DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

 

DIA DA PARÓQUIA DE 1952

 

DISCURSO DO DR. DIAS DE AZEVEDO PROFERIDO EM RIBEIRÃO,
NO DIA DA PARÓQUIA DE 1952

De acordo com instruções superiores, Ribeirão celebrou, em 1952, com especial grandiosidade, o Dia da Paróquia. Assim consta da extensa reportagem que o boletim paroquial publicou em 11 de Maio e de que foi autor o Pe. Alberto Azevedo.

A celebração teve uma parte de actos religiosos, na Igreja Paroquial, e outra, a Sessão Solene, no salão da Casa do Povo. Nesta, foram proferidos vários discursos: o do Pe. Alberto Azevedo, o do presidente da LOC, António da Costa Júnior, de Vila Verde, o do jovem Vítor Manuel Costa, o do Dr. Dias de Azevedo e o do professor Gabriel Costa.

Na sua reportagem, o Pe. Alberto Azevedo sintetizou assim o discurso do pai:

“Parafraseando orador de nomeada, disse que o mundo estava cheio de palavras e que, para não aumentar o barulho desafinado de muitas delas – pois falava-se muito e meditava-se pouco – ele, orador, apenas falava por um dever de consciência e a pedido de alguém.

Ventilou algumas questões sobre o conceito de paróquia e as razões que legitimam a sua necessidade e conveniência. Afirmou a obrigação que todos temos de ser católicos e apostólicos. Há diversos apostolados - continua – o apostolado da pena (escrevendo), o apostolado da palavra (ensinando e pedindo emenda de vida), o apostolado do sofrimento… E, se estes apostolados não são obrigatórios para todos, há dois que a todos obrigam: o apostolado da oração e o apostolado do exemplo e das boas obras.

Em seguida, refere-se a duas obras paroquiais de grande alcance religioso e social, o Salão Paroquial e a Assistência Paroquial, para as quais chama a tenção e pede a colaboração generosa de todos os ribeirenses.

Refere-se em seguida ao trabalho dos últimos párocos desta freguesia.

Explica, adiante, como não pode ser descrente um homem de bom senso; e, como crente, tem obrigação de ser apóstolo das suas crenças.

Concluiu o seu admirável discurso – do qual este boletim publicará os passos predominantes – exaltando de um modo singular o valor e a omnipotência do sofrimento e da oração”.

O discurso publicado no Boletim A nossa Paróquia não está completo e saiu, com vários títulos e subtítulos, em 25 de Maio, em 8 e 22 de Junho. Mas é assim que o possuímos.

Os temas abordados foram sempre de grande interesse paroquial.

O Pe. Alberto Azevedo classificou o discurso como admirável e como magnífico. 

 

PROBLEMAS DA VIDA PAROQUIAL

 

A frequência da Igreja Paroquial

(…) Evidentemente, a paróquia não[1] é uma entidade essencial e indispensável à vida da Igreja, isto é, à vida dos fiéis que, professando a mesma fé, obedecem ao Romano Pontífice como Vigário de Jesus Cristo na terra.

Nosso Senhor Jesus Cristo mandou os Apóstolos por todo o mundo a pregar a Mensagem Divina a todas as criaturas. E, pelas terras em que o Evangelho era pregado e os ouvintes o abraçavam, logo se formaram as cristandades e as famílias religiosas, que constituíam núcleos de população cristã – o que hoje chamamos as paróquias – ficando a ouvir e a obedecer a representantes dos Apóstolos, que continuavam a administrar o necessário ensino religioso e os respectivos Sacramentos.

Desde logo, principiou a haver quem ensinasse e quem aprendesse, quem mandasse e quem obedecesse, e tudo isto por ordem expressa de Jesus: “Quem vos ouve a Mim ouve; quem vos despreza a Mim despreza”. Ora, nessas paróquias e nesse ensino religioso, deve haver um método, uma distribuição ordenada na pregação dessas múltiplas verdades religiosas; e, para que se colha o fruto do método e ordem desse ensino, é preciso que todos os paroquianos, sempre que possam, pratiquem a frequência da igreja da sua respectiva freguesia. As solenidades religiosas e mais actos de culto público, como homilias e pregações, divergem, de freguesia para freguesia consoante a oportunidade: e, consequentemente, para que se ande em dia com o que se passa nas nossas freguesias, sob o ponto de vista do ensino religioso, é necessário que frequentemos as nossas igrejas. Em Portugal, temos andado um pouco esquecidos destas verdade e desta necessidade e, para que a nossa correcção se faça, foi destinado que nas várias dioceses se celebrasse o Dia da Paróquia, em que se ventilasse este assunto e outros também importantes. 

Apostolado

Senhores!

No mundo de hoje estão alinhados, para tremendo e decisivo combate, dois exércitos: o exército dos que crêem, adoram, esperam e amam a Jesus, conforme Ele quer ser amado, e o exército dos que querem expulsar Jesus de todas as inteligências e de todos os corações.

E nós portugueses, como disse Pio XII, fazendo suas as palavras de Vieira, “temos obrigação de ser católicos e de ser apostólicos”, para que não degeneremos dos pensamentos e acções dos nossos maiores. Temos e devemos ser mais activos, estudando e aceitando a nossa futura acção apostólica. Há diversos apostolados: o apostolado da pena (escrevendo); o da palavra (ensinando e pedindo emenda de vida); o apostolado do sofrimento, em que por vezes há verdadeira imolação de todo o ser humano, exercendo-se as funções de verdadeiro pára-raios da justiça de Deus; o apostolado do tributo, ou financeiro, porque há várias obras de Deus a realizar e que não se realizam sem dinheiro; e, se estes apostolados não obrigam a todos, há dois que a todos obrigam: o apostolado da oração, porque todos devemos orar ou rezar para que venha ao mundo desnorteado o reino de Deus, e o apostolado do exemplo ou das boas obras – o apostolado do cumprimento do nosso dever de cristãos.

Não basta pregarmos palavras e pensamentos. É preciso pregarmos palavras e obras. Não basta falarmos aos ouvidos, é preciso falarmos aos olhos. As palavras voam e os exemplos arrastam. 

Salão paroquial

Ora para a nossa futura acção apostólica, a que há pouco me referi, precisamos de um salão paroquial. Precisamos de uma casa, destinada às reuniões das nossas crianças, da nossa juventude e até dos adultos, com finalidade educativa, a fim de que a influência dos maus divertimentos não se faça tanto sentir.

Este salão não atingiria os seus fins se não pudesse ser construído junto da nossa igreja. A freguesia de Ribeirão em tudo se tem mostrado briosa e pronta a atender às suas necessidades mais urgentes e não permitirá que os vindouros possam dizer que não fomos homens do nosso tempo, solícitos em edificar realizações imprescindíveis como é a construção do nosso salão paroquial.

Pela lembrança e desejo dessa construção, eu saúdo o nosso Pároco zeloso. 

Assistência Paroquial

Em Novembro de 1933, disse Pio XII aos bispos de França: “… Pregai que não deve ser sacrificada a verdade. A verdade é Deus e Deus veio para ser sacrificado. Não esqueçais, porém, que a pregação da verdade não basta. A pregação da verdade não granjeou muitas conquistas para Cristo, pelo contrário, conduziu-O à Cruz.

Foi pela caridade que Ele ganhou as almas e as levou em seu seguimento. Não temos outro meio para as ganhar. Olhai para os missionários: como é que eles convertem os infiéis?

Por meio de benefícios de toda a espécie. Convertereis os partidários do comunismo na medida em que lhes mostrardes que a fé em Cristo e o amor a Cristo são inspiradores de dedicação e beneficência. Insisti nesse ponto”. E essa dedicação e beneficência são o fruto das obras de misericórdia, sendo tal a importância na nossa vida moral que da prática destas obras depende a nossa salvação ou condenação. Vós sabeis bem quais serão as palavras de Jesus no juízo final: A uns dirá: Vinde, benditos de meu Pai… porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber. E a outros dirá: Apartai-vos de Mim, malditos, porque tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber…

Quer isto dizer que as boas obras nos salvarão e a ausência delas nos condenará. Ora uma das boas obras insistentemente recomendadas pela Igreja é a obra da assistência aos pobres e necessitados. Em Ribeirão, está organizada essa assistência, que tem distribuído muita protecção e auxílio, e que nós devemos auxiliar sempre, porque as necessidades e as provações que muitos sofrem são grandes.

Bem sabemos que a distribuição desse auxílio não terá sido sempre bem feita, umas vezes por informações menos verdadeiras duns e outras vezes por pressões irreflectidas de outros. Mas eliminar-se-ão no futuro esses abusos pois a necessidade dessa organização de beneficência e assistência é indiscutível, como também nem pensaremos na ingratidão de alguns que recebem. Essa obra não foi criada tendo-se em vista esses agradecimentos e gratidão devida, mas sim com os olhos em Deus que nada deixará sem prémio: e com a convicção de que é um dever de caridade contribuir na medida do possível para a assistência particular e pública. 

Honra ao Sacerdócio

Estamos habituados a Párocos zelosos, que têm contribuído ?? para o engrandecimento material e moral da nossa freguesia.

Quero mais uma vez, por gratidão ou dever de justiça, manifestar a minha maior consideração e respeito pela memória desses párocos, salientando a acção apostólica daquele que se chamou Padre Joaquim Dias dos Santos. Foi um Padre muito zeloso, como tinha já sido estudante muito correcto. Estou certo de que o anseio maior do seu coração foi sempre a glória de Deus e a salvação das almas e de que trabalhou sempre, conforme os talentos recebidos de Deus. A freguesia de Ribeirão ficou-lhe devendo imenso. Dizendo isto, está dito o principal a seu respeito.

Estamos habituados, como disse, a padres e párocos activos e zelosos. E temos, na hora presente, um filho da nossa terra que a Igreja chamou às honras de monsenhor – o Sr. Dr. Abílio Pereira de Araújo – padre também muito virtuoso e sempre interessado na glória de Deus e da Virgem Santíssima, sob o título de Nossa Senhora do Sameiro.

A freguesia de Ribeirão gloria-se desse seu filho ilustre, a quem contempla e saúda, na sua gloriosa ascensão, com muitos louvores e parabéns.

Desejávamos também, presentemente, um pároco que fosse um autêntico homem de Deus. E, louvado Deus, o nosso pároco actual é um pároco muito zeloso, inteligente, perito no falar e no desempenho das suas funções, verdadeiramente dinâmico, sempre ansioso pelo progresso moral e até assistencial da nossa freguesia.

Mas então não tem defeitos, ainda que pequeninos, dir-me-á alguém? Sim, terá alguns, como nós os temos, os próprios da natureza humana sempre perfectível. Se, uma ou outra vez, nos parece um pouco impetuoso, certamente não é por mal.

Antes, assim, por vezes um pouquinho impetuoso do que assustadiço e pusilânime de modo a não atrever-se a atacar de frente os afazeres nem a dar-lhes os qualificativos próprios. Com o tempo, tudo se aperfeiçoará. De resto, ninguém pode negar ao nosso pároco pureza de vida, amor a Jesus Cristo e à Igreja e muito zelo pela salvação das almas. É indubitavelmente um pároco zeloso e apostólico. E por isso, o Senhor o conserve, lhe dê vida e faça feliz na terra et non tradat eum in animam inimicorum eius[2]. São estes os votos de todos aqui presentes. 

INCREDULIDADE 

Senhores!...

Poderemos, tendo bom senso, ser descrentes, ser incrédulos, não acreditar em Deus, em Jesus Cristo e na nossa divina Religião Católica?

Responderei: é uma loucura ser incrédulo, pois não podemos razoavelmente negar as verdades que a Igreja nos ensina: umas por serem quase evidentes e outras por serem baseadas em incontestáveis e respeitosos motivos de credibilidade.

A nossa razão demonstra a existência de Deus Criador, Providente e Remunerador e a imortalidade da alma humana, assim como demonstra a existência de sinais infalíveis de que Deus revelou aos homens muitas verdades e delas apresentou provas irrecusáveis, como sejam as profecias e os milagres. E assim a maioria dos sábios e de todos os fundadores das ciências modernas foram crentes, como crente tem sido a maioria do género humano.

O descrente que diz acreditar só no que vê está em contradição consigo mesmo, porque acreditou e acredita em muitas coisas que nunca viu nem vê, em cidades e países que nunca visitou, em personagens da história com quem nunca falou e de que só tem conhecimento pela fé humana.

A fé é uma necessidade de todo o homem que vive em sociedade. E não temos direito de pensar como quisermos e contra a razão. As coisas e as verdades são que são, e não aquilo que os homens querem que elas sejam. Eu não tenho o direito de sensatamente dizer que dois e dois são cinco. E, se só acreditássemos no que víssemos, a pouco se reduziriam os nossos conhecimentos.

Sejamos pois crentes e vivamos em harmonia com as nossas crenças religiosas, as da divina Religião Católica, se quisermos ser felizes neste mundo e no outro.

Camilo Castelo Branco chamara aos dias em que tivera fé o tempo em que fora feliz, e os livros inspirados dizem que sem fé não podemos agradecer (agradar?) a Deus. Sem fé nem podemos neste mundo ser felizes. 

Um incrédulo francês

Ouçamos o incrédulo francês Jouffroy. Era um sábio francês que escreveu o seguinte:

Como posso viver em paz se não sei nem donde vim, nem para onde vou, nem qual é o meu destino? Se não sei o que significam o homem, a espécie e a criação? Se tudo para mim é enigma, mistério, objecto de dúvida e de inquietações? Viver em paz no meio desta ignorância é coisa contraditória e impossível. Oh - exclamava o infeliz incrédulo – que terríveis são as dúvidas provocadas pela questão da vida futura, se o homem não acha a solução em crenças solidamente estabelecidas! E mais tarde, ao pensar nos vários sistemas filosóficos de descrença, dizia ao abade Norilieu: - Ah, Sr. Abade, todos esses sistemas de descrença não valem para nada. Mais vale mil e mil vezes mais um bom acto de fé cristã”. Depois, já mais tarde, ao pensar na luz que os ensinamentos da Igreja nos dão, falava assim: Há um livrinho que se ensina aos meninos e sobre o qual os interrogam na Igreja. Lede-o; é o catecismo. Nele achareis a solução de todos os problemas que vos tenho proposto; de todos, sem excepção. Interrogai o cristão sobre a espécie humana: donde vem e para onde vai, e ele vos responderá. Perguntai a essa criancinha que ainda não pensou sobre a vida humana, perguntai-lhe, digo, porque é que está neste mundo e que será dela depois da morte. E ouvireis uma resposta sublime, que só o cristianismo sabe dar.

Está aí o que se chama uma grande religião, e reconheço-a por esse sinal: porque não deixa sem resposta questão alguma das que interessam à humanidade. Era um sábio francês que dizia isto. 

Sábios e literatos portugueses

E os nossos homens de ciência ou letras o que é que disseram?

O nosso Ferreira da Silva[3], que era um dos maiores químicos do mundo, disse sempre:

Respeitemos esses altos ensinamentos da Igreja Católica, que pela sua moral tão pura, pelos seus dogmas imutáveis, pela magnificência do seu alto culto, pela sua teologia sublime, pelo seu catecismo tão simples, oferece às almas que ela ilumina repouso e segurança. E horemos o Papa, o representante dessa potência moral e dessa autoridade sem igual na terra, à qual a civilização e as ciências devem os maiores benefícios.

E Gomes Teixeira, um dos maiores matemáticos do mundo e que faleceu há poucos anos, numas conferências pronunciadas em Lisboa e Porto, nos tempos da perseguição à Igreja, na presença das maiores notabilidades científicas dessa cidade, disse as seguintes palavras: Na minha alma estão profundamente enraizados três grandes afectos: amor a Deus, amor à Ciência e amor à Pátria. Tenho fé religiosa, fé científica e fé patriótica.

É possível que alguém, talvez com um sorriso de ironia, diga: se os nossos maiores sábios assim falavam, da mesma forma falariam os nossos grandes escritores?

Na verdade, houve tempo em que, durante alguns anos, os nossos maiores escritores de então, os da geração de 1870, Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e Guerra Junqueiro, passaram o tempo a rir das coisas mais sagradas, mas convém não esquecer que, como escreveu, mais tarde, o próprio Eça, o riso deles era todo feito de inexperiência e de ignorância.

O racionalismo deles era, como confessou, num acto de contrição, Guerra Junqueiro, um nacionalismo desvairado, um racionalismo de ignorância, estreito e superficial. Eram mestres, que, não sabendo a não ser coisas literárias, pretendiam ensinar. Eram críticos que, ignorando as verdades mais importantes, pretendiam censurar e deprimir. As obras escritas desses críticos fizeram e estão fazendo muito mal, esquecendo ou ignorando muita gente o arrependimento desses homens por muito tempo desvairados.

 

À hora da morte…

Antero de Quental, como escreveu a maior glória do nosso concelho e que é o Senhor Cardeal Patriarca – acabou sem fé na fé que apostolizava.

Oliveira Martins morreu a rezar a Ave-Maria, com os olhos postos no Crucifixo.

Ramalho Ortigão quis descer ao túmulo amortalhado no hábito beneditino, hábito que as mesmas leis nesse tempo só permitiam… aos mortos.

Eça de Queirós expirou repetindo as orações cristãs que sua esposa[4] ia dizendo.

E Guerra Junqueiro, que tanto falou e escreveu contra a Religião, continuando alguns dos seus versos malditos a fazer ainda por aí muito mal?

Guerra Junqueiro insultou Jesus Cristo e a sua Igreja como poucos o haviam feito, mas depois que leu a Vida de S. Francisco de Assis, do protestante Sabatier, disse de vários versos que publicou – que não eram seus mas do álcool.

E Raul Brandão disse um dia: pesei o bem e o mal que fiz. Não posso dormir! Não consigo dormir! E, se durmo, são séries de sonhos.

Todas as almas são imortais. Também para mim o inferno não existia. Hoje sei que há inferno, o inferno existe. Bem vê que Deus é infinitamente bom e infinitamente justo; portanto o inferno tem de existir para as almas que se não arrependem.

E continuava a falar assim Raul Brandão: A vida passa num rápido instante. Detesto os homens que diante da morte conservam uma indiferença que não compreendo nem explico. Só a estupidez e a inconsciência olham sem temor essa hora suprema.

Guerra Junqueiro, com os seus livros, foi a causa de revoluções e crimes em Portugal, mas, antes de morrer, declarou: Dava toda a minha glória para não ter saído do catolicismo. Errei a minha vida. E gostava de ouvir esse anjo, em forma de mulher, que foi D. Sílvia, e a quem dizia: Faz-me bem ouvi-la ao falar-me das coisas de Deus. O que pode a fé! Conte-me. Interessa-me tudo quanto me relata. Certas dúvidas se vão desvanecendo. As orações das crianças, suas protegidas, e as suas são ouvidas. Quanto a admiro! Invejo a sua fé!

Depois disto, e passado tempo, terminou os seus dias, pedindo enterro católico. Tenhamos, pois, muita honra e bem entendida vaidade em podermos dizer que somos homens do nosso tempo sendo católicos.

 

SEJAMOS APÓSTOLOS

 

… Pelo exemplo

Escreveu, e como sempre muito bem, o glorioso Senhor Cardeal Cerejeira que quem julga possuir um bem de que as almas têm fome e não sofre porque elas o partilhem, ou não tem fé no bem que possui ou na sua alma o bem não entrou.

Passamos por vezes o tempo a falar dos direitos dos homens e é preciso que também passemos a falar nos direitos de Deus; temos que afervorar o nosso zelo e as nossas orações para que aumente o Reino de Cristo.

Todos os cristãos têm o dever de ser apóstolos e há dois apostolados que por todos devem ser praticados: a apostolado da oração e o apostolado do exemplo.

Ser cristão é professar a doutrina de Cristo. Os cristãos não têm direito de ser uns inúteis no mundo.

Devemos ter a convicção de que é uma honra servir a Igreja e de que não é a Igreja que precisa de nós, mas somos nós que precisamos da Igreja.

Somos filhos de Deus e a Ele devemos adoração como nosso Criador, gratidão como nosso Redentor e amor como nosso Santificador. Essa adoração, essa gratidão e amor à SS.ma Trindade deve traduzir-se e manifestar-se por obras

Se Me amais, disse Jesus, observai os meus mandamentos. Vós sois meus amigos, disse ainda Jesus, se fizerdes o que vos mando. E, se quisermos saber o que Deus nos manda, ouçamos a Igreja, que é Jesus no meio de nós.

Se quisermos cooperar no triunfo do Reino de Cristo, preguemos pelo exemplo a doutrina de Cristo. Como?, dirá alguém.

Um dia, e já no convento, disse o meigo S. Francisco de Assis a um dos seus religiosos: vamos pregar. Saíram, deram uma volta pela cidade e depois voltaram ao convento. Então, já recolhemos”, disse o companheiro a S. Francisco. Já está feita a pregação, disse o Santo. A modéstia com que se apresentaram na cidade, o bom nome de que eram portadores, a expressão sobrenatural dos seus olhares nada curiosos dos outros, aquele aspecto de santidade das suas pessoas, que manifestavam muita vida interior e penitência, aqueles seus hábitos, que significavam desprezo da carne e de luxos, tudo isso, no seu conjunto, pregava a todos o que a mensagem de Nossa Senhora de Fátima nos diz: guerra às modas no que elas têm de excesso e de maldição, mudança de toda a vida que seja má e penitência por nós e pelo mundo desvairado.

Muda de nome ou muda de costumes, disse Alexandre Magno a um soldado de maus costumes e que tinha o seu nome – o de Alexandre. Inutilmente nos dizemos cristãos se não formos imitadores de Cristo, mas faremos o melhor apostolado do bom exemplo se cumprirmos a vontade de Deus, que nos fala à consciência pelos seus mandamentos e pelo que diz a Igreja docente. 

… Pela oração

Enquanto ao apostolado da oração, sabemos que todos podem e devem pedir a Deus que venha a nós o seu Reino, a fim de que todos os homens louvem o Senhor.

Se, sem o auxílio de Jesus, nada podemos fazer e, por meio do seu auxílio, por meio da oração, tudo conseguiremos, nunca a nossa oração será tão aceite como quando pedimos a Deus o Reino Social de Jesus. Se Santa Teresinha do Menino Jesus, “este milagre da graça e prodígio de milagres”, é, no dizer de Pio XI, “a maior santa e o maior e mais famoso missionário dos tempos modernos”, deve-se ao seu apostolado de oração. Elisabeth Leseur – essa mulher admirável a quem o sábio Le Dantec chamava o espírito mais profundo então seu conhecido, escreveu um dia: “a vida de todos nós é uma responsabilidade. E somos culpados não somente do mal que fazemos como do bem que deixamos de fazer”. E só Deus sabe o bem que podemos operar pela oração. Quem ora bem busca primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e por isso mesmo, embora o não pareça, tudo o mais lhe será dado por acréscimo. Quem ora bem faz apostolado, também pode converter e santificar almas.

Havendo hoje oradores e sábios, como nunca, qual o motivo de não estar convertido o mundo? – É porque não há vida de oração, não há vida interior. Santa Teresinha converteu muitas almas e como foi se converter almas é obra sobrenatural? Porque era um cálice cheio, bem cheio de Jesus, a transbordar sobre as almas e sobre a Igreja.

É por isso que devemos considerar os conventos e casas religiosas – essas casas de oração e imolação – como lugares sagrados e pára-raios da justiça divina. Quantas e quantas conversões, que nós atribuímos a isto ou àquilo, se devem a almas santas que, por intermédio das suas orações e sofrimentos, tudo transformam e tudo alcançam de Deus!

Para fazer o elogio mais apreciável do Apostolado da Oração, eu quero servir-me das palavras de Pio XI, um dos melhores papas de todos os tempos: “A oração primeiro que tudo… Todos os actos da Acção Católica, grandes ou pequenos, devem ser preparados, assistidos e   dos pela oração”.

Bem dizia S. Agostinho: “Quem sabe orar bem sabe viver bem”. E aos novos e àqueles que afirmavam que a Religião obrigava ao cumprimento de coisas impossíveis à natureza humana, S. Agostinho respondia e responde: “Deus não manda coisas impossíveis, mas, ao mandar, exorta a fazeres o que podes e a pedir o que não podes, e, assim, pela oração bem feita, ajuda sempre para que possas”.

Não pode ser feito maior elogio do valor e necessidade da oração.


[1] Parece que este advérbio deve ser retirado.

[2] Salmo 40:3. Tradução: E não o entregue à vontade dos seus inimigos.

[3] António Joaquim Ferreira da Silva (28 de Julho de 1853 – 23 de Agosto de 1923) foi um químico português, um dos maiores expoentes da ciência portuguesa.

[4] A esposa de Eça de Queirós chamava-se Emília de Castro. Foi uma senhora muito equilibrada, que escrevia com muita correcção, e muito segura do seu catolicismo. Afastou os filhos da leitura da obra do marido. Este, ao falecer, apesar de cônsul em Paris, deixou muitas dívidas, que ela pagou, vendendo para isso uma das suas quintas.

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