DISCURSO DO DR. DIAS DE AZEVEDO PROFERIDO EM RIBEIRÃO,
NO DIA DA PARÓQUIA DE 1952
De acordo com
instruções superiores, Ribeirão celebrou, em 1952, com especial
grandiosidade, o Dia da Paróquia. Assim consta da extensa reportagem
que o boletim paroquial publicou em 11 de Maio e de que foi autor o
Pe. Alberto Azevedo.
A celebração teve uma
parte de actos religiosos, na Igreja Paroquial, e outra, a Sessão
Solene, no salão da Casa do Povo. Nesta, foram proferidos vários
discursos: o do Pe. Alberto Azevedo, o do presidente da LOC, António
da Costa Júnior, de Vila Verde, o do jovem Vítor Manuel Costa, o do
Dr. Dias de Azevedo e o do professor Gabriel Costa.
Na
sua reportagem, o Pe. Alberto Azevedo sintetizou assim o discurso do
pai:
“Parafraseando orador
de nomeada, disse que o mundo estava cheio de palavras e que, para
não aumentar o barulho desafinado de muitas delas – pois falava-se
muito e meditava-se pouco – ele, orador, apenas falava por um dever
de consciência e a pedido de alguém.
Ventilou algumas
questões sobre o conceito de paróquia e as razões que legitimam a
sua necessidade e conveniência. Afirmou a obrigação que todos temos
de ser católicos e apostólicos. Há diversos apostolados - continua –
o apostolado da pena (escrevendo), o apostolado da palavra (ensinando
e pedindo emenda de vida), o apostolado do sofrimento… E, se estes
apostolados não são obrigatórios para todos, há dois que a todos
obrigam: o apostolado da oração e o apostolado do exemplo e das boas
obras.
Em seguida, refere-se a
duas obras paroquiais de grande alcance religioso e social, o Salão
Paroquial e a Assistência Paroquial, para as quais chama a tenção e
pede a colaboração generosa de todos os ribeirenses.
Refere-se em seguida ao
trabalho dos últimos párocos desta freguesia.
Explica, adiante, como
não pode ser descrente um homem de bom senso; e, como crente, tem
obrigação de ser apóstolo das suas crenças.
Concluiu o seu
admirável discurso – do qual este boletim publicará os passos
predominantes – exaltando de um modo singular o valor e a
omnipotência do sofrimento e da oração”.
O discurso publicado no
Boletim A nossa Paróquia não está completo e saiu, com vários
títulos e subtítulos, em 25 de Maio, em 8 e 22 de Junho. Mas é assim
que o possuímos.
Os temas abordados
foram sempre de grande interesse paroquial.
O Pe. Alberto Azevedo
classificou o discurso como admirável e como magnífico.
PROBLEMAS DA VIDA PAROQUIAL
A frequência da
Igreja Paroquial
(…) Evidentemente, a
paróquia não
é uma entidade essencial e indispensável à vida da Igreja, isto é, à
vida dos fiéis que, professando a mesma fé, obedecem ao Romano
Pontífice como Vigário de Jesus Cristo na terra.
Nosso Senhor Jesus
Cristo mandou os Apóstolos por todo o mundo a pregar a Mensagem
Divina a todas as criaturas. E, pelas terras em que o Evangelho era
pregado e os ouvintes o abraçavam, logo se formaram as cristandades
e as famílias religiosas, que constituíam núcleos de população
cristã – o que hoje chamamos as paróquias – ficando a ouvir e a
obedecer a representantes dos Apóstolos, que continuavam a
administrar o necessário ensino religioso e os respectivos
Sacramentos.
Desde logo, principiou
a haver quem ensinasse e quem aprendesse, quem mandasse e quem
obedecesse, e tudo isto por ordem expressa de Jesus: “Quem vos ouve
a Mim ouve; quem vos despreza a Mim despreza”. Ora, nessas paróquias
e nesse ensino religioso, deve haver um método, uma distribuição
ordenada na pregação dessas múltiplas verdades religiosas; e, para
que se colha o fruto do método e ordem desse ensino, é preciso que
todos os paroquianos, sempre que possam, pratiquem a frequência da
igreja da sua respectiva freguesia. As solenidades religiosas e mais
actos de culto público, como homilias e pregações, divergem, de
freguesia para freguesia consoante a oportunidade: e,
consequentemente, para que se ande em dia com o que se passa nas
nossas freguesias, sob o ponto de vista do ensino religioso, é
necessário que frequentemos as nossas igrejas. Em Portugal, temos
andado um pouco esquecidos destas verdade e desta necessidade e,
para que a nossa correcção se faça, foi destinado que nas várias
dioceses se celebrasse o Dia da Paróquia, em que se ventilasse este
assunto e outros também importantes.
Apostolado
Senhores!
No mundo de hoje estão
alinhados, para tremendo e decisivo combate, dois exércitos: o
exército dos que crêem, adoram, esperam e amam a Jesus, conforme Ele
quer ser amado, e o exército dos que querem expulsar Jesus de todas
as inteligências e de todos os corações.
E nós portugueses, como
disse Pio XII, fazendo suas as palavras de Vieira, “temos obrigação
de ser católicos e de ser apostólicos”, para que não degeneremos dos
pensamentos e acções dos nossos maiores. Temos e devemos ser mais
activos, estudando e aceitando a nossa futura acção apostólica. Há
diversos apostolados: o apostolado da pena (escrevendo); o da
palavra (ensinando e pedindo emenda de vida); o apostolado do
sofrimento, em que por vezes há verdadeira imolação de todo o ser
humano, exercendo-se as funções de verdadeiro pára-raios da justiça
de Deus; o apostolado do tributo, ou financeiro, porque há várias
obras de Deus a realizar e que não se realizam sem dinheiro; e, se
estes apostolados não obrigam a todos, há dois que a todos obrigam:
o apostolado da oração, porque todos devemos orar ou rezar para que
venha ao mundo desnorteado o reino de Deus, e o apostolado do
exemplo ou das boas obras – o apostolado do cumprimento do nosso
dever de cristãos.
Não basta pregarmos
palavras e pensamentos. É preciso pregarmos palavras e obras. Não
basta falarmos aos ouvidos, é preciso falarmos aos olhos. As
palavras voam e os exemplos arrastam.
Salão paroquial
Ora para a nossa futura
acção apostólica, a que há pouco me referi, precisamos de um salão
paroquial. Precisamos de uma casa, destinada às reuniões das nossas
crianças, da nossa juventude e até dos adultos, com finalidade
educativa, a fim de que a influência dos maus divertimentos não se
faça tanto sentir.
Este salão não
atingiria os seus fins se não pudesse ser construído junto da nossa
igreja. A freguesia de Ribeirão em tudo se tem mostrado briosa e
pronta a atender às suas necessidades mais urgentes e não permitirá
que os vindouros possam dizer que não fomos homens do nosso tempo,
solícitos em edificar realizações imprescindíveis como é a
construção do nosso salão paroquial.
Pela lembrança e desejo
dessa construção, eu saúdo o nosso Pároco zeloso.
Assistência Paroquial
Em Novembro de 1933,
disse Pio XII aos bispos de França: “… Pregai que não deve ser
sacrificada a verdade. A verdade é Deus e Deus veio para ser
sacrificado. Não esqueçais, porém, que a pregação da verdade
não basta. A pregação da verdade não granjeou muitas conquistas
para Cristo, pelo contrário, conduziu-O à Cruz.
Foi pela caridade
que Ele ganhou as almas e as levou em seu seguimento. Não temos
outro meio para as ganhar. Olhai para os missionários: como é que
eles convertem os infiéis?
Por meio de benefícios
de toda a espécie. Convertereis os partidários do comunismo na
medida em que lhes mostrardes que a fé em Cristo e o amor a Cristo
são inspiradores de dedicação e beneficência. Insisti nesse ponto”.
E essa dedicação e beneficência são o fruto das obras de
misericórdia, sendo tal a importância na nossa vida moral que da
prática destas obras depende a nossa salvação ou condenação. Vós
sabeis bem quais serão as palavras de Jesus no juízo final: A uns
dirá: Vinde, benditos de meu Pai… porque tive fome e destes-Me de
comer, tive sede e destes-Me de beber. E a outros dirá:
Apartai-vos de Mim, malditos, porque tive fome e não Me destes de
comer, tive sede e não Me destes de beber…
Quer isto dizer que as
boas obras nos salvarão e a ausência delas nos condenará. Ora uma
das boas obras insistentemente recomendadas pela Igreja é a obra da
assistência aos pobres e necessitados. Em Ribeirão, está organizada
essa assistência, que tem distribuído muita protecção e auxílio, e
que nós devemos auxiliar sempre, porque as necessidades e as
provações que muitos sofrem são grandes.
Bem sabemos que a
distribuição desse auxílio não terá sido sempre bem feita, umas
vezes por informações menos verdadeiras duns e outras vezes por
pressões irreflectidas de outros. Mas eliminar-se-ão no futuro esses
abusos pois a necessidade dessa organização de beneficência e
assistência é indiscutível, como também nem pensaremos na ingratidão
de alguns que recebem. Essa obra não foi criada tendo-se em vista
esses agradecimentos e gratidão devida, mas sim com os olhos em Deus
que nada deixará sem prémio: e com a convicção de que é um dever de
caridade contribuir na medida do possível para a assistência
particular e pública.
Honra ao Sacerdócio
Estamos habituados a
Párocos zelosos, que têm contribuído ?? para o
engrandecimento material e moral da nossa freguesia.
Quero mais uma vez, por
gratidão ou dever de justiça, manifestar a minha maior consideração
e respeito pela memória desses párocos, salientando a acção
apostólica daquele que se chamou Padre Joaquim Dias dos Santos. Foi
um Padre muito zeloso, como tinha já sido estudante muito correcto.
Estou certo de que o anseio maior do seu coração foi sempre a glória
de Deus e a salvação das almas e de que trabalhou sempre, conforme
os talentos recebidos de Deus. A freguesia de Ribeirão ficou-lhe
devendo imenso. Dizendo isto, está dito o principal a seu respeito.
Estamos habituados,
como disse, a padres e párocos activos e zelosos. E temos, na hora
presente, um filho da nossa terra que a Igreja chamou às honras de
monsenhor – o Sr. Dr. Abílio Pereira de Araújo – padre também muito
virtuoso e sempre interessado na glória de Deus e da Virgem
Santíssima, sob o título de Nossa Senhora do Sameiro.
A freguesia de Ribeirão
gloria-se desse seu filho ilustre, a quem contempla e saúda, na sua
gloriosa ascensão, com muitos louvores e parabéns.
Desejávamos também,
presentemente, um pároco que fosse um autêntico homem de Deus. E,
louvado Deus, o nosso pároco actual é um pároco muito zeloso,
inteligente, perito no falar e no desempenho das suas funções,
verdadeiramente dinâmico, sempre ansioso pelo progresso moral e até
assistencial da nossa freguesia.
Mas então não tem
defeitos, ainda que pequeninos, dir-me-á alguém? Sim, terá alguns,
como nós os temos, os próprios da natureza humana sempre
perfectível. Se, uma ou outra vez, nos parece um pouco impetuoso,
certamente não é por mal.
Antes, assim, por
vezes um pouquinho impetuoso do que assustadiço e pusilânime de modo
a não atrever-se a atacar de frente os afazeres nem a dar-lhes os
qualificativos próprios. Com o tempo, tudo se aperfeiçoará. De
resto, ninguém pode negar ao nosso pároco pureza de vida, amor a
Jesus Cristo e à Igreja e muito zelo pela salvação das almas. É
indubitavelmente um pároco zeloso e apostólico. E por isso, o Senhor
o conserve, lhe dê vida e faça feliz na terra
et non tradat eum
in animam inimicorum eius.
São estes os votos de todos aqui presentes.
INCREDULIDADE
Senhores!...
Poderemos, tendo bom
senso, ser descrentes, ser incrédulos, não acreditar em Deus, em
Jesus Cristo e na nossa divina Religião Católica?
Responderei: é uma
loucura ser incrédulo, pois não podemos razoavelmente negar as
verdades que a Igreja nos ensina: umas por serem quase evidentes e
outras por serem baseadas em incontestáveis e respeitosos motivos de
credibilidade.
A nossa razão demonstra
a existência de Deus Criador, Providente e Remunerador e a
imortalidade da alma humana, assim como demonstra a existência de
sinais infalíveis de que Deus revelou aos homens muitas verdades e
delas apresentou provas irrecusáveis, como sejam as profecias e os
milagres. E assim a maioria dos sábios e de todos os fundadores das
ciências modernas foram crentes, como crente tem sido a maioria do
género humano.
O descrente que diz
acreditar só no que vê está em contradição consigo mesmo, porque
acreditou e acredita em muitas coisas que nunca viu nem vê, em
cidades e países que nunca visitou, em personagens da história com
quem nunca falou e de que só tem conhecimento pela fé humana.
A fé é uma necessidade
de todo o homem que vive em sociedade. E não temos direito de pensar
como quisermos e contra a razão. As coisas e as verdades são que
são, e não aquilo que os homens querem que elas sejam. Eu não tenho
o direito de sensatamente dizer que dois e dois são cinco. E,
se só acreditássemos no que víssemos, a pouco se reduziriam os
nossos conhecimentos.
Sejamos pois crentes e
vivamos em harmonia com as nossas crenças religiosas, as da divina
Religião Católica, se quisermos ser felizes neste mundo e no outro.
Camilo Castelo Branco
chamara aos dias em que tivera fé o tempo em que fora feliz,
e os livros inspirados dizem que sem fé não podemos agradecer
(agradar?) a Deus. Sem fé nem podemos neste mundo ser
felizes.
Um incrédulo francês
Ouçamos o incrédulo
francês Jouffroy. Era um sábio francês que escreveu o seguinte:
Como posso
viver em paz se não sei nem donde vim, nem para onde vou, nem qual é
o meu destino? Se não sei o que significam o homem, a espécie e a
criação? Se tudo para mim é enigma, mistério, objecto de dúvida e de
inquietações? Viver em paz no meio desta ignorância é coisa
contraditória e impossível. Oh -
exclamava o infeliz incrédulo – que
terríveis são as dúvidas provocadas pela questão da vida futura, se
o homem não acha a solução em crenças solidamente estabelecidas!
E mais tarde, ao pensar nos vários sistemas filosóficos de
descrença, dizia ao abade Norilieu: - Ah, Sr. Abade, todos esses
sistemas
de descrença não valem para nada. Mais vale mil e mil vezes mais um
bom acto de fé cristã”.
Depois, já mais tarde, ao pensar na luz que os ensinamentos da
Igreja nos dão, falava assim:
Há um livrinho que se ensina aos
meninos e sobre o qual os interrogam na Igreja. Lede-o; é o
catecismo. Nele achareis a solução de todos os problemas que vos
tenho proposto; de todos, sem excepção. Interrogai o cristão sobre a
espécie humana: donde vem e para onde vai, e ele vos responderá.
Perguntai a essa criancinha que ainda não pensou sobre a vida
humana, perguntai-lhe, digo, porque é que está neste mundo e que
será dela depois da morte. E ouvireis uma resposta sublime, que só o
cristianismo sabe dar.
Está aí o que se
chama uma grande religião, e reconheço-a por esse sinal: porque não
deixa sem resposta questão alguma das que interessam à humanidade.
Era um sábio francês que dizia isto.
Sábios e literatos
portugueses
E os nossos homens de
ciência ou letras o que é que disseram?
O nosso Ferreira da
Silva,
que era um dos maiores químicos do mundo, disse sempre:
Respeitemos esses
altos ensinamentos da Igreja Católica, que pela sua moral tão pura,
pelos seus dogmas imutáveis, pela magnificência do seu alto culto,
pela sua teologia sublime, pelo seu catecismo tão simples, oferece
às almas que ela ilumina repouso e segurança. E horemos o Papa, o
representante dessa potência moral e dessa autoridade sem igual na
terra, à qual a civilização e as ciências devem os maiores
benefícios.
E Gomes Teixeira, um
dos maiores matemáticos do mundo e que faleceu há poucos anos, numas
conferências pronunciadas em Lisboa e Porto, nos tempos da
perseguição à Igreja, na presença das maiores notabilidades
científicas dessa cidade, disse as seguintes palavras: Na minha
alma estão profundamente enraizados três grandes afectos: amor a
Deus, amor à Ciência e amor à Pátria. Tenho fé religiosa, fé
científica e fé patriótica.
É possível que alguém,
talvez com um sorriso de ironia, diga: se os nossos maiores sábios
assim falavam, da mesma forma falariam os nossos grandes escritores?
Na verdade, houve tempo
em que, durante alguns anos, os nossos maiores escritores de então,
os da geração de 1870, Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho
Ortigão, Eça de Queirós e Guerra Junqueiro, passaram o tempo a rir
das coisas mais sagradas, mas convém não esquecer que, como
escreveu, mais tarde, o próprio Eça, o riso deles era todo feito
de inexperiência e de ignorância.
O racionalismo deles
era, como confessou, num acto de contrição, Guerra Junqueiro, um
nacionalismo desvairado, um racionalismo de ignorância, estreito e
superficial. Eram mestres, que, não sabendo a não ser coisas
literárias, pretendiam ensinar. Eram críticos que, ignorando as
verdades mais importantes, pretendiam censurar e deprimir. As obras
escritas desses críticos fizeram e estão fazendo muito mal,
esquecendo ou ignorando muita gente o arrependimento desses homens
por muito tempo desvairados.
À hora da morte…
Antero de Quental, como
escreveu a maior glória do nosso concelho e que é o Senhor Cardeal
Patriarca – acabou sem fé na fé que apostolizava.
Oliveira Martins morreu
a rezar a Ave-Maria, com os olhos postos no Crucifixo.
Ramalho Ortigão quis
descer ao túmulo amortalhado no hábito beneditino, hábito que as
mesmas leis nesse tempo só permitiam… aos mortos.
Eça de Queirós expirou
repetindo as orações cristãs que sua esposa
ia dizendo.
E Guerra Junqueiro, que
tanto falou e escreveu contra a Religião, continuando alguns dos
seus versos malditos a fazer ainda por aí muito mal?
Guerra Junqueiro
insultou Jesus Cristo e a sua Igreja como poucos o haviam feito, mas
depois que leu a Vida de S. Francisco de Assis, do protestante
Sabatier, disse de vários versos que publicou – que não eram seus
mas do álcool.
E Raul Brandão disse um
dia: pesei o bem e o mal que fiz. Não posso dormir! Não consigo
dormir! E, se durmo, são séries de sonhos.
Todas as almas são
imortais. Também para mim o inferno não existia. Hoje sei que há
inferno, o inferno existe. Bem vê que Deus é infinitamente bom e
infinitamente justo; portanto o inferno tem de existir para as almas
que se não arrependem.
E continuava a falar
assim Raul Brandão: A vida passa num rápido instante. Detesto os
homens que diante da morte conservam uma indiferença que não
compreendo nem explico. Só a estupidez e a inconsciência olham sem
temor essa hora suprema.
Guerra Junqueiro, com
os seus livros, foi a causa de revoluções e crimes em Portugal, mas,
antes de morrer, declarou: Dava toda a minha glória para não ter
saído do catolicismo. Errei a minha vida. E gostava de ouvir
esse anjo, em forma de mulher, que foi D. Sílvia, e a quem dizia:
Faz-me bem ouvi-la ao falar-me das coisas de Deus. O que pode a fé!
Conte-me. Interessa-me tudo quanto me relata. Certas dúvidas se vão
desvanecendo. As orações das crianças, suas protegidas, e as suas
são ouvidas. Quanto a admiro! Invejo a sua fé!
Depois disto, e passado
tempo, terminou os seus dias, pedindo enterro católico. Tenhamos,
pois, muita honra e bem entendida vaidade em podermos dizer que
somos homens do nosso tempo sendo católicos.
SEJAMOS APÓSTOLOS
… Pelo exemplo
Escreveu, e como sempre
muito bem, o glorioso Senhor Cardeal Cerejeira que quem julga
possuir um bem de que as almas têm fome e não sofre porque elas o
partilhem, ou não tem fé no bem que possui ou na sua alma o bem não
entrou.
Passamos por vezes o
tempo a falar dos direitos dos homens e é preciso que também
passemos a falar nos direitos de Deus; temos que afervorar o nosso
zelo e as nossas orações para que aumente o Reino de Cristo.
Todos os cristãos têm o
dever de ser apóstolos e há dois apostolados que por todos devem ser
praticados: a apostolado da oração e o apostolado do exemplo.
Ser cristão é professar
a doutrina de Cristo. Os cristãos não têm direito de ser uns inúteis
no mundo.
Devemos ter a convicção
de que é uma honra servir a Igreja e de que não é a Igreja que
precisa de nós, mas somos nós que precisamos da Igreja.
Somos filhos de Deus e
a Ele devemos adoração como nosso Criador, gratidão como nosso
Redentor e amor como nosso Santificador. Essa adoração, essa
gratidão e amor à SS.ma Trindade deve traduzir-se e manifestar-se
por obras
Se Me amais,
disse Jesus, observai os meus mandamentos. Vós sois meus amigos,
disse ainda Jesus, se fizerdes o que vos mando. E, se
quisermos saber o que Deus nos manda, ouçamos a Igreja, que é Jesus
no meio de nós.
Se quisermos cooperar
no triunfo do Reino de Cristo, preguemos pelo exemplo a doutrina de
Cristo. Como?, dirá alguém.
Um dia, e já no
convento, disse o meigo S. Francisco de Assis a um dos seus
religiosos: vamos pregar. Saíram, deram uma volta pela cidade
e depois voltaram ao convento. Então, já recolhemos”, disse o
companheiro a S. Francisco. Já está feita a pregação, disse o
Santo. A modéstia com que se apresentaram na cidade, o bom nome de
que eram portadores, a expressão sobrenatural dos seus olhares nada
curiosos dos outros, aquele aspecto de santidade das suas pessoas,
que manifestavam muita vida interior e penitência, aqueles seus
hábitos, que significavam desprezo da carne e de luxos, tudo isso,
no seu conjunto, pregava a todos o que a mensagem de Nossa Senhora
de Fátima nos diz: guerra às modas no que elas têm de excesso e de
maldição, mudança de toda a vida que seja má e penitência por nós e
pelo mundo desvairado.
Muda de nome ou muda
de costumes, disse Alexandre Magno a um soldado de maus costumes
e que tinha o seu nome – o de Alexandre. Inutilmente nos dizemos
cristãos se não formos imitadores de Cristo, mas faremos o melhor
apostolado do bom exemplo se cumprirmos a vontade de Deus, que nos
fala à consciência pelos seus mandamentos e pelo que diz a Igreja
docente.
… Pela oração
Enquanto ao apostolado
da oração, sabemos que todos podem e devem pedir a Deus que venha a
nós o seu Reino, a fim de que todos os homens louvem o Senhor.
Se, sem o auxílio de
Jesus, nada podemos fazer e, por meio do seu auxílio, por meio da
oração, tudo conseguiremos, nunca a nossa oração será tão aceite
como quando pedimos a Deus o Reino Social de Jesus. Se Santa
Teresinha do Menino Jesus, “este milagre da graça e prodígio de
milagres”, é, no dizer de Pio XI, “a maior santa e o maior e
mais famoso missionário dos tempos modernos”, deve-se ao seu
apostolado de oração. Elisabeth Leseur – essa mulher admirável a
quem o sábio Le Dantec chamava o espírito mais profundo então seu
conhecido, escreveu um dia: “a vida de todos nós é uma
responsabilidade. E somos culpados não somente do mal que fazemos
como do bem que deixamos de fazer”. E só Deus sabe o bem que
podemos operar pela oração. Quem ora bem busca primeiro o Reino de
Deus e a sua justiça, e por isso mesmo, embora o não pareça, tudo o
mais lhe será dado por acréscimo. Quem ora bem faz apostolado,
também pode converter e santificar almas.
Havendo hoje oradores e
sábios, como nunca, qual o motivo de não estar convertido o mundo? –
É porque não há vida de oração, não há vida interior. Santa
Teresinha converteu muitas almas e como foi se converter almas é
obra sobrenatural? Porque era um cálice cheio, bem cheio de Jesus, a
transbordar sobre as almas e sobre a Igreja.
É por isso que devemos
considerar os conventos e casas religiosas – essas casas de oração e
imolação – como lugares sagrados e pára-raios da justiça divina.
Quantas e quantas conversões, que nós atribuímos a isto ou àquilo,
se devem a almas santas que, por intermédio das suas orações e
sofrimentos, tudo transformam e tudo alcançam de Deus!
Para fazer o elogio
mais apreciável do Apostolado da Oração, eu quero servir-me das
palavras de Pio XI, um dos melhores papas de todos os tempos: “A
oração primeiro que tudo… Todos os actos da Acção Católica, grandes
ou pequenos, devem ser preparados, assistidos e dos pela
oração”.
Bem dizia S. Agostinho:
“Quem sabe orar bem sabe viver bem”. E aos novos e àqueles que
afirmavam que a Religião obrigava ao cumprimento de coisas
impossíveis à natureza humana, S. Agostinho respondia e responde:
“Deus não manda coisas impossíveis, mas, ao mandar, exorta a fazeres
o que podes e a pedir o que não podes, e, assim, pela oração bem
feita, ajuda sempre para que possas”.
Não pode ser feito
maior elogio do valor e necessidade da oração.
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