Esta carta é um exemplo de respeito pela hierarquia, mas também de
verticalidade, firmeza no amor à Igreja e à verdade. Ela, que deve
ser das mais importantes cartas que o Dr. Dias de Azevedo escreveu,
tem no conteúdo alguma semelhança com os artigos de resposta que
mais tarde havia de publicar.
Como a Circular do Arcebispo data de 25 de Julho e a carta do é 2 de
Agosto seguinte, o médico foi rápido a reagir – recusa liminarmente
as conclusões do relatório que a irresponsável comissão deduzira (“quinta
palavra”).
A “segunda palavra” justifica uma atenção especial já que o
signatário assume aí o compromisso de responder a quem quer que seja
que ponha em causa o bom nome da Beata Alexandrina ou o brio
profissional dele. E é esse compromisso que o envolverá nas
polémicas de que se vai falar à frente. Talvez esse compromisso
tenha contribuído para o silêncio da imprensa ligada à Arquidiocese:
um exaltado como era o Cónego Molho de Faria nunca veio a público
defender ou atacar qualquer ponto de vista sobre o assunto.
Repare-se ainda na clareza de toda a exposição.
***
Ex.mo e Rev.mo Senhor Arcebispo Primaz
Recebi o amável cartão de V. Exa. Rev.ma, acompanhado do
parecer duma comissão e dumas determinações, relativas ao
caso, há muito falado, de Balasar. No fim de ler tudo o que
me era dito, senti o dever de dizer a V. Exa. Rev.ma, com o
maior respeito e com a maior franqueza, umas cinco palavras:
1.ª Palavra: guardarei sempre em meu coração as palavras
amáveis do cartão do Senhor Arcebispo Primaz, agradecendo-lhas,
muito penhorado.
2.ª Palavra: procurarei ter a maior prudência, ao ser
provocado a falar ou escrever da Alexandrina e sempre
recordarei as determinações de V. Ex.cia Rev.ma, para lhes
ser obediente, na medida do possível, salva a liberdade para
responder a qualquer crítica referente ao caso, saída em
qualquer jornal ou revista de responsabilidade, pois não
posso nem quero menosprezar o meu brio profissional.
3.ª Palavra: continuarei inabalável, até que a razão ou o
bom senso me aconselhem atitude diferente, no mesmo posto de
observação, prudência, investigação clínica e admiração pela
Alexandrina, verdadeira mártir, que o tempo e Deus plena e
brilhantemente justificarão. |

Dom António Bento Mrtins
Júnior, Arcebispo de Braga |
4.ª Palavra: servindo-me da ideia do Prof. da Faculdade de Medicina
do Porto, Senhor Dr. Mazano, que, falando sobre este caso, mostrando-se
muito interessado por ele, disse “não há explicação possível para já
não comer há dois anos”, eu continuo, como médico, sem receio de ser
confundido, a afirmar que este caso é extraordinário, porque
a Ciência diz que uma mulher de 39 anos, de vida intelectual e
afectiva intensas, de faculdades e sentidos normais, passando alguns
dias e noites sem dormir, e dormindo pouco durante o outro tempo,
conservando invariavelmente ou com pequena variação o mesmo peso,
conservando ainda o sangue normal nos seus elementos constitutivos
ou de desassimilação, vivendo não somente quarenta dias completos e
consecutivos (sob vigilância, de dia e de noite, feita por algumas
pessoas descrentes), mas dois anos e três meses, aquele primeiro
período em abstinência absoluta de alimentos sólidos e líquidos,
incluindo a simples água, e o outro período em abstinência absoluta
de substâncias alimentares, simplesmente bebendo, um ou outra dia,
por imposição médica, uma ou outra colherinha de água simples, com o
fim de diminuir a secura que em sua boca por vezes sente, constitui
um facto verdadeiramente extraordinário, não sendo preciso para esta
classificação que os médicos tenham de pedir licença aos filósofos
ou teólogos para digna e justamente a fazerem. A quem me disser que
há um parecer de filósofos e teólogos que, invadindo campo defeso,
significa não ser extraordinário este facto (que maravilhou um
especialista de Neurologia não crente em vários dogmas católicos, a
ponto de anunciar que devemos ficar “suspensos, aguardando que uma
explicação clara faça a necessária luz”, pois a observação da
Alexandrina tinha podido “ser segura, firme, incontestável, só
deixando dúvidas aos que têm o hábito de duvidar … de si próprios”),
eu responderei que quem tiver lido a História e a biografia de
algumas criaturas extraordinárias sabe bem o valor dos pareceres de
uma ou outra comissão. A Igreja só quer a verdade e eu amo uma e
outra.
5.ª Palavra: a Comissão, lendo isto, há-de julgar que esta prosa é
um pouco enfadonha e estranha a amantes da filosofia e teologia, e
eu, para a suavizar, peço licença para citar as palavras do Pe.
Louis Capalle, S.J., em Les âmes généreuses, pág. 165 e segs.:
La vérité théologique et expérimentale est que Dieu n’a pas donné
aux âmes une résistance illimitée, et qu’Il a laissé aux directeurs
ou supérieurs imprudents la puissance redoutable d’entraver ou même
de ruiner l’œuvre magnifique qu’Il se proposait d’accomplir. Nier
cette vérité ou même chercher à l’atténuer par sophismes spécieux,
serait atteindre par le fait même la notion de responsabilité,
fondement essentiel de toute morale. (1)
E, depois de mais frases muito interessantes, diz ainda:
Malheureusement, après une réponse évident, on en veut souvent
une plus évident encore; et ainsi on oublie que Dieu, souverainement
indépendant, ne se plie pas toujours aux exigences de ses créatures.
Il donne assez de lumières pour que l’on puisse raisonnablement
conclure à son intervention, et Il laisse assez de ténèbres pour que
l’on ait le mérite d’une humble soumission. (2)
Todas estas frases podem resumir-se em poucas: as determinações de
V. Ex.cia, no geral, são justas, embora o tempo não venha a
justificar algumas palavras como “pretensos”, e o parecer da
Comissão, enquanto ao facto, é exorbitante, negando-lhe a qualidade
de extraordinário e dando lugar até a juízos temerários, o que não
fica bem a filósofos e muito menos a teólogos. Termino esta, fazendo
votos pela preciosa vida de V. Ex.cia Rev.ma e pedindo que esta
carta seja anexa ao supra mencionado parecer da referida Comissão
(ou ao relatório dos médicos) que se pronunciou sobre a grande
mártir que é a Alexandrina de Balasar, a quem o Mons. Vilar chamava
sua “protectora”, a sua “colaboradora providencial”, “a sua
cooperadora mais fiel que Jesus lhe deu”. E esse valia uma Comissão.
Beijo as mãos sagradas de V. Ex.cia Rev.ma.
Manuel Augusto Dias de Azevedo
Ribeirão, 2 de Agosto de 1944.
***
(1) A verdade
teológica e experimental é que Deus não deu às almas resistência
ilimitada, e que Ele deixou aos diretores ou superiores incautos o
formidável poder de impedir ou mesmo arruinar a magnífica obra que
Ele pretendia realizar. Negar esta verdade ou mesmo procurar atenuá-la
com sofismas ilusórios
seria atingir com isso a noção de responsabilidade, fundamento essencial de qualquer moralidade.
(2) Infelizmente, depois de uma resposta óbvia, muitas vezes
queremos uma ainda mais óbvia; e assim ou esquecemos que Deus,
soberanamente independente, nem sempre se verga às exigências das
suas criaturas. Ele nos dá luz suficiente para que possamos concluir
razoavelmente sua intervenção, e deixa escuridão suficiente para que
tenhamos o mérito de uma humilde submissão. |