, um artigo algo
desprestigiante para a Alexandrina, sob o título de «Um caso
estranho».
Este
Verão de 1953 estava aliás a ser quente. Já haviam escrito sobre a
Alexandrina O Gaiato, o Diário do Norte e o Jornal
de Notícias e ainda um jornal de V. N. de Famalicão. O Dr. Dias
de Azevedo, que publicara três artigos no Diário do Norte,
acaba por levar a tribunal o Jornal de Notícias, que falava
do Caso de Balasar com certa hostilidade.
A afluência a Casa da Alexandrina nunca tinha sido tão grande. Jesus
dissera-lhe : «Estás a viver a minha vida pública».
Como o articulista do Jornal de Notícias, também o Dr.
Joaquim Pacheco Neves se mostrava respeitoso para a Alexandrina;
como ele, dizia impropérios sobre os visitantes.
A
resposta do Dr. Dias de Azevedo não se fez esperar. Tendo o Dr.
Joaquim Pacheco Neves replicado, o Dr. Dias de Azevedo respondeu-lhe
de novo. E ainda acrescentou um terceiro artigo.
Dr. Joaquim Pacheco Neves |
Veja-se a parte mais significativa do escrito inicial do Dr. Joaquim
Pacheco Neves, onde há pormenores interessantes:
«A quilómetros da vilazinha onde eu moro, vive uma
pobre mulher a quem a doença inutilizou e reduziu à quase expressão
de dois olhos negros e buliçosos. Uma queda aos quinze anos
fracturou-lhe a coluna e deu origem a uma paralisia que a imobilizou
numa cama donde começou a dar um exemplo edificante de resignação e
paciência. Se a visitavam e lhe diziam uma palavra de lamento, ela
encolhia os ombros magros, esboçava um sorriso resignado e dizia-se
conformada com o seu sofrimento e destino.
Assim se passaram dez, quinze, trinta anos sem que a
frescura do seu rosto murchasse ou a vivacidade do seu espírito
ensombrecesse. Sempre com um sorriso alegre a iluminar a tristeza do
seu olhar calmo e uma palavra de consolo a desprender-se dos seus
lábios descorados, ela mostrava uma resignação e paciência que
começou a criar na vizinhança um sentimento de veneração que aos
poucos transbordou para as aldeias mais próximas. E começou a chegar
gente para a ver. Outra vinha para a ouvir. O recorte suave do seu
rosto pálido, a expressão doce dos seus olhos tristes, a
transparência azulínea das suas mãos delicadas, o tom penetrante da
sua voz lenta e a comunicabilidade da sua palavra consoladora,
criaram no espírito daquela gente simples uma ideia de
sobrenaturalidade, de um ser à parte mantido na vida por um desígnio
superior ao seu entendimento que a maravilhava. Os que vinham para
pedir, rezavam com ela. Ela também nada dizia que não fossem simples
palavras de conforto ou piedosas orações. As mezinhas misteriosas,
os sinais cabalísticos, os passes magnéticos, desconhecia-os.
Aconselhava apenas resignação, dizia palavras de esperança,
consolava as almas desesperadas. Mas o sentimento que as ditava, a
dor alheia que tomava para si, tantas vezes, as lágrimas que chorava
por amor do próximo, eram de molde a erguer um altar de fé nas almas
que dela se aproximavam e a criar uma legenda de santidade junto dos
que ela acolhia.
Assim se dilatou o conhecimento desta pobre mulher
que, por muito se dar, muito se esquecia de si. O sou nome começou a
andar de boca em boca e ultrapassou as raias fronteiriças. Dos
recantos mais longínquos do país vieram excursões de curiosos. De
Espanha veio também gente para a ver. Junto da sua humilde casa
organizavam-se peregrinações a que só a Igreja era estranha. Os que
sofriam e esperavam, tinham fé no poder magnífico das suas palavras
e no valor das suas orações. Sentiam-se reconfortados na sua
presença e aceitavam a sua intervenção como a expressão maravilhosa
dum prodígio extra terreno, cujo entendimento estava fora do alcance
da compreensão humana.
E a legenda de santidade foi firmando raízes.
Falava-se de milagres: cegos que viam, paralíticos que andavam,
curas extraordinárias que se obtinham, numa revoada de esperanças
que alargava por longe a fama do seu nome. Dela se dizia que não se
alimentava, como se a vida orgânica já tivesse chegado ao sou termo
e a sua existência só se mostrasse pela chama brilhante que luzia no
seu espírito. E vieram médicos para a ver, atraídos pela nomeada
extraordinária da sua fama.
A mistificação podia ocultar-se por detrás do
temperamento neurótico, impressionável e impressionador, destes que
quase suspendem a vida vegetativa quando a força de vontade
determina. E propuseram-lhe o internamento numa Casa de Saúde, que
ela aceitou. E vigiaram-na durante largas semanas sem descobrirem
qualquer fraude. O único alimento que ela não dispensava era o
Sagrado Viático que ela recebia com humildade e unção cristãs. Os
seus lábios em nada mais tocavam. As observações dos médicos
chegaram por fim a termo e ela regressou de novo à sua pobre casa da
aldeia. Vinha como fora, com a mesma resignação, a mesma bondade, a
mesma compreensão pelo sofrimento alheio. Não se sabia qual o
parecer dos médicos. Mas o povo, com a sua imaginação prodigiosa e a
sua tendência para o maravilhoso, continuou a ungi-la com a sua fé e
a procurá-la com a sua devoção, como se não tivesse quaisquer
dúvidas sobre a missão que lhe fora confiada na terra e soubesse, de
fonte certa, que ela era um elo de ligação entre a humanidade que
sofre e o infinito poder de Deus.
Este caso estranho, que agitou o Norte do país e
movimentou muitos milhares de pessoas, merece um comentário ligeiro
à margem de paixões que, como é de costume, acompanham sempre os
eventos que saem da linha do comum.
Trata-se, na verdade, duma pobre mulher de espírito
simples e desinteressado, sublimado por virtudes que se originam,
talvez, na própria doença. Salvo os prolongados jejuns, que aliás se
vêem de quando em quando anunciados nos jornais como curiosidade de
indivíduos dados a certas práticas abstencionistas, a resignação, o
sofrimento, a paciência, a compreensão, a tolerância e a bondade, se
não são atributos comuns, não são tão excepcionais que não se
mostrem em milhares de pessoas sem que felizmente surja qualquer
acontecimento que lhes dê notoriedade. A própria formação religiosa
não ultrapassa a linha vulgar — não é uma mística com arrebatamentos
e transportes que deixem perceber uma psiconeurose, nem uma beata
que se esconda por detrás da sua hipocrisia. As condições de
excepção são outras e vivem mais do desinteresse que ela mostra
pelos bens do mundo que a podiam enriquecer do que da fama que lhe
criaram sem outro proveito que não seja o de aumentar-lhe o
sofrimento.»
Leia-se agora a resposta que o Dr. Dias de Azevedo deu ao seu
colega, em 19/9/953, sob o título de «Respeitosas referências a “Um
caso estranho”»:
«Lemos há dias o artigo do Senhor Dr. Pacheco Neves,
“Um caso estranho”, publicado no Jornal do Médico. Fora-nos
anunciado como um artigo que humilhava aqueles que estão confiantes
na grandeza deste Caso. Afinal, não é bem assim. Literariamente,
parece estar bem feito e até, ao findar a sua leitura, nos veio à
memória, mantidas as devidas proporções, a “Vida de Jesus”, de
Ernesto Renan. Este artista literário quis amortalhar no lençol de
púrpura do seu estilo feiticeiro a divindade de Jesus, e o nosso
colega, se isso lhe fosse possível, amortalhará no seu belo estilo
aquilo que há de invulgar e extraordinário no Caso de que falou.
Tê-lo-ia conseguido? Parece que não. Um dia Felix Leseur, medico
ateu, amigo íntimo do sábio Le Dantec, quis amortecer as crenças
católicas de sua esposa, a extraordinária mulher que foi Elisabeth
Leseur, e por isso, entre os livros cuja leitura lhe aconselhou,
dois deles foram a “História das Origens do Cristianismo” e a “Vida
do Jesus”, do Renan. O resultado da sua leitura, porém, foi
contraproducente. Elisabeth, inteligente como era, não se deixou
fascinar pelo brilhantismo da forma literária desses livros e ficou
surpreendida pela pobreza do seu fundo. Lendo atentamente o artigo
do nosso Colega, vemos bem que as roupagens literárias com que o
revestiu são aliciantes, mas, afinal, não conseguiram o fim em
vista.
Falta de talento, falta de sinceridade, talvez nada
disso; simplesmente, dificuldade e grandeza do assunto a demolir. E
senão vejamos. Percorramos o artigo a fugir, notando também uma ou
outra inexactidão mais importante; e da existência delas não haja
surpresa, porque dizem não haver bela sem senão. Essa mulher, pobre,
porque assim o quer, dos bens terrenos, mas rica dos bens celestes,
embora emaciada, ainda não esta assim reduzida a “uma quase
expressão de dois olhos negros e buliçosos”.
Nem oito nem oitenta, Colega; nem tem a coluna
fracturada. Dizem (Dr. Roberto de Carvalho e outros) ter uma
mielite. Mas mais ou menos mielite, mais ou menos polinevrite, não é
isso que nos traz justificadamente apreensivos. Há, por aí, muitas
mielites e polinevrites e nada disso é fora do vulgar. Mas “o
exemplo edificante de resignação e paciência, o sorriso resignado”
para os visitantes, e dizer-se “conformada com o seu sofrimento e
destino”, esses “dez, quinze, trinta anos sem que a frescura do seu
rosto murche ou a vivacidade do seu espírito ensombrecesse, sempre
com o seu sorriso alegre a alumiar-lhe o olhar calmo”, toda essa
resignação e calma que chegou “a criar na vizinhança um sentimento
de veneração, que transborda para as aldeias mais próximas” e
afastadas, e para o estrangeiro, tudo isso que o Colega regista, que
significa e denuncia? Qual a causa de efeitos tão belos? Que nevrose
ou psiconevrose ou doença mental, referidas na Neurologia e
Psiquiatria, se coaduna com o estado orgânico, psíquico e moral a
que se está referindo no seu artigo? Se queremos fazer ciência,
temos de explicar os efeitos por causas proporcionadas. Como se
chama a árvore que dá frutos tão belos ? Essas qualidades morais,
evidentes na nossa heroína, constantes e nunca desmentidas, serão
vulgares? Essa sua heroicidade de virtudes não será caminho aberto
para coisas superiores e transcendentes? Os factos tão persistentes,
tão coerentes, tão belos e radiosos, sob o ponto de vista moral, e
que aponta nessa doente deixam-nos perplexos, não nos permitindo
dar-lhes uma explicação natural. Mas o Colega continua o seu
fraseado belo, cujo resultado será aumentar o número de visitantes,
que provocarão as iras de gansos que grasnem no Capitólio, talvez
devido ao medo de Deus, sofrendo o médico assistente e a família da
doente as respectivas alfinetadas e consequências. E essa doente
nada diz “que não fossem palavras de conforto ou piedosas orações;
nada de mezinhas misteriosas, sinais cabalísticos, e só palavras de
esperança a consolar almas desesperadas”. E a fama desta doente,
“que por muito se dar, muito se esquecia de si”, passou as
fronteiras, mostrando, talvez, que estamos todos alucinados, não é
assim? Que poderá a Neurologia ou a Psiquiatria dizer sobre isto?
Sempre além, deixando as circunstâncias secundárias
para o caso de que fala, e de que ninguém tem culpa, para nos
interessarmos do essencial, do importante caso: vieram os médicos, e
a doente foi internada numa Casa de Saúde, em que foi vigiada, de
dia e de noite, sucessivamente por três grupos de duas Senhoras,
havendo o cuidado de escolher algumas descrentes em Religião. Esteve
internada durante 40 dias e, nesses dias, foi constatado que não
bebeu uma gota de água nem houve a menor excreção. Onde se registou
um caso natural destes, Colega? O seu peso manteve-se constante, as
suas tensões normais, o seu sangue, analisado à quarta semana de
internamento, era normal nos seus elementos constitutivos e de
desassimilação, a sua vida intelectual era sujeita a rigorosos
interrogatórios e finalmente foi dito que a Medicina não explicava
este caso por modo natural.
Mais e a propósito: o argumento único que convenceu
a doente a deixar-se internar foi eu dizer-lhe que a Autoridade
eclesiástica assim o desejava. Tudo tem, já se vê, a sua
significação, o seu valor para o julgamento de Caso.
Enquanto ao jejum ou abstinência dessa doente, o
Colega está enganado, ao dizer que esse jejum se vê, de quando em
quando, anunciado nos Jornais. A abstinência alimentar dessa doente
data de 1942, é quase absoluta, porque só bebe, de longe a longe,
umas colherinhas de água simples, mas simples. Em 1942, fizemos
várias experiências, dando-lhe água açucarada ou com qualquer água
mineral ou coisa idêntica, mas tudo isso era logo vomitado. Desde
então, nada tomou a não ser a tal água simples.
Onde
se vêem esses jejuns, a não ser em Tereza Neumann, de Konnersreuth,
ou no Padre Pio, em Itália? A Fisiologia e a Patologia ensinam-nos
que o homem não pode sobreviver a uma abstinência de sólidos e
líquidos, prolongada por semanas. Sabemos que o Lord Cork, recusando
alimentar-se, em protesto contra a dominação inglesa sobre a
Irlanda, e tomando somente líquidos, durou dois meses e meio. O
bandido Granié, bebendo água e não querendo alimentar-se, durou 63
dias. Gandhi fazia os seus jejuns, mas tomava água e vitaminas, e
sabemos bem o que lhe acontecia em poucos meses de jejum. Os
faquires fazem os seus jejuns, que não são totais, e por pouco
tempo. Os que sofrem de anorexia mental não se privam da alimentação
total, e todavia conhecemos bem o seu estado psíquico, o seu
emagrecimento e, se não arrepiam caminho, depressa caem no túmulo.
Mas então não haverá pessoas que vivam num jejum
perpétuo ? Há sim. Essa doente de que estamos falando, o
Padre Pio na Itália e Tereza Neumann, a mística de Konnersreuth.
Pelo que nos dizem o Dr. Imbert Goubeyre e o Dr. Henri Bon, que são
autoridades destes assuntos, conhecemos vários místicos que viveram
numa inédia bem constatada e naturalmente inexplicável: Ângela
Foligno, que viveu dois anos, sem tomar qualquer alimento, S.ta
Catarina de Sena, 8 anos, Isabel de Reuth, 12 anos; Catarina
Emmerich, nos últimos 12 anos de vida, só tomava água fresca simples
e a Sagrada Comunhão; Nicolau von der Flue, passou 20 anos sem comer
nem beber, e apresentava-se sempre bem disposto e robusto; Dominica
del Paraiso, 20 anos; Santa Ludovina de Schiedman, 28 anos; etc.,
etc.
Tereza Neumann, de Konnersreuth,
estigmatizada alemã, cuja causa está a decorrer em Roma. |
O verdadeiro alimento destes místicos era a Sagrada
Comunhão. Autoridades Civis e Eclesiásticas constaram, por vezes,
essa abstinência de alimentos com o maior rigor. Quem não sabe o que
se tem passado com Tereza Neumann, no nosso tempo? Quem explica,
naturalmente, a possibilidade e facto da rea1ização de tais inédias,
de tais abstinências alimentares? Pelo contrário, que sabemos nós da
parcial abstinência alimentar dos anoréxicos mentais? Sabemos que,
apesar dos seus metabolismos descerem muito, e das suas combustões
internas serem reduzidas, e de tomarem alguma quantidade de
alimentos, o falecimento desses anoréxicos mentais sobrevém, nos
casos rebeldes ou sem tratamento, em poucos meses. E não nos falem,
nestes casos, em letargia própria dos animais hibernantes, pois
trata-se, por vezes, de pessoas de vida normal e até muito
activa. Não nos falem também em assimilação das radiações solares.
O dever da ciência é “estudar os factos e
indagar-lhes a causa, qualquer que ela possa ser”. Claro que podemos
tentar dar uma explicação desses jejuns, mas é preciso que ela seja
razoável. E diz o Dr. Henri Bon que “quando se trata de fenómenos
comuns a duas disciplinas intelectuais, ou a duas ciências, a
conclusão definitiva não se obtém sem que os dois métodos confiram
juntamente os resultados. E nos fenómenos médico-religiosos é à
Teologia que pertence evidentemente a última palavra. Em matéria
religiosa, a leviandade é inadmissível”. Esses jejuns não querem
dizer, só por si, santidade. Num e noutro jejum, até poderá haver
intervenção diabólica. É certo que o que faz os Santos não são estes
jejuns nem estas abstinências alimentares. Mas, regra geral, estas
absolutas abstinências alimentares, prolongadas, são gritos
clamorosos a anunciar-nos que há um Ente Supremo e Providente, que
nem tudo acaba com a morte, e que são do Céu as Mensagens, que
alguns desses abstinentes nos anunciam. Nessas inédias sensacionais,
aliadas a outros fenómenos místicos extraordinários, embora a
Medicina e a Psicologia devam ser ouvidas, a última e decisiva
palavra pertence à Mística, pertence à Igreja. O nosso caso um
destes.
Como vê, Colega, não poderá dizer-se que casos como
este “não faltam por esse mundo fora” e não basta “vê-los apenas
pelo seu aspecto humano”, se os quisermos explicar.
Concluindo agora: a princípio, comparei o estilo do
Colega ao fraseado sedutor de Renan. Quero terminar os meus dizeres,
recordando o fim deste brilhante escritor francês, no meio literário
e científico em que por tempo pontificou. Nessa Academia Francesa, o
seu sucessor Challemel Lacour provou no seu discurso de recepção, em
que era costume fazer-se o elogio do antecessor, que a ciência de
Renan não era científica e que a filosofia deste filósofo não era
séria.
É sabido que Renan tinha recebido dum banqueiro
judeu um milhão de francos para escrever as blasfémias que escreveu
contra a Divindade de Jesus. A Bossier, encarregado de responder a
Challemel (querendo atenuar o golpe dado em Renan), só foi possível
dizer que Renan era um “sonhador”.
No seu leito de morte, às seis horas da manhã de 2
de Outubro do 1892, um domingo, Renan morria a rezar, a dizer:
“Tende compaixão do mim, meu Deus, tende compaixão de mim”. Por fim,
o Colega desculpar-me-á o dizer que o seu artigo, literariamente bem
escrito, é inofensivo contra o maravilhoso e extraordinário do caso
de que fala. Sendo os frutos bons, óptimos e raros, boa, óptima e
rara devera ser a árvore que os dá. Isto também é ver as coisas
“pelo seu lado humano”.
Ribeirão, 31 de Agosto de 1953.
Dias de Azevedo.»
A
cura da esposa do Dr. Dias de Azevedo
No
Figlia del dolore, madre di amore, os Signorile introduzem assim
o relato deste episódio:
«Tenha-se
presente que Alexandrina, tendo ficado sem a ajuda espiritual do
Padre Humberto, tem como único apoio o Dr. Dias de Azevedo, que
desde 1941 é amigo da família bem como todos os seus; vimos que um
dos filhos teve Alexandrina como madrinha de baptismo; além disso a
filha Irene, doutora em medicina, passa muitas vezes alguns dias
hospedada em casa da Alexandrina, da qual escreve até alguns
ditados.
Em
Dezembro de 1948 a mulher do Dr. Dias de Azevedo adoece muito
gravemente.»
Ouça-se
agora a Alexandrina:
«Entrou
no meu quarto o filho extremoso do meu médico a dar-me a notícia de
que sua mãezinha se encontrava às portas da morte. Não sei como
fiquei!
Com a
lâmpada e velas acesas, todos os que estavam ajoelharam.
Ofereci
a Nosso Senhor o meu corpo e a minha alma como vítima da enferma;
pus todo o Céu em movimento.
Nos
intervalos em que me respondiam às orações, eu dizia (intimamente) a
Nosso Senhor:
Deixai-a, deixai-a, Jesus, para acabar de criar os seus filhinhos;
provai-me agora o amor que me tendes!
― Sossega,
minha filha, não morre, não morre; confia em mim, eu te afirmo, eu
te afirmo: não te nego o que me pedes ; confia no amor
misericordioso do meu divino Coração. Sou eu, Jesus, a afirmar-te, a
prometer-te. Prova agora a tua confiança.»
A
Alexandrina entra entretanto numa longa luta com o demónio que lhe
afirma ser fruto da sua imaginação a afirmação que ouviu de Jesus.
«Quando
o demónio me repetiu as suas mentiras ― continua ― eu
repetia com o coração:
Sagrado
Coração de Jesus, eu tenho confiança em vós!
Enquanto possuía a luz, parecia-me ter em mim duas vidas: o meu
espírito estava mergulhado, muito unido à dor e tristeza dos entes
queridos da doente, e a alma entoava, ao mesmo tempo, hinos
jubilosos ao bom Jesus. Não sei como podia sofrer tanto e a alma tão
forte cantar ao mesmo tempo....
Era já
noite
(do dia
seguinte),
muito
de noite, e soube que realmente estava melhor. Não sabia como
agradecer a todo o Céu!»
Morrerá
somente em 21 de Fevereiro de 1986.
O
crucifixo da Alexandrina
Veja-se agora estoutra intervenção do Dr. Dias de Azevedo onde é
notório o real ascendente que sobre ela possuía. Estamos em Junho de
1950; conta a Alexandrina:
« Há cerca de uns 15 dias, durante a noite, um
crucifixo que tenho pendurado no muro na parede ao lado apareceu-me
na cama ao pé de mim: fiquei maravilhada, mas foi coisa dum momento,
que depois esqueci; não disse nada sobre isso.
Desde há anos costumava ter ao meu lado e sobretudo
de noite entre os meus braços um crucifixo. Tendo recebido um de
presente (do Padre Pinho), fiz retirar o que tinha e fiquei com o
novo comigo.
Alguns meses depois, dei-o eu e pedi para me
devolverem o que tinha mandado retirar. Esqueceram-se de mo dar e eu
fiquei sem ele alguns dias, não por meu esquecimento, mas para não
importunar os meus.
Foi neste período que apareceu ao meu lado o
crucifixo que estava pendurado na parece.
Na noite de segunda para terça, o crucifixo da
parede reapareceu-me sobre o peito, entre os braços, sob as mantas,
como se fosse posto ali. Fiquei impressionada: parecia-me sonhar.
Falei disso com toda a naturalidade, mas sem fazer menção nos
escritos. Fui depois obrigada (pelo Dr. Dias de Azevedo) a descrever
o acontecido e, para maior tormento, a pedir a Jesus o significado.
Fá-lo-ei com verdadeira repugnância: é a minha cruz. Jesus me
perdoe: eis a minha virtude: quanto estou longe da perfeição!»
***
«Ó Jesus, aceitai o meu sacrifício: queira-o ou não,
devo obedecer e perguntar-Vos o significado da vinda da Vossa imagem
crucificada sobre o meu peito.
Jesus sorriu docemente…:
― Quero que me fales sem temor e com toda a
simplicidade… O motivo que Me levou a desprender-me do muro e a vir
a ti é muito simples: o crucifixo deve estar sempre unido à
crucificada.» (16/6/1950)
Repare-se na autoridade que, na ausência dos directores espirituais,
o Dr. Dias de Azevedo assume.
Ele era certamente um homem bom, mas também um homem desinibido, sem
temores injustificados. Veja-se o que segue, agora pela pena do
próprio:
«Por vezes, via-a (a
Alexandrina) com dores quase
insuportáveis; e, para que elas diminuíssem, obrigava-a pedir a Deus
ou à Virgem Santíssima a diminuição dessas dores, por algum tempo,
e, coisa curiosa, era sempre ouvida, embora muitas vezes ela fizesse
esses pedidos contrariada, pois dizia-me que era preciso haver quem
sofresse em reparação dos pecados do mundo. Sorrindo, respondia-lhe
que dissesse a Jesus que o corpo dela não era bigorna de ferreiro.»
Leia-se ainda este extracto dum dos colóquios dos primeiros sábados,
onde tantas vezes se fazem exortações e elogios ao Dr. Dias de
Azevedo:
«Diz, diz ao teu médico que o tenho no meu Divino
Coração, como jóia do mais elevado valor.
Diz-lhe que o amo tanto, tanto que as cadeias do meu
amor o prendem, dia a dia, mais e mais a mim.
Diz-lhe que o cadinho da dor é para purificar a sua
alma ; que é o cadinho que purifica o ouro das suas virtudes.
Diz-lhe que tudo quanto faço nele e no seu formoso
jardim são provas de amor e predilecção, são cuidados inauditos do
Jardineiro divino.
Eu não quero, eu não quero, atenção, que nenhuma das
suas florinhas se perca, que nenhuma se manche.
Dá-lhe todo o meu amor divino.
Diz-lhe que com ele se fortaleça, para com ele, como
sempre, cuidar e defender a Minha causa divina.»
(1/11/52)
Alexandrina ligada e estendida sobre duras tábuas
Depois da passagem da Alexandrina pelo Refúgio de Paralisia
Infantil, a actuação do Dr. Dias de Azevedo assume junto dela uma
visibilidade menor, a não ser quando a tem de defender nos meios de
comunicação. Veja-se porém a intervenção seguinte:
Por
fins de Setembro de 1946 as articulações dos braços e das vértebras
da Alexandrina desconjuntaram-se. O Dr. Dias de Azevedo decide
intervir: prepara dois ganchos em forma de « s » alongado que
segura à cabeceira da cama; enfaixa apertadamente os braços de
Alexandrina e prende-os sobre os ganchos de modo que a suportem
passando sob as axilas. Além disso, manda pôr duras tábuas sob o
colchão e enfaixa-lhe todo o corpo.
Alexandrina ligada e sobre tábuas (1952). |
Alexandrina ficará assim até à morte.
No
diário de 4 de Outubro de 1946, conta ela:
«Este dia de aniversário
(da primeira crucifixão, 3 Outubro de 1938),
sem nisso reflectir nem nada combinar, ficou também a ser a data em
que o meu pobre corpo, ligado, ficou sobre umas duras tábuas. Mas
apesar disso fiquei sedenta de mais e mais dor, mais e mais amor.
O meu caridoso médico disse-me algumas palavras de
conforto, depois de me preparar o meu duro leito. Agradeci de alma e
coração. Mas essas palavras passaram ao longe, pareceu-me não serem
dirigidas a mim.»
Este leito torna-se-lhe um leito de espinhos, uma cruz. A partir
desta data, ela não aparece deitada na cama normalmente, mas um
pouco erguida, entre deitada e sentada.
No
diário de 10 Julho de 1949 dita:
«O meu corpo está todo trespassado pelo leito de
espinhos. Não é só o corpo ferido por eles, é também a alma e todos
os sentidos.
A roupa que visto e cubro são como que chuva
miudinha de espinhos penetrantes que se cingem a mim. Prendem-me de
tal forma que não posso ser movida para um lado ou outro sem sentir
como que se me rasgassem as carnes, desfizessem os ossos e todo o
meu espírito.
Sofre a alma, sofre o corpo, tudo por Vós, meu
Jesus.
A minha natureza sente pavor, tenta revoltar-se
contra tudo, contra todas as visitas. Se pode haver coisa pior do
que pavor, é o que eu sinto.»
APÊNDICE DOCUMENTAL
Carta ao Sr. Arcebispo (2/8/44)
O
Dr. Dias de Azevedo escreveu muitas cartas respeitantes à
Alexandrina ou mesmo a defendê-la. A que se segue data de Agosto de
1944, quando o Padre Humberto viera já a Balasar, mas ainda não
assumira a direcção espiritual. Trata-se dum importante documento
pela clareza da argumentação usada na defesa da Alexandrina. Além
disso, o original encontra-se no arquivo de Balasar :
«Exmo.
e Revmo. Senhor Arcebispo Primaz
Recebi o amável cartão de V. Exa. Rev.ma,
acompanhado do parecer duma comissão e dumas determinações,
relativas ao caso, há muito falado, de Balasar. No fim de ler tudo o
que me era dito, senti o dever de dizer a V. Exa. Rev.ma, com o
maior respeito e com a maior franqueza, umas cinco palavras:
Página da carta ao Arcebispo |
1.ª Palavra: guardarei sempre em meu coração as
palavras amáveis do cartão do Senhor Arcebispo Primaz,
agradecendo-lhas, muito penhorado;
2.ª Palavra: procurarei ter a maior prudência, ao
ser provocado a falar ou escrever da Alexandrina e sempre recordarei
as determinações de V. Ex.cia Rev.ma, para lhes ser obediente, na
medida do possível, salva a liberdade para responder a qualquer
crítica referente ao caso, saída em qualquer jornal ou revista de
responsabilidade, pois não posso nem quero menosprezar o meu brio
profissional;
3.ª Palavra: continuarei inabalável, até que a razão
ou o bom-senso me aconselhem atitude diferente, no mesmo posto de
observação, prudência, investigação clínica e admiração pela
Alexandrina, verdadeira mártir, que o tempo e Deus plena e
brilhantemente justificarão;
4.ª Palavra: servindo-me da ideia do Prof. da
Faculdade de Medicina do Porto, Senhor Dr. Mazano, que, falando
sobre este caso, e mostrando-se muito interessado por ele, disse
«não há explicação possível para já não comer há dois anos», eu
continuo, como médico, sem receio de ser confundido, a afirmar que
este caso é extraordinário, porque a Ciência diz que uma mulher de
39 anos, de vida intelectual e afectiva intensas, de faculdades e
sentidos normais, passando alguns dias e noites sem dormir, e
dormindo pouco durante o outro tempo, conservando invariavelmente ou
com pequena variação o mesmo peso, conservando ainda o sangue normal
nos seus elementos constitutivos ou de desassimilação, vivendo não
somente quarenta dias completos e consecutivos (sob vigilância, de
dia e de noite, feita por algumas pessoas descrentes), mas dois anos
e três meses, aquele primeiro período em abstinência absoluta de
alimentos sólidos e líquidos, incluindo a simples água, e o outro
período em abstinência absoluta de substâncias alimentares,
simplesmente bebendo, um ou outro dia, por imposição médica, uma ou
outra colherinha de água simples, com o fim de diminuir a secura que
em sua boca por vezes sente, constitui um facto verdadeiramente
extraordinário, não sendo preciso, para esta classificação, que os
médicos tenham de pedir licença aos filósofos ou teólogos para digna
e justamente a fazerem. A quem me disser que há um parecer de
filósofos e teólogos que, invadindo campo defeso, significa não ser
extraordinário este facto (que maravilhou um especialista de
Neurologia não crente em vários dogmas católicos, a ponto de
anunciar que devemos ficar «suspensos, aguardando que uma explicação
clara faça a necessária luz», pois a observação da Alexandrina tinha
podido «ser segura, firme, incontestável, só deixando dúvidas aos
que têm o hábito de duvidar … de si próprios»), eu responderei que
quem tiver lido a História e a biografia de algumas criaturas
extraordinárias sabe bem o valor dos pareceres de uma ou outra
comissão. A Igreja só quer a verdade e eu amo uma e outra.
5.ª Palavra: a Comissão, lendo isto, há-de julgar
que esta prosa é um pouco enfadonha e estranha a amantes da
filosofia e teologia, e eu, para a suavizar, peço licença para citar
as palavras do Padre Louis Capalle, S.J., em « Les âmes
généreuses », pág. 165 e seg.:
“La vérité
théologique et expérimentale est que Dieu n’a pas donné aux âmes une
résistance illimitée, et qu’Il a laissé aux directeurs ou supérieurs
imprudents la puissance redoutable d’entraver ou même de ruiner
l’œuvre magnifique qu’Il se proposait d’accomplir. Nier cette vérité
ou même chercher à l’atténuer par sophismes spécieux, serait
atteindre par le fait même la notion de responsabilité, fondement
essentiel de toute morale.”
E, depois de mais frases muito interessantes, diz
ainda:
“Malheureusement, après une réponse évident, on en veut souvent une
plus évident encore ; et ainsi on oublie que Dieu, souverainement
indépendant, ne se plie pas toujours aux exigences de ses créatures.
Il donne assez de lumières pour que l’on puisse raisonnablement
conclure à son intervention, et Il laisse assez de ténèbres pour que
l’on ait le mérite d’une humble soumission.”
Todas estas frases podem resumir-se em poucas: as
determinações de V. Ex.cia, no geral, são justas, embora o tempo não
venha a justificar algumas palavras como «pretensos», e o parecer da
Comissão, enquanto ao facto, é exorbitante, negando-lhe a qualidade
de extraordinário e dando lugar até a juízos temerários, o que não
fica bem a filósofos e muito menos a teólogos. Termino esta, fazendo
votos pela preciosa vida de V. Ex.cia Rev.ma e pedindo que esta
carta seja anexa ao supra mencionado parecer da referida Comissão
(ou ao relatório do médicos) que se pronunciou sobre a grande mártir
que é a Alexandrina de Balasar, a quem o Mons. Vilar chamava sua
“protectora”, a sua “colaboradora providencial”, a sua “cooperadora
mais fiel que Jesus lhe deu”. E esse valia uma Comissão.
Beijo as mãos sagradas de V. Ex.cia Rev.ma.
Manuel Augusto Dias de Azevedo
Ribeirão, 2 de Agosto de 1944.»
Um
discurso
Em
1956, houve em Balasar uma singela homenagem à Alexandrina:
descerrou-se no Centro Paroquial o seu retrato. Na ocasião, o Dr.
Dias de Azevedo proferiu um discurso. O Padre Leopoldino publicou-o
no «Ala-Arriba» de 7/4/56, donde se transcreve:

O Dr. Azevedo e a família ao redor da Alexandrina, que está no
patiozinho, ao cimo das escadas
que dão para a estreita varanda e para o quarto.
«Neste acto de gratidão e homenagem àquela que com
carinho chamávamos a Doentinha de Balasar, sinto o dever de dizer
algumas palavras de saudade, de parabéns e de agradecimento.
Palavras de saudade, porque a verdade é que, com o
decorrer do tempo, parece ir-se avivando, cada vez mais, a tristeza
pela falta da nossa querida Alexandrina, pois já não ouvimos a sua
voz angélica a aconselhar-nos nas nossas dúvidas, a animar-nos no
cumprimento do dever, amando mais e mais a Deus e ao próximo, numa
palavra, a termos uma vida mais digna e cristã. E esta saudade de
Alexandrina só nos pode ser suavizada por sabermos que os
sofrimentos de vítima de nossos pecados e de pecados do mundo, nos
últimos tempos, já não podiam ser maiores e hoje gozará, por prémio
das suas virtudes heróicas, a maior felicidade, aquilo que S. Paulo,
num êxtase sublime e inegável, viu e depois definiu como sendo «o
que os olhos humanos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram, nem o
coração do homem imagina o que Deus tem preparado para aqueles que o
amam».
Palavras de parabéns. Sim, mereceis esses parabéns
pelos vossos sentimentos e actos, desde o falecimento da Alexandrina
e pelo descerramento do retrato daquela que tanto alindou a vossa
igreja. Logo após o falecimento dela, vós mostrastes a vossa dor e a
vossa esperança.
Dor pela falta dessa figura extraordinária, a maior
glória de Balasar, em todos os tempos, glória que o futuro dirá ser
de Portugal e do mundo inteiro.
Vós não sabeis, nós não sabemos, o que Deus criou e
acumulou de graças no lugar do Calvário desta freguesia, mas, depois
de volvido algum tempo (sem eu querer antecipar qualquer decisão
definitiva da Igreja), dir-se-á que foi uma alma mística
extraordinária, uma vítima propiciatória, daquelas a quem se referia
Jesus falando a uma religiosa nos seguintes termos:
“O Pai celeste olha-as com especial agrado. São o
encanto dos Anjos e dos homens. São muito poucas. Destinam-se a
servir de defesa diante da justiça do Pai Celeste e a obter
misericórdia para o mundo.”
Mostrastes, senhoras e senhores, a vossa esperança,
porque se o funeral da Alexandrina foi uma autêntica glorificação da
sua vida heróica e santa, quereríeis significar com isso que tínheis
a certeza da sua valiosa intercessão por vós lá no Céu.
Sim, aquele sorriso angélico da Alexandrina nos está
dizendo que contemos com ela e que não desanimemos nas tribulações
da nossa vida. Já dizia o nosso maior poeta que o “caminho da
virtude” era “alto e fragoso, / mas no fim, doce alegre e
deleitoso” (Os Lusíadas, canto IX, est. 90). Para o Céu só há um
caminho, o do dever, o do arrependimento, o das tribulações e
cruzes, e a vida e o sorriso de Alexandrina nos estimulam a segui-lo
e a abraçá-lo.
Estejamos certos desta intercessão a nosso favor,
perante Deus, a quem tanto adorava, e perante a Virgem Imaculada, a
quem tão ardentemente amava.
Palavras de agradecimento para vós e para o vosso
pároco. O Sr. abade, durante a vida da Alexandrina, foi incansável
em dar-lhe diariamente o que ela desejava, o seu querido Jesus (seu
único alimento durante treze anos e meio) e, desde o seu
falecimento, tem sido incansável em manifestar, por belos artigos na
Imprensa e por conversas, as virtudes dessa alma heróica e
angelical, que foi a nossa querida e abençoada Doentinha. Deus lhe
dê muitos anos de saúde e vida para continuar a dar-nos luz, a fim
de que se saiba onde está a verdade e onde está a mentira, para
continuar a fazer justiça, porque é um acto de justiça dizer ao
mundo quem foi a Alexandrina.
E vós todos, que dum ou doutro modo respeitais e
acarinhais a memória da Alexandrina, ficai certos de que ela no Céu
não vos esquecerá e, grata como sempre foi, nada vos ficará a dever.
Pedi nas vossas dores e alegrias a sua intercessão e, do bom
resultado dela, por dever e gratidão, continuai a dar conta ao
senhor abade, a quem a autoridade eclesiástica confiou o registo das
graças recebidas.»
No
final do seu livro Alexandrina o Padre Humberto alude ao episódio do
descerramento do retrato; é na página 366 da 6ª edição. Vale a pena
ler o que então escreve:
«A seis meses da sua morte, durante uma solene
manifestação, a figura de Alexandrina sorri a todos no grande quadro
que foi inaugurado no salão paroquial de Balasar, como um sinal de
estima e gratidão por quanto ela havia feito em vida pela terra
natal.»
Segundo o Sr. Padre Francisco, o retrato de que aqui se faz menção
será o que se pode ver, muito envelhecido, sobre a cama, na casa que
foi da Alexandrina.
Mais Cartas
De
muitas das cartas que escreveu deixou o Dr. Dias de Azevedo uns
rascunhos num caderno de apontamentos existente em Balasar.
Registam-se aí :
17
enviadas ao Sr. Arcebispo
4
ao Vigário-Geral da Arquidiocese de Braga
5
ao Sr. Cardeal Patriarca
5
ao Provincial dos Jesuítas, Padre Júlio Marinho
1
ao Padre Pinho
1
ao Cónego Molho de Faria
Vamos reunir aqui algumas.
A SUA SANTIDADE O PAPA PIO
XII
«Santíssimo Padre
Com o maior respeito e veneração, venho aos pés de
Vossa Santidade entregar um traslado do que enviei ao Senhor
Arcebispo Primaz de Braga a respeito duma doentinha da freguesia de
Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, Arquidiocese de Braga, e que
se chama Alexandrina Maria da Costa, solteira, de 41 anos de idade,
paralítica há 22 anos, devido a uma mielite lombar originada por,
aos 14 anos, saltar duma janela, de 4 metros de altura, para fugir a
quem queria lançar-lhe as mãos para a violentar. Aos 20 anos, acamou
e, desde então, renovando uma e muitas vezes o seu oferecimento
feito a Jesus desde criança, como vítima, os seus sofrimentos vêm
aumentando, fora das leis da patologia, suportando-os com a maior
resignação e heroicidade, tendo sempre a mais completa caridade com
o próximo e o mais evidente amor a Deus. Aos 33 anos completos,
desde Outubro de 1938 a 27 e Março de 1942, às sextas-feiras, das 12
às 15 horas, em êxtase contínuo e alheia a qualquer sofrimento ou
tortura provocada, sofreu os tormentos da Paixão de Jesus, segundo
os desígnios de Deus, terminando esses sofrimentos extraordinários
às 3 da tarde por um êxtase em que, em voz alta, pronunciava as
palavras dos colóquios que tinha, ou melhor dizendo, lhe era dado
ter com o seu e nosso Rei e Senhor.
Já fora dos êxtases, para verificar a fidelidade da
cópia das palavras empregadas nesses colóquios, a doentinha
procedia, posto que com sacrifício, todas as vezes que disso
houvesse necessidade, à correcção dessas palavras, cujo significado
por vezes ignorava. Desde 27 de Março de 1942 até hoje, nunca mais
se alimentou, vivendo somente da Sagrada Eucaristia. Para se
verificar com rigor essa abstinência total de alimentos, foi
internada numa Casa de Saúde e entregue ao estudo dum Psiquiatra,
que, com o auxílio de 6 pessoas, a vigiaram, de dia e de noite,
durante 40 dias, e revezando-se aos grupos de duas, verificando-se
que nada comeu, nada bebeu e nada excretou, havendo anúria absoluta,
conservando o seu sangue normal nos seus elementos constitutivos,
como se verificou pelas análises que lhe foram feitas e estando as
suas faculdades mentais lucidíssimas e na mais absoluta normalidade,
apesar de ser, diariamente, sujeita a interrogatórios demorados e
extenuantes e de serem sempre reduzidíssimas as horas do seu sono
nocturno.
Sou médico assistente dessa doentinha desde Janeiro
de 1941 até hoje e nunca lhe notei nada digno de censura, mas sempre
a maior ansiedade em cumprir com a maior perfeição a vontade de
Deus, dando-lhe a maior honra e glória e procurando por todos os
meios a salvação das almas. De tudo isto tenho dado informação ao
meu querido Prelado. Parece ter chegado o momento de renovar essas
informações ao Senhor Arcebispo Primaz e sobretudo à Maior
Autoridade da Igreja, e por isso não quero deixar de cumprir esse
meu dever.
Beijando com o maior respeito o pé do Santíssimo
Padre Pio XII, sou de Vossa Santidade o servo mais humilde e inútil.
Manuel Augusto Dias de Azevedo
6 de Agosto de 1946, dia da Festa da Transfiguração
de Nosso Senhor Jesus Cristo.»
AO D. ABADE DE SINGEVERGA
«Ex.mo e Rev.mo Senhor D.
Abade, Singeverga
Por dever de consciência e para informação, venho
declarar a V. Ex.cia que, no pressentimento, pela conversa havida
entre nós, em Singeverga, do dia 2 do mês corrente, de que os Srs.
Drs. Luís Filipe e Gregório quereriam que a Alexandrina Maria da
Costa, de Balasar, fosse transportada para uma Casa de Saúde do
Porto, para o respectivo estudo clínico, e desejando a minha opinião
da possibilidade dessa deslocação, sem perigo de maior para a doente
(que, segundo me disse, está pronta a obedecer, ainda que morresse
na viagem), para me isentar de responsabilidades, fui convidar o Sr.
Dr. Carlos Lima e o Sr. Dr. Gomes de Araújo para, se fosse
necessário, numa conferência, na casa da doente, com os supra
mencionados médicos, ser resolvido se seria ou não possível essa
deslocação da doente. Responderam-me esses dois médicos que
aceitariam com o maior gosto esse meu convite de assistir a essa
conferência, declarando-me, principalmente o Sr. Dr. Gomes de
Araújo, que também estavam prontos a fazer mais declarações,
referentes à doente, e a completar o relatório que fora julgado há
anos incompleto pelos teólogos, pedindo também o Sr. Dr. Gomes de
Araújo o favor de, sendo possível, estarem presentes os teólogos, a
fim de lhes serem dados os esclarecimentos que julgassem
necessários. V. Ex.cia julgará o que muito bem entender,
parecendo-me que deveriam ser rejeitados (?) todos esses
esclarecimentos oferecidos, dados por quem já conhece a doente e
atinentes à investigação da verdade, que queremos obter. Saudando V.
Ex.cia Rev.ma, sou, com a máxima consideração e estima, o atento,
venerador e muito obrigado
Manuel Augusto Dias de Azevedo
Ribeirão, 9 de Agosto de 1953.»
AO CÓNEGO MOLHO DE FARIA
«Há dias escrevi uma longa
carta ao Senhor Arcebispo Primaz para lhe dizer que o Caso de
Balasar devia ser estudado de novo, porque o estudo feito pela
autoridade eclesiástica ficara incompleto.
As
palavras talvez não fossem exactamente estas, mas foi este o sentido
da minha carta.
É natural que o Senhor Arcebispo me tenha julgado
ousado, mas a minha consciência ficou um pouco mais tranquila com
esta carta porque ela foi feita pela minha consciência e dela tenho
de dar contas a Deus. Fiquei um pouco mais tranquilo e não me
preocupa muito a impressão que ela tenha causado.
Sinto-me também obrigado a escrever a V. Ex.ma e,
por isso, faço-o pedindo desculpa pelo tempo que o faço perder.
O Caso da Alexandrina, sob o ponto de vista médico,
é inexplicável pela Ciência: está longe de ser um caso de anorexia
mental. Uma doente de anorexia mental começa logo a perder peso e o
da Alexandrina é estacionário.
As faculdades mentais e o aspecto duma doente de
anorexia mental impressionam qualquer pessoa no sentido de a
classificar imediatamente como diminuída mental ou uma anormal; as
faculdades de Alexandrina pelo contrário, são admiráveis pela
lucidez, pelo equilíbrio e calma sob todos os pontos de vista.
Trecho duma carta do Dr. Dias de Azevedo ao Pe. Leopoldino
Mateus, onde ele diz que ser médico da Alexandrina é «a
minha glória na vida». |
Uma doente de anorexia mental perde logo as suas
menstruações e a da Alexandrina, desde que vive em abstinência total
de alimentos (e isto já dura há quatro anos), é normal nas suas
menstruações, predominando a abundância da perda de sangue.
Por isso, este caso, sob o ponto de vista médico, é
verdadeiramente extraordinário, mostrando uma excepção às leis da
Bioquímica. Isto é um autêntico milagre.
Sob o ponto de vista místico, este caso devia ser
estudado in loco. O senhor Cónego Molho de Faria não perderia o seu
tempo se voltasse a fazer o estudo desde o princípio. Ficaria
maravilhado se fizesse o estudo completo e seria honra para V. Exma.
Fazer esse estudo; e se não o fizer, há-de sentir remorsos e muita
tristeza, deixando esta caso como foi estudado.
Exmo. Senhor: é hora de acertar passo no que se
refere à Alexandrina. É a actividade apostólica e a inteligência de
V. Excia. Que o reclama, assim como o bem da Igreja e o nome do
Senhor Cónego de Faria.
V. Excia. assumiu uma responsabilidade tremenda
nesta caso, que traz com ele a missão especialíssima na Igreja e
esta missão está a ser perseguida e posta em confusão, porque a
persegue e faz confusão. Se este caso é extraordinário, como muitos
pensam, e se são autênticas as revelações de Nosso Senhor, a
comissão que o estudou tão precipitadamente pode ficar certa de que,
se não mudar o caminho, virá a sofrer castigos e a sentir desgostos
que nunca desaparecerão neste mundo.
A causa é de Deus e nela contém uma missão
especialíssima e por isso julgo que a Autoridade Eclesiástica deve
ser prudentíssima e não pode dispensar-se um estudo completo e feito
com cuidado.
O nome de V. Excia., e com estas palavras termino
esta carta, ficará ligado a este caso ou com muita glória ou com
muita sombra.
Pelo seu passado, o nome de V. Excia. é bem digno de
ser louvado e não de ser castigado pela justiça implacável da
opinião pública futura. Seja V. Excia. juiz do seu nome futuro,
porque continua a ser palavra que pode salvar ou perder.
Faço calorosos votos para que esta última palavra do
Senhor Cónego Molho de Faria seja gloriosa para o seu nome e de
justiça devida à mártir do Calvário de Balasar, que virá a ser
reconhecida e proclamada como uma das mais belas almas que o Senhor
criou para glória de Deus e salvação dos pecadores.
Sou de V. Excia. o respeitoso e obrigadíssimo
Manuel Augusto Dias de Azevedo.»
BIBLIOGRAFIA
Alexandrina Maria da Costa, a Doentinha de Balasar,
Boletim Mensal, passim
AZEVEDO, Manuel Augusto da Costa, «Alexandrina de Balazar e o seu
melhor cicerone leigo, o Dr. Dias de Azevedo» in Diário do Minho
de 18/02/04
COSTA, Alexandrina Maria da, Figlia del dolore, madre di amore.
Quasi una autobiografia, Mimep-Docete, Pessano (MI), 1993
COSTA, Alexandrina Maria, Autobiografia (dactilografada)
SILVA, Jorge M. M. B. da, Vida e obra do Dr. Manuel Augusto Dias
de Azevedo, trabalho policopiado
Documentos autógrafos do Arquivo da Alexandrina
Artigos do Dr. Dias de Azevedo publicados em jornais
Testemunho do Dr. Dias de Azevedo no Processo Diocesano
José Ferreira
É no número 5 do Boletim Mensal (Dezembro de 1957) que o Dr.
Dias de Azevedo nos diz que tomou a Alexandrina para
madrinha e porquê:
«(…) tinha-lhe pedido o favor de ser minha madrinha no
momento em que fosse chamado a prestar contas a Deus.
Aceitou o pedido e desde então beijava-lhe a mão quando a
visitava.»
É esta exigência do Dr. Dias de Azevedo que levará o Dr.
Gomes de Araújo a traçar aquele célebre retrato da
Alexandrina em que declara:
Cristo Gesù in Alexandrina,
p. 140, nota.
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