DR. MANUEL AUGUSTO DIAS DE AZEVEDO

A “DOENTINHA” DE BALASAR

 

Manuel Vaz Pacheco de Miranda, director do Jornal de Notícias, 30/6/53

 

Este importante artigo não fala do Dr. Dias de Azevedo, antes da Beata Alexandrina. Mas influenciou a vida dos dois: no dia em que foi publicado, o médico pôs fim à avalanche de visitantes que desde os meses anteriores acorriam a Balasar. Depois, travou-se um duro embate ente o médico e o director do jornal.

O director do JN veio a Balasar e foi uma testemunha presencial do que lá se passava, mas, apesar do tom doutoral com que escreve, quer-nos parecer que exagerou num ou outro aspecto, além de ter errado algumas afirmações sobre a Doentinha.

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O “caso” de Balasar não é novo.

Já há seis anos, em Novembro de 1947, o Jornal de Notícias dele se ocupou largamente, publicando uma entrevista com a doente, a quem, agora, por ignorância ou superstição, chamam a Santinha, e referindo a súmula dum relatório feito a propósito do assunto por alguns médicos que a examinaram e a tiveram em observação durante precisamente 40 dias.

 

Fotografia que mostra a multidão que se aglomerava à porta da casa da Beata Alexandrina e que ilustrava o artigo do director do JN. Ela peca por defeito já que não mostra os inúmeros autocarros, automóveis, carros de cavalo e bicicletas em que os visitantes de mais longe se deslocavam e que deviam encher a estrada até ao lugar balasarense do Telo, senão mais.

 

A Alexandrina, a doente de Balasar, tem esta particularidade singularíssima: não se alimenta de sólidos nem de líquidos, nem tem micções nem evacuações – e vive recebendo a comunhão diariamente.

Não passa normalmente, como nós, conservando-se no leito, imobilizada, denotando uma aparente frescura e resistência física, falando sem dificuldade – toda voltada para as coisas do Céu.

Aos quinze anos, menina ainda, sofreu uma queda por emoção violenta, de que lhe resultou perturbação dispéptica com depressões neuro-psíquicas e paralisia, de que não pôde libertar-se. Aos vinte anos, os padecimentos agravaram-se-lhe, forçando-a a recolher à cama. Todavia a sua precária saúde ainda não a impedia de alimentar-se. Volvidos anos, o seu estado piorou. Sobrevieram crises de vómito, que a não deixavam tomar refeições, por mais ligeiras. E continuou assim, com alternativas de melhoras e pioras, comendo umas vezes, não comendo outras. Finalmente, a última crise foi decisiva: a doente deixou totalmente de receber alimentos.

Em 1941, visitada por um neurologista do Porto e um professor da Faculdade de Medicina, estes diagnosticaram-lhe uma paralisia ergástica. Dois anos depois, a Alexandrina vem para esta cidade, recolhe a uma clínica particular e, durante 40 dias, é vigiada de dia e de noite e observada constantemente por vários médicos. Apura-se que efectivamente a abstinência alimentar é total, apesar dos clínicos insistirem com ela para comer. A doente, que mostra certa doçura, recusa-se a ingerir seja o que for e diz apenas: - Deus não quer. Os cientistas, que encontraram na linha ascendente da doente alguns casos de tuberculose e de cancro, fizeram um Relatório, acentuando as impressões clínicas e morais que o exame da doente lhes permitiu fixar e que, dum modo geral, sublinham a singularidade do caso, considerando a Alexandrina uma criatura dócil, reflectida, inteligente até, e confessando mesmo que o seu estado físico, sendo depressivo, apresenta porém uma certa resistência e frescura. Em conclusão, a Alexandrina é uma neuropata, mas as circunstâncias específicas da sua doença, podendo ser explicadas até certo ponto, tornam-se incompreensíveis sob alguns aspectos, aguardando-se que a ciência os possa esclarecer mais completamente.

O caso clínico era este em 1947.

Depois disso – tudo se manteve, tudo se mantém na mesma, à excepção da fama que a doente alcançou por todo o país e até em Espanha, e que tornou a sua casa e sua terra um lugar extraordinariamente visitado, oferecendo a concorrência de populares ali aspectos de peregrinação.

Com efeito, há meses que uma grande parte da população portuguesa e espanhola corre para Balasar. A princípio, a doente falava com as pessoas que a procuravam, e que na sua maioria pediam que intercedesse por elas – e pelos seus males. Depois, os visitantes cresceram, cresceram sempre. Tal facto determinou que as visitas se fizessem em grupos de 50 indivíduos. Então, já os “peregrinos” não pediam: a Alexandrina falava-lhes, e um senhor médico do lugar, com quem pro acaso conversámos, disse-nos que ela fazia, nessas ocasiões, práticas elevadas, verdadeiras homilias, com superior elevação moral e religiosa. Mas os curiosos, os que queriam ver a “Santinha”, aumentavam todos os dias, tornando-se por fim autêntica avalanche. Agora a doente já não fala: vê desfilar os visitantes, que entram por uma porta, passam à sala e ao quarto onde ela se encontra e saem por outra porta.

No dia 10 do corrente, estiveram em, Balasar mais de 90 camionetas – e muitas dezenas de automóveis. Como nos tivessem dito que a doente seria visitada por alguns homens de ciência, no dia de ontem, fomos ali. A notícia não era inteiramente verdadeira. Mas aquilo que nos afirmavam sobre os ajuntamentos populares, vimo-lo nós, e por forma pouco edificante. Camionetas, carros ligeiros, carros de cavalos, arrumavam-se às dezenas pela estrada que leva à casa da Alexandrina, chegando, em certa altura, a obstruir o trânsito. A fieira de “peregrinos” é enorme, de todas as condições e de todas as idades; e a dos pobres que habitualmente pedem nas romarias e das festas não é menor.

Há recantos onde os veículos procuram arrumar-se, mas a estrada é estreita e tudo parece atropelar-se. Em certo ponto, deitaram um muro abaixo e improvisaram uma espécie de parque de estacionamento. Como o nosso carro não pudesse passar da meia estrada, galgámos a pé quase dois quilómetros até à pequenina casa rural onde vide a doente, à margem do caminho, dentro dum terreno.

O espectáculo é desolador.

A multidão comprime-se a tomar vez. A bicha, enorme, é regulamentada e fiscalizada. A maior parte das pessoas desistem porque, se ficassem, veriam chegar a noite sem satisfazerem o seu desejo. Em locais próximos, à sombra das árvores, há famílias – que merendam – como se estivessem no Senhor da Pedra.

Qualquer que seja a particularidade excepcional que a doente possua, e que torne a sua pessoa isenta de responsabilidade naquilo que se está a passar, o que não há dúvida é que a multidão que ali aflui é movida, quase inteiramente, por uma baixa superstição – que carece ser reprimida. Parece que também há quem deixe esmolas para as missões. É exacto o que ouvimos? O jornalzinho do Padre Américo já protestou contra o baixo sentimento que faz juntar em Balasar avalanches de povoléu, dizendo ao mesmo tempo que há quem incite os peregrinos a deixar dinheiro para a Casa do Gaiato – expediente menos verdadeiro, que apenas revela especulação.

O espectáculo a que nos referimos não dignifica ninguém.

Importa acabar com ele quanto antes, até para sossego da pobre Alexandrina, que ao fim e ao cabo é a mais maçada – e a mais sacrificada.

As autoridades devem intervir, saneando e purificando aquele ambiente pestífero, de baixa crença, de supersticiosa devoção.

Informam-nos que a doente será observada dentro de dias por uma equipa de médicos espanhóis e portugueses e que a autoridade eclesiástica, que nada disse ainda sobre o caso, aguarda as conclusões a que esses cientistas chegarem. Todavia e para já, o fenómeno de Balasar, no aspecto social, tal como se apresenta, não pode de modo nenhum merecer a aprovação da Igreja. Aquilo é demais!

É uma coisa grosseira – que envergonha!

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