DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

CARTA AO ARCEBISPO PRIMAZ (1944)

 

Esta carta é um exemplo de respeito pela hierarquia, mas também de verticalidade, firmeza no amor à Igreja e à verdade. Ela, que deve ser das mais importantes cartas que o Dr. Dias de Azevedo escreveu, tem no conteúdo alguma semelhança com os artigos de resposta que mais tarde havia de publicar.

Como a Circular do Arcebispo data de 25 de Julho e a carta do é 2 de Agosto seguinte, o médico foi rápido a reagir – recusa liminarmente as conclusões do relatório que a irresponsável comissão deduzira (“quinta palavra”).

A “segunda palavra” justifica uma atenção especial já que o signatário assume aí o compromisso de responder a quem quer que seja que ponha em causa o bom nome da Beata Alexandrina ou o brio profissional dele. E é esse compromisso que o envolverá nas polémicas de que se vai falar à frente. Talvez esse compromisso tenha contribuído para o silêncio da imprensa ligada à Arquidiocese: um exaltado como era o Cónego Molho de Faria nunca veio a público defender ou atacar qualquer ponto de vista sobre o assunto.

Repare-se ainda na clareza de toda a exposição.

 ***

Ex.mo e Rev.mo Senhor Arcebispo Primaz

Recebi o amável cartão de V. Exa. Rev.ma, acompanhado do parecer duma comissão e dumas determinações, relativas ao caso, há muito falado, de Balasar. No fim de ler tudo o que me era dito, senti o dever de dizer a V. Exa. Rev.ma, com o maior respeito e com a maior franqueza, umas cinco palavras:

 

1.ª Palavra: guardarei sempre em meu coração as palavras amáveis do cartão do Senhor Arcebispo Primaz, agradecendo-lhas, muito penhorado.

2.ª Palavra: procurarei ter a maior prudência, ao ser provocado a falar ou escrever da Alexandrina e sempre recordarei as determinações de V. Ex.cia Rev.ma, para lhes ser obediente, na medida do possível, salva a liberdade para responder a qualquer crítica referente ao caso, saída em qualquer jornal ou revista de responsabilidade, pois não posso nem quero menosprezar o meu brio profissional.

3.ª Palavra: continuarei inabalável, até que a razão ou o bom senso me aconselhem atitude diferente, no mesmo posto de observação, prudência, investigação clínica e admiração pela Alexandrina, verdadeira mártir, que o tempo e Deus plena e brilhantemente justificarão.

Dom António Bento Mrtins Júnior, Arcebispo de Braga

4.ª Palavra: servindo-me da ideia do Prof. da Faculdade de Medicina do Porto, Senhor Dr. Mazano, que, falando sobre este caso, mostrando-se muito interessado por ele, disse “não há explicação possível para já não comer há dois anos”, eu continuo, como médico, sem receio de ser confundido, a afirmar que este caso é extraordinário, porque a Ciência diz que uma mulher de 39 anos, de vida intelectual e afectiva intensas, de faculdades e sentidos normais, passando alguns dias e noites sem dormir, e dormindo pouco durante o outro tempo, conservando invariavelmente ou com pequena variação o mesmo peso, conservando ainda o sangue normal nos seus elementos constitutivos ou de desassimilação, vivendo não somente quarenta dias completos e consecutivos (sob vigilância, de dia e de noite, feita por algumas pessoas descrentes), mas dois anos e três meses, aquele primeiro período em abstinência absoluta de alimentos sólidos e líquidos, incluindo a simples água, e o outro período em abstinência absoluta de substâncias alimentares, simplesmente bebendo, um ou outra dia, por imposição médica, uma ou outra colherinha de água simples, com o fim de diminuir a secura que em sua boca por vezes sente, constitui um facto verdadeiramente extraordinário, não sendo preciso para esta classificação que os médicos tenham de pedir licença aos filósofos ou teólogos para digna e justamente a fazerem. A quem me disser que há um parecer de filósofos e teólogos que, invadindo campo defeso, significa não ser extraordinário este facto (que maravilhou um especialista de Neurologia não crente em vários dogmas católicos, a ponto de anunciar que devemos ficar “suspensos, aguardando que uma explicação clara faça a necessária luz”, pois a observação da Alexandrina tinha podido “ser segura, firme, incontestável, só deixando dúvidas aos que têm o hábito de duvidar … de si próprios”), eu responderei que quem tiver lido a História e a biografia de algumas criaturas extraordinárias sabe bem o valor dos pareceres de uma ou outra comissão. A Igreja só quer a verdade e eu amo uma e outra.

5.ª Palavra: a Comissão, lendo isto, há-de julgar que esta prosa é um pouco enfadonha e estranha a amantes da filosofia e teologia, e eu, para a suavizar, peço licença para citar as palavras do Pe. Louis Capalle, S.J., em Les âmes généreuses, pág. 165 e segs.:

La vérité théologique et expérimentale est que Dieu n’a pas donné aux âmes une résistance illimitée, et qu’Il a laissé aux directeurs ou supérieurs imprudents la puissance redoutable d’entraver ou même de ruiner l’œuvre magnifique qu’Il se proposait d’accomplir. Nier cette vérité ou même chercher à l’atténuer par sophismes spécieux, serait atteindre par le fait même la notion de responsabilité, fondement essentiel de toute morale. (1)

E, depois de mais frases muito interessantes, diz ainda:

Malheureusement, après une réponse évident, on en veut souvent une plus évident encore; et ainsi on oublie que Dieu, souverainement indépendant, ne se plie pas toujours aux exigences de ses créatures. Il donne assez de lumières pour que l’on puisse raisonnablement conclure à son intervention, et Il laisse assez de ténèbres pour que l’on ait le mérite d’une humble soumission. (2)

Todas estas frases podem resumir-se em poucas: as determinações de V. Ex.cia, no geral, são justas, embora o tempo não venha a justificar algumas palavras como “pretensos”, e o parecer da Comissão, enquanto ao facto, é exorbitante, negando-lhe a qualidade de extraordinário e dando lugar até a juízos temerários, o que não fica bem a filósofos e muito menos a teólogos. Termino esta, fazendo votos pela preciosa vida de V. Ex.cia Rev.ma e pedindo que esta carta seja anexa ao supra mencionado parecer da referida Comissão (ou ao relatório dos médicos) que se pronunciou sobre a grande mártir que é a Alexandrina de Balasar, a quem o Mons. Vilar chamava sua “protectora”, a sua “colaboradora providencial”, “a sua cooperadora mais fiel que Jesus lhe deu”. E esse valia uma Comissão.

Beijo as mãos sagradas de V. Ex.cia Rev.ma.

Manuel Augusto Dias de Azevedo

Ribeirão, 2 de Agosto de 1944.

***

(1) A verdade teológica e experimental é que Deus não deu às almas resistência ilimitada, e que Ele deixou aos diretores ou superiores incautos o formidável poder de impedir ou mesmo arruinar a magnífica obra que Ele pretendia realizar. Negar esta verdade ou mesmo procurar atenuá-la com sofismas ilusórios seria atingir com isso a noção de responsabilidade, fundamento essencial de qualquer moralidade.

(2) Infelizmente, depois de uma resposta óbvia, muitas vezes queremos uma ainda mais óbvia; e assim ou esquecemos que Deus, soberanamente independente, nem sempre se verga às exigências das suas criaturas. Ele nos dá luz suficiente para que possamos concluir razoavelmente sua intervenção, e deixa escuridão suficiente para que tenhamos o mérito de uma humilde submissão.

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